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Ronilso Pacheco

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

André Mendonça no STF consolida chegada da direita religiosa ao poder

André Mendonça e Jair Bolsonaro - Carolina Antunes/Presidência da República
André Mendonça e Jair Bolsonaro Imagem: Carolina Antunes/Presidência da República
Ronilso Pacheco

Ronilso Pacheco, Teólogo pela PUC-Rio, Pastor auxiliar, ativista e escritor, é pesquisador e mestrando no Union Theological Seminary, da Columbia University em Nova Iorque, autor de "Teologia Negra, o sopro antirracista do Espírito", “Profetismo, Utopia e Insurgência” e "Ocupar, Resistir, Subverter: igreja e teologia em tempos de violência, racismo e opressão”. É Fellow da Ford Foundation Global Fellowship

Colunista do UOL

08/12/2021 04h00

A confirmação do "terrivelmente evangélico" André Mendonça para vaga no STF (Supremo Tribunal Federal) evidencia que o projeto de poder nacionalista cristão caminha agora em alta e periculosa velocidade no Brasil. No entanto, ele vem, em ritmo lento e sutil, sendo desejado e amadurecido há anos.

Em campos conservadores religiosos diferentes (católicos, evangélicos pentecostais e neopentecostais, evangélicos calvinistas, espíritas), o ultraconservadorismo e fundamentalismo religiosos no Brasil encontraram convergência suficiente no governo Bolsonaro. Esse artigo é a continuação do texto "Como nasce o nacionalismo cristão - parte 1" publicado pela coluna.

Lideranças fundamentalistas evangélicas no Brasil amadureceram, durante muito tempo, um projeto de tomada e ocupação de poder que a chegada de Bolsonaro tornou real.

De um lado, por anos, lideranças evangélicas conservadoras pentecostais e neopentecostais, famosos como tele-evangelistas, viam a ocupação do Legislativo como lugar estratégico para ampliação de poder.

De outro, o ultraconservadorismo reformado calvinista teve as portas abertas no Executivo do governo Bolsonaro e ocupou as posições que os pentecostais tiveram dificuldades de conquistar, como ministérios estratégicos (como Educação, Justiça, Direitos Humanos, influência no Itamaraty).

Com esse quadro, o projeto politico do nacionalismo cristão ganhou solidez.

No livro "Taking America back for God", já citado aqui, os autores definem nacionalismo cristão como sendo um "enquadramento cultural" que "idealiza e advoga a fusão do cristianismo com a vida social americana". Essa definição é útil para pensar o que se tem formado no Brasil e por que a chegada de André Mendonça ao STF é tão emblemática.

Mas os autores também afirmam que o nacionalismo cristão representa alguma coisa mais do que religião. Todo esse "enquadramento cultural" e perspectivas funcionam junto com a crença em uma sanção divina para controle autoritário e militarismo.

A ideia do "militarismo divino" é particularmente importante tendo em vista que o ministro da Educação, Milton Ribeiro, é um pastor presbiteriano de orientação ultraconservadora calvinista comprometido com um projeto de disseminação das escolas cívico-militares, uma promessa de campanha de Bolsonaro.

Enquanto nos Estados Unidos esse "militarismo divino" enaltece as Forças Armadas e o próprio sentido das armas enquanto direito de autodefesa concedido por Deus, no Brasil, essa ideologia conservadora está do lado das operações da Polícia Militar nas periferias e favelas do país, nos cânticos de guerra das corporações militares de ataque (como o Bope) e na justificativa para os excessos nas ações policiais, principalmente se dirigidas contra os chamados "vagabundos".

EUA: Aborto atraiu evangélicos para direita religiosa

Essa nova direita religiosa evangélica que é copiada pelo campo ultraconservador brasileiro está diretamente ligada à decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos de reconhecer o direito ao aborto e a interrupção voluntária à gravidez, em 1973.

Surpreendentemente, o aborto, mesmo após a decisão da Suprema Corte, não era uma questão para os evangélicos conservadores americanos até a segunda metade da década de 70.

Paul Weyrich, um dos evangélicos fundamentalistas mais influentes da história americana, com experiência na vida política, viu no aborto o potencial de uma causa capaz de aglutinar os evangélicos em uma direita religiosa mais atuante forte, influente e poderosa.

Weyrich fez um trabalho perseverante e cuidadosamente estratégico que, durante anos, canalizou o conservadorismo evangélico para disputar o poder na esfera política, não necessariamente com candidaturas, mas com uma poderosa pressão organizada enquanto sociedade civil.

Não por acaso, foi na década de 70 que surgiram fortes e importantes organizações cristãs de defesa da família, pró-vida e do direito.

Aborto e a chamada "agenda gay" se tornariam então a principal "justificativa" para uma direita religiosa que assumiu para si a missão de cooptar o estado, a nação, para a agenda moral e política sob o controle fundamentalista. Assim que ocupar a Suprema Corte se tornou fundamental.

Este, por exemplo, é o contexto de surgimento da organização Focus on the Family, cujo fundador se uniria a mais dois outros líderes conservadores para fundar em 94 a Alliance Defending Freedom, que se tornaria a instituição inspiradora e principal parceira da Anajure (Associação Nacional dos Juristas Evangélicos) no Brasil.

No brilhante artigo dos professores João Chaves e Raimundo Barreto, ambos da universidade de Princeton, "Christian nationalism is thriving in Bolsonaro's Brazil", algo como "O nacionalismo cristão está prosperando no Brasil de Bolsonaro", eles recorrem a vários pesquisadores para afirmar que "o Brasil e os Estados Unidos construíram juntos um direito religioso transnacional. Os nacionalismos cristãos dessas duas nações estão intimamente ligados".

Na compreensão dos professores brasileiros, "desde que assumiu o cargo em 2019, Bolsonaro se estabeleceu como uma figura pan-cristã de direita que une concorrentes conservadores no mercado religioso em torno de uma representação mítica do passado do Brasil e um projeto imaginado para o seu futuro", isto é, seu futuro como uma nação cristã.

Mas o leitor pode pensar também, por exemplo, no debate sobre o reconhecimento do homeschooling no Brasil pelo Ministério da Educação. A permissão para ensinar as suas próprias lições em casa para os filhos é uma reivindicação de muitos evangélicos conservadores.

Este é um debate que circula no país desde o início dos anos 2000, mas que ganhou força com o chegada de Milton Ribeiro no Ministério da Educação.

Mas um dos principais ideólogos do homeschooling, Rousas Rushdoony, foi um filósofo, pastor calvinista conservador (como Ribeiro) que, na década de 70, era um dos mais influentes pensadores da direita religiosa americana.

Como todos os elementos e sintomas que possibilitaram e consolidaram uma ideia de nacionalismo cristão nos Estados Unidos parecem estar presentes aqui e agora, é fundamental para o debate em torno das eleições de 2022 a compreensão da complexidade que envolve a questão da direita religiosa no Brasil.

Inclusive para evitar as generalizações, uma vez que ser evangélico não significa ser um cristão nacionalista e defender a agenda bolsonarista. Mas isso é tema para outro artigo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL