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Reinaldo Azevedo

Fachin 2: O nome do medo é "anulação da condenação de Lula". Sejam claros!

Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: no fim das contas, todo o trololó supostamente legalista busca manter uma condenação suspeita e sem provas - Reprodução/Facebook
Ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva: no fim das contas, todo o trololó supostamente legalista busca manter uma condenação suspeita e sem provas Imagem: Reprodução/Facebook
Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo

Reinaldo Azevedo, que publicou aqui o primeiro post no dia 24 de junho de 2006, é colunista da Folha e âncora do programa “O É da Coisa”, na BandNews FM. No UOL, Reinaldo trata principalmente de política; envereda, quando necessário — e frequentemente é necessário —, pela economia e por temas que dizem respeito à cultura e aos costumes. É uma das páginas pessoais mais longevas do país: vai completar 13 anos no dia 24 de junho.

Colunista do UOL

14/09/2020 03h54

Não sei quantos esquerdistas o ministro Edson Fachin vai conseguir enganar com seu relatório cantando as glórias da Lava Jato (ver post acima), mas ele tenta. Afirma, por exemplo, que, dados os 800 mil presos que há no país, sabe-se a escolaridade de apenas 35%. Desses, "99% possuem apenas até o ensino médio incompleto, sendo expressiva a quantidade de analfabetos e aqueles somente com nível fundamental".

Sim. É verdade.

Lembra outro dado perverso: "As pessoas presas de cor preta e parda totalizam 63,6% da população carcerária nacional, consoante com dados do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias (Infopen) de junho de 2017".

Igualmente verdadeiro e igualmente lastimável. O que isso tudo vem a ver com as ilegalidades praticadas pela Lava Jato, que destruíram o espaço de interlocução política e contribuíram para levar Jair Bolsonaro ao poder, o que, como se tem notícia a toda hora, fez piorar em muito o trabalho da polícia Brasil afora?

Ao manejar esses números, Fachin tenta obter os aplausos da esquerda para justificar o seu alinhamento com a extrema direita lavajatista — ele, no caso, segue a linha "morista".

Pergunta óbvia de resposta idem: se a Lava Jato continuar a rasgar a Constituição, o país vai prender menos pretos e pobres? Se a operação garantir um segundo mandato a Bolsonaro — e parece que a força-tarefa do Rio, por exemplo, está empenhada nesse propósito —, a exclusão tende a aumentar.

OUTRO NÚMERO PARA TOLOS
Em outro ataque de demagogia, escreve o ministro que "apenas 1,43% dos presos responde (sic) por crimes contra a Administração Pública". E, claro!, nós devemos dizer "ohhhh" e aplaudir o ministro e a Lava-Jato. Isso é muito ou é pouco? Sem ter padrão de comparação, é impossível saber. Vocês se deram contra de que estamos falando de quase 11.500 pessoas?

Por óbvio, os crimes contra a administração pública são mesmo mais raros.

DEMONIZAÇÃO DA SEGUNDA TURMA E DE ARAS
O Fantástico deu destaque ao relatório do ministro acompanhado da seguinte introdução:
"Num momento em que a existência das forças-tarefas da Lava Jato está ameaçada pela resistência da Procuradoria-Geral da República e por decisões das cortes superiores em favor de investigados, o ministro do Supremo Tribunal Federal Edson Fachin fez um balanço para defender a importância da continuidade das investigações"

Então vamos pensar:
- A PGR estaria contra a Lava Jato;
- Fachin defende a continuidade das investigações;
- logo, opor-se à continuidade das forças-tarefas corresponderia a ser leniente com a corrução;
- a propósito: toda decisão em favor de investigados é errada por definição?

Mais adiante, a própria repórter afirma:
"A iniciativa do ministro Edson Fachin vem num momento em que a Lava Jato passa por dificuldades no próprio Supremo, com decisões na Segunda Turma que favoreceram investigados pela operação. A Lava Jato ainda é alvo de crítica do procurador-geral da República, Augusto Aras, e de mudanças nas forças-tarefas nos Estados e na própria procuradoria-geral".

Então vamos pensar:
- parte da expressão repete o editorial que abre a reportagem;
- as decisões da Segunda Turma estavam erradas por definição? Em uma delas, Sergio Moro havia juntado um interrogatório que ele mesmo havia conduzido depois das alegações finais. Em outra, anulou-se uma delação escancaradamente viciada. E daí? Com a devida vênia, o objetivo da reportagem-editorial não é informar, mas demonizar a Segunda Turma e Aras e exaltar Fachin e a Lava Jato.

Ou a Globo e o Fantástico defendem ações ilegais só para garantir o tal "combate à corrupção"?

Sim, a Globo faz jornalismo de excelência em boa parte do tempo. Quando, no entanto, a questão toca, vamos dizer, na "posição editorial da casa", danem-se os fatos. O que se tem é novela do tipo que não é mais exibida às 21h: de um lado, o mal absoluto; do outro, o bem.

Afinal, aprendemos com Fachin que a Lava Jato sempre segue a Constituição, mesmo quando não segue. E os que criticam a operação estão sempre errados, mesmo quando estão certos.

É assim que bandidos como Orlando Diniz, o tal da Fecomercio, e outros decidem quem vive e quem morre na República. É assim que se vende a mentira da "delação de R$ 1 bilhão" de Dario Messer.

No fim das contas, essa gente toda deveria dizer o nome do seu medo: Lula.

Como, Reinaldo?

Sim, o que não pode acontecer de jeito nenhum é a anulação da condenação do ex-presidente. Ainda que a falta de isenção de Sergio Moro seja uma evidência escancarada, o que Fachin nega, claro! Por isso ele se esconde atrás de pretos e pobres. E alguns outros escondem o seu reacionarismo batendo em Bolsonaro.

Lavajatismo antibolsonarista é uma das expressões da extrema direita no Brasil.

Caem na conversa os inocentes. E os nem tão inocentes assim fingem cair.

Reinaldo Azevedo