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Ronilso Pacheco

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Como o bolsonarismo traduz violência em um tipo de 'liberdade de expressão'

O deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) preso após ataques ao STF - Divulgação/Deputado Daniel Silveira
O deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) preso após ataques ao STF Imagem: Divulgação/Deputado Daniel Silveira
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

19/02/2021 04h00

A prisão do deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ) na terça-feira (16) ganhou as manchetes. Ele foi preso por ordem direta do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, depois que o deputado publicou um vídeo em que atacava diretamente os ministros da Corte.

Preso em flagrante, Daniel ainda teve tempo de gravar e publicar um vídeo enquanto policiais estavam à sua espera na sala de sua casa e manteve uma altivez de quem estava não apenas convicto, mas também apoiado em sua ação. E estava.

Nas redes sociais, apoiadores bolsonaristas de Daniel reivindicavam a ilegalidade da prisão, alegando que Daniel havia apenas exercido o seu direito à liberdade de expressão. E esta é a questão principal a ser levantada aqui: em que momento um ataque deliberado à Suprema Corte do país, junto com o louvor público à ditadura militar e seus torturadores, passou a ser nada além de "liberdade de expressão"?

Segundo Jason Stanley, pesquisador da universidade de Yale e autor do livro "Como o Fascismo funciona", uma das características do fascismo é fazer com que a linguagem de ideais democráticos assumam sentidos opostos e corrompidos, e a liberdade de expressão reivindicada é usada para suprimir discursos. É exatamente este o ponto.

O bolsonarismo animou a ideia de que expressões como "liberdade de expressão", "direitos humanos" e "democracia" não devem ser combatidas, mas ressignificadas, e é tudo o que tem sido feito.

Direitos humanos passaram a ser a escolha de quem deve ser tratado como humano ("vagabundos" não seriam humanos). E armas: ter armas se tornou a principal bandeira dos direitos humanos bolsonarista.

A democracia bolsonarista é nitidamente a defesa de uma governabilidade conservadora cristocênctrica fundamentalista. A defesa da democracia se resume à "manutenção da ordem", em tese, como era feita na ditadura militar, com repressão, violência, tortura e intimidação.

Liberdade de expressão portanto é poder ser —sem culpa— preconceituoso, misógino, racista, homofóbico e truculento. Todo rechaço é lançado na caixinha do "politicamente correto". Não há constrangimentos em elogiar a escravidão, a ditadura, considerar pessoas gays como fruto de famílias disfuncionais, humilhar quilombolas e indígenas e defender "surra" a ministros do STF.

Curioso saber que, mesmo no auge da ditadura, em que o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado e os militares tentaram sustentar a versão de suicídio, jamais, em qualquer situação, um defensor da ditadura ousou ridicularizar o jornalista ou rasgar em público um artigo assinado por ele, mostrando desprezo por sua vida e importância.

Em 2018, o deputado estadual Rodrigo Amorim (PSL-RJ) quebrou em público (ao lado de Daniel Silveira) uma placa com o nome da vereadora Marielle Franco, assassinada no mesmo ano. A satisfação de Amorim —usando camiseta com a estampa de Bolsonaro— e Silveira no ato é um exemplo emblemático de que alusão à violência e desrespeito à vida não causam constrangimento no bolsonarismo.

Amorim chegou a mandar emoldurar os fragmentos da placa quebrada e pôs pendurada em seu gabinete. O deputado considerou que o fragmento da falsa placa é o "símbolo da restauração da ordem no Rio de Janeiro". Em um mundo normal, a "restauração da ordem" seria inconciliável com a banalização e desprezo pelo assassinato de alguém. No mundo bolsonarista parece ser.

A julgar pela recente entrevista do general Villas Bôas, transformada em livro e publicada pela editora da FGV, o projeto almejado pelos quadros bolsonaristas tem sido desenvolvido com sucesso. No livro, o general afirma que Bolsonaro "deu ênfase ao combate ao politicamente correto" e que a população brasileira estava "carente de valores universais".

A insistência de Bolsonaro na flexibilização do porte e posse de armas no Brasil, o uso de projéteis para desenhar o símbolo do Aliança Pelo Brasil, partido que bolsonaristas ainda tentam emplacar, diz muito sobre a retórica da violência assumida com prazer e arrogância. Difícil explicar como num país de mais de 240 mil mortos pela pandemia, o assunto que vem do governo sejam armas e não vacinas, plano de vacinação e esforços em continuar vacinando.

O caso de Daniel Silveira expressa mais do que o sequestro do sentido da liberdade de expressão. O caso é uma emergencial luz vermelha sinalizando que, muito em breve, não saberemos mais se a democracia, a liberdade e os direitos humanos defenderão a vida ou a morte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL