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Plínio Fraga


Crivella se converteu de pastor lulista a guerreiro bolsonarista

Página da HQ "Vingadores: A Cruzada das Crianças", que o prefeito Marcelo Crivella afirmou ser "conteúdo sexual para menores" - Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Página da HQ "Vingadores: A Cruzada das Crianças", que o prefeito Marcelo Crivella afirmou ser "conteúdo sexual para menores" Imagem: Wilton Junior/Estadão Conteúdo
Plínio Fraga

Plínio Fraga é jornalista desde 1989. Foi editor-chefe da revista Época, editor de política da Folha e do Jornal do Brasil e repórter da revista Piauí e de O Globo. Lançou em 2017 a biografia "Tancredo Neves, o príncipe civil" (editora Objetiva). É doutorando Mídia e Mediações Socioculturais na Universidade Federal do Rio de Janeiro. A coluna se propõe a olhar com lupa o ir-e-vir e os desvãos da política. Análises, perfis e reportagens sobre eleições, governos, congresso, assembleias, marketing político, pesquisas eleitorais, as redes sociais como nova praça pública, debates de ideias e políticas públicas, como segurança, redução da desigualdade e crescimento econômico

Colunista do UOL

04/12/2019 11h04

O prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (PRB), já foi lulista de carteirinha e dizia que a ex-presidente Dilma Rousseff era um "poço de ternura". Como os tempos mudaram, converteu-se em um bolsonarista engajado, de linguagem aguerrida e rotulador de notícias incômodas como "fake news".

De um extremo ao outro do quadro político, o papel que Crivella mais gosta para si é o de vítima. Em reuniões com sua equipe de comunicação, por mais de uma vez esbravejou contra órgãos de imprensa que supostamente o perseguem.

Nesta semana, após reportagem de O Globo sobre investigação que apura corrupção e tráfico de influência na Prefeitura do Rio, proibiu que jornalistas do grupo participassem de entrevista em que anunciou as atrações do Réveillon carioca.

Crivella, com a experiência de bispo da Igreja Universal, fala de maneira bem articulada e no tom próprio para a televisão e o rádio. Prefere dar entrevistas adocicadas para a Record _ controlada pela igreja do seu tio, Edir Macedo _ ou para apresentadores amigos _ em recente entrevista para Ratinho, no SBT, disse: "Somos amigos desde o tempo da Record, porra!".

O uso da interjeição deselegante não parece ter sido um escorregão, diga-se. Crivella busca calculadamente vincular-se de alguma maneira ao eleitor bolsonarista, que se ouriça mais com uniformes camuflados do que com as vestes de pastor.

O prefeito acredita tanto em seu poder de comunicação direta que escorrega na arrogância. Quando a ciclovia Tim Maia, que liga o Leblon a São Conrado, enfrentou desmoronamentos pela quarta vez, fez graça: "A ciclovia cai tanto que vou batizá-la de Vasco da Gama". Teve de pedir desculpas aos vascaínos e aos familiares de dois mortos em um dos desmoronamentos.

A oratória de Crivella, em geral, é marcada por pontos repetitivos. Quem o critica o faz por ser "inimigo jurado dos evangélicos". Os adversários em geral são contra a família, a favor do aborto, do incesto, do adultério.

Em três anos de mandato, o prefeito do Rio protagonizou episódios de favorecimento à sua turma _ "fala com a Márcia" era a senha para furar a fila nos hospitais municipais _, de estímulo a censura _ quis proibir a venda de quadrinhos em que apareciam homossexuais _, e enfrentou uma enxurrada de críticas por desmazelos da cidade _ aumentou o número de buracos nas pistas, de bueiros entupidos e, consequentemente, de inundações no Rio.

Na conversa amiga com Ratinho neste mês, Crivella anunciou que tentará se reeleger prefeito. Instado a revelar seu maior feito administrativo, disse: "Eu não deixei o Rio quebrar. Sou o maior insatisfeito com meu governo no Rio porque tive de administrar crise o tempo todo". Com rombo de R$ 3 bilhões em suas contas, arrecadação em queda e sem capacidade de investimento, o município do Rio de Janeiro está entre os piores avaliados em ranking de gestão fiscal das capitais brasileiras, ocupando a penúltima posição, de acordo com índice recentemente divulgado.

O principal feito que Crivella pretende levar para debate parece frágil para sustentar uma candidatura viável. A dez meses do pleito, a disputa pela prefeitura do Rio desenha-se como difícil. À direita e à esquerda, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) e o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) se movimentam como candidatos fortes. A conversão de pastor lulista a guerreiro bolsonarista é a estratégia que restou ao prefeito para tentar salvar seu pescoço.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Plínio Fraga