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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Vacinação estagnada por traumas e fake news nos EUA é alerta ao Brasil

21.dez.2020 - Joe Biden recebe vacina contra a covid-19 em Delaware, nos EUA - JOSHUA ROBERTS/AFP
21.dez.2020 - Joe Biden recebe vacina contra a covid-19 em Delaware, nos EUA Imagem: JOSHUA ROBERTS/AFP
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

01/10/2021 04h00

Hoje, nos Estados Unidos, cerca de 100 mil americanos estão hospitalizados com covid-19 e mais de mil pessoas morrem todos os dias —os números abrangem todas as faixas etárias e classes sociais.

Mas o fator mais importante a se considerar é que cerca de 98% dessas pessoas têm em comum o fato de não terem sido vacinadas. Mais do que isso: elas optaram por não se vacinar, apesar da pronta disponibilidade de vacinas contra covid, de acordo com pesquisa da Kaiser Family Foundation.

Essa tem sido a luta inclemente das autoridades norte-americanas. Não é por acaso que o prefeito Bill de Blasio reagiu de forma indignada, e ao mesmo tempo debochada, com a atitude de Jair Bolsonaro em sua passagem pela cidade de Nova York para participar do encontro na ONU (Organização das Nações Unidas).

Bolsonaro irritou e frustrou os esforços perseverantes das autoridades no sentido de convencer a sua população não vacinada a vencer traumas e desinformações para reconhecerem a necessidade da vacina. Não por acaso, o presidente dos EUA Joe Biden tem feito uma verdadeira peregrinação, implorando aos americanos resistentes que se vacinem. A luta se tornou árdua.

Ranking negacionista

No topo da resistência antivacina, está o grupo dos republicanos, principalmente os mais trumpistas. Eles são 46% dos que disseram que nunca tomarão a vacina —e há grande probabilidade de que não mudarão de opinião.

Para se ter uma ideia, entre os democratas, apenas 5% dizem que nunca serão vacinados e 86% relataram ter ao menos uma dose.

Em segundo lugar no ranking do negacionismo, surgem os evangélicos brancos, grupo religioso majoritariamente republicano —eles são 44% entre os que continuam se recusando a tomar a vacina.

O grupo é seguido pelos protestantes hispânicos, de acordo com uma pesquisa do Public Religion Research Institute.

A convicção religiosa incide inclusive entre os profissionais de saúde. O Departamento de Saúde do Estado de Nova York emitiu uma ordem exigindo que todos os profissionais de saúde recebessem ao menos sua primeira vacina contra covid até 27 de setembro. Isso porque cerca de 5.000 dos mais de 40 mil profissionais de saúde da cidade se recusaram a tomar vacinar

A prefeitura, bem como muitas instituições privadas, demitiu vários profissionais que se negaram a se vacinar. Os trabalhadores da saúde que demitidos não tiveram direito ao seguro-desemprego.

Agora, é possível que eles se recusem, assinando um termo de responsabilidade e comprovando filiação religiosa e que há recomendação de sua liderança religiosa para recusar a vacinação.

Resistência à vacina na comunidade negra

Convicções religiosas se misturam com invenção e crença nas mais diversas fake news. Cresce o número de grupos de republicanos trumpistas que compartilham as mais variadas teorias da conspiração com relação à vacina (implantação de chip, espionagem russa, estratégia do anticristo, fidelidade ideológica aos democratas, alteração da mente, etc.).

Na outra ponta, a resistência também tem sido forte entre a comunidade negra. Em Nova York e Geórgia, essa resistência só diminuiu com o intenso trabalho de lideranças negras locais, notadamente os pastores e lideranças religiosas das igrejas negras.

Aqui a desconfiança na indústria médica pode ser uma das razões do atraso na vacinação entre os negros americanos. Essa desconfiança surge principalmente pela memória de experimentos feitos em escravizados, normalmente sem anestesia, e os experimentos de sífilis de Tuskegee, nos quais 399 homens negros foram infectados e monitorados de 1932 a 1972.

Esse é um trauma que persiste de geração a geração. O experimento Tuskegee explorou 600 homens negros que tinham sífilis, negando deliberadamente a eles o tratamento para ver o que acontecia com seus corpos como resultado da doença por mais de 40 anos.

O desafio agora é mudar a convicção dessas pessoas. A construção de fake news e teorias conspiratórias continua sendo o maior desafio. Mas há no país um presidente comprometido e que tem dedicado os seus esforços pessoais no avanço da vacinação.

No Brasil, o estrago pode ser muito devastador. Ainda que uma grande parcela da população clame ansiosamente pela vacina para tentar o retorno de alguma normalidade, o presidente da República e seu governo parecem seguir na direção contrária.

Um ano e meio depois do início da pandemia, ainda é preciso desmentir as afirmações infundadas do próprio Bolsonaro sobre o assunto. O problema é que o nosso teto é muito mais baixo que o dos Estados Unidos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL