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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Meio milhão de mortos e silêncio e desprezo de bolsonaristas. É o fim

Cemitério em Manaus (AM) em meio à pandemia de coronavírus - Bruno Kelly/Reuters
Cemitério em Manaus (AM) em meio à pandemia de coronavírus Imagem: Bruno Kelly/Reuters
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

20/06/2021 13h14

Sábado, 19 de junho. O Brasil chegou a triste marca que já parecia ser iminente que chegaria: ultrapassamos 500 mil mortes por covid-19 no país. Meio milhão de vidas perdidas. É assustador, impactante e frustrante que não tenhamos, mais de um ano depois, conseguido evitar algo tão doloroso.

No momento em que a imprensa começava a divulgar esta triste notícia, no sábado à tarde, as notícias foram se confundindo com postagens de pesar, luto, dor, solidariedade, espanto, tristeza. De formas diferentes, foram surgindo reações sobre o que significava, e o que se sentia, ao ver o país chegar nesse número de mortos pela pandemia.

Nesse momento, minha curiosidade foi ver como os bolsonaristas mais fiéis a Bolsonaro reagiriam à notícia. Era importante saber se havia algum limite para o negacionismo e a indiferença com relação à situação do país. Mas não houve decepção quanto a isso.

Na bolha bolsonaristas, parlamentares, pastores, apoiadores, figuras públicas que ignoraram solenemente meio milhão de mortes. Enquanto a população se pergunta se há hoje algum brasileiro que não tenha perdido alguém diretamente ou não conheça alguém que tenha perdido alguém para a pandemia, os bolsonaristas seguiram brincando de afirmar a "popularidade" de Bolsonaro.

No perfil do próprio presidente Bolsonaro estava entre zombar das manifestações e divulgar a entrega de títulos de propriedade feita por ele em Marabá, com uma comitiva que incluía desde ministros ao pastor Silas Malafaia.

O perfil da ministra Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos, não tem postagens desde o dia 16, e parece que meio milhão de mortos não teve apelo o suficiente para exigir qualquer publicação até o momento. O perfil do ministério no Twitter, igualmente silêncio.

Isto é particularmente grave, vindo do principal ministério que deveria demonstrar importância e cuidado com a vida das 500 mil famílias que perderam pessoas amadas. Nada a dizer para as muitas mulheres, filhas, mães, avós, que perderam alguém para a covid.

O deputado federal pelo Rio de Janeiro, Carlos Jordy, não apenas ignorou os meio milhão de mortos, como sua postagem foi uma foto em que ele participava de um churrasco que comemorava o PL 1208/21, proposto por ele. A imagem de uma celebração em um churrasco enquanto o mundo ao redor lamentava 500 mil mortos se tornou emblemático de como pensa o mundo bolsonarista.

O pastor Marco Feliciano, que desde 29 de abril mantém fixado em seu twitter uma postagem que diz que seu "amor por Israel e pelo povo judeu está imortalizado", não escreveu uma única linha sobre o fato do seu país ter perdido 500 mil vidas para a pandemia. Caberia saber se, enquanto pastor, nenhum membro de sua igreja em São Paulo foi afetado pela covid.

Igualmente, o bolsonarista Silas Malafaia, integrava a equipe do presidente na entrega de títulos de Marabá. Suas postagens se dedicaram a hostilizar as manifestações contra Bolsonaro e vídeos que buscavam mostrar como o presidente era "querido" pelo povo. Os pêsames e o luto por 500 mil mortos não foi lembrado.

Ontem, em meio as manifestações, milhares de evangélicos fizeram memória dos 500 mil mortos. Muitas manifestações tiveram minute de silêncio, orações, momento de luto, homenagens. Não deve haver nada de surpreendente nisso. É um mínimo que se espera de sacerdotes e lideranças religiosas em momentos como esses. Não se deve esperar de bolsonaristas.

As deputadas Carla Zambelli e Bia Kicis, também integrantes da tropa de choque de Bolsonaro, silenciaram sobre os mortos na pandemia. Nas redes sociais as postagens vão de hostilizar as manifestações a ataques ao ministro Luis Roberto Barroso, do STF, sobre o voto impresso, a exibir o "avanço" do Brasil no ranking desempenho de vacinação dos países.

O único a "furar a bolha" de frieza, desprezo e indiferença do universo bolsonarista foi o senador Marco Rogério. Ainda no dia 19 a noite, fez uma postagem em sua conta no Twitter, que falava de luto por "500 mil histórias interrompidas". É que tenhamos de "celebrar" que alguém expressou mínimas condolências por 500 mil mortos.

Esse silêncio diz muito sobre o mundo bolsonarista. E o que diz é profundamente entristecedor. Não há sensibilidade e solidariedade de um governo amante de armas, violência e militarismo. Como um grupo de crianças pirracentas e insatisfeitas, se divertem atacando e hostilizando adversários, manifestações contrárias, esquerda, comunismo, qualquer coisa. Este é o dilema. Um governo que não respeita seus mortos, não vai mesmo valorizar a vida, de ninguém.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL