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Rubens Valente

O Raoni que o Prêmio Nobel perdeu

O líder indígena Raoni Metuktire em imagem dos anos 80 - Arthur Costa / acervo pessoal de Claudio Romero
O líder indígena Raoni Metuktire em imagem dos anos 80 Imagem: Arthur Costa / acervo pessoal de Claudio Romero
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

11/10/2020 11h55

Resumo da notícia

  • O líder kayapó Raoni foi inscrito ao Prêmio Nobel da Paz pela Fundação Darcy Ribeiro; honraria foi concedida a um programa alimentar da ONU
  • Dois antropólogos e uma socióloga que conviveram com Raoni relembram episódios marcantes de sua trajetória de mais de 40 anos na arena pública
  • Nas últimas quatro décadas, Raoni gerou pressões e incomodou todos os ocupantes do Palácio do Planalto do período, de Figueiredo a Bolsonaro

Esnobado nesta sexta-feira (9) mais uma vez pelo Prêmio Nobel da Paz - na perfeita companhia de Cândido Rondon (1865-1958) e dos irmãos Villas Bôas -, o líder indígena Raoni Metuktire acumula mais de quatro décadas de protagonismo na arena pública em defesa do meio ambiente e das terras indígenas. Sua vida muito maior que um prêmio deu aos indígenas brasileiros um rosto reconhecível pelo mundo afora.

Se o comitê do Nobel não queria confrontar o governo Bolsonaro, escapou-lhe uma das marcas mais importantes da trajetória de Raoni: seu papel de proteger a Amazônia gerou pressões sobre todos os presidentes que passaram pelo Palácio do Planalto desde os anos 70, do general João Baptista Figueiredo (1979-1985) a Jair Bolsonaro, passando por Lula e Dilma Rousseff - os dois últimos construíram a usina hidrelétrica de Belo Monte à revelia das seguidas denúncias de Raoni contra a obra.

O jovem kayapó que manteve contato com os Villas Bôas por volta de 1954 ao longo do tempo se converteu no principal porta-voz nacional e internacional das demandas dos kayapós e dos outros mais de 304 povos indígenas do país. Seria recebido por Papas, chefes de Estado e estrelas do entretenimento sem deixar de continuar vivendo na sua aldeia, hoje na terra indígena Capoto-Jarina, junto com seu povo.

'Somos poucos agora. Sozinhos, morreremos.'

A projeção internacional de Raoni começou com o documentário que leva seu nome, dirigido por um belga de 27 anos, Jean-Pierre Duttileux. O filme estreou em Paris no primeiro trimestre de 1978 e imediatamente atraiu a atenção internacional sobre o Xingu e o Brasil. Na versão em inglês o filme foi narrado por Marlon Brando (1924-2004), uma celebridade mundial que na época já colecionava três Oscar de melhor ator.

Raoni participa de encontro com líderes indígenas na aldeia Piaraçu, MT, em janeiro de 2020 - Rubens Valente - Rubens Valente
Raoni participa de encontro com líderes indígenas na aldeia Piaraçu, MT, em janeiro de 2020
Imagem: Rubens Valente

As plateias estrangeiras ficaram fascinadas pela batalha de Raoni e dos kayapós pela preservação de suas terras contra a cobiça, o desmatamento e a chegada de fazendeiros à região do Xingu. Embora não faça uma crítica direta à ditadura militar, o documentário registra uma resistência marginal dos indígenas, quase isolada, contra o avanço dos tratores que derrubavam a mata.

Em um momento incrível do filme, os indígenas chegam a discutir se deveriam ou não matar a equipe de filmagem, a fim de dar um recado aos não indígenas. Nesse momento Raoni intervém: "Não os matem. Com o documentário podem nos ajudar a demarcar nossa terra. Somos poucos agora. Sozinhos, morreremos. Antes de lutar precisamos nos unir".

A obra foi indicada ao Oscar de melhor documentário em 1979. Não ganhou, mas amplificou o nome e a imagem de Raoni - e seu característico botoque, uma rodela de madeira no lábio inferior - que aparece na fita como um líder carismático, estrategista e indignado com os invasores de suas terras, o que de fato ele era, como os anos seguintes iriam bem demonstrar.

Os espectadores bateram palmas. O mesmo não se pode dizer sobre a ditadura militar. Quando o filme foi apresentado e premiado no Festival de Gramado no começo de 1979, o Concine, um conselho "gestor" de cinema criado pelo ditador Ernesto Geisel em 1976, passou a "investigar" se o filme "era mesmo brasileiro", citando decretos e leis que o teriam impedido de concorrer no festival. O caso logo caiu no esquecimento. O Brasil já experimentava a abertura política e o filme foi exibido normalmente nas salas de cinema das principais cidades.

Origens de um líder

O filme traduziu ao mundo a liderança de Raoni, mas obviamente não a criou. Filho de um importante líder e pajé kayapó, Umoro, há anos Raoni era líder entre os Mebêngôkre, conhecidos como kayapós, do subgrupo Metuktire, também chamados de txucarramãe, que na época da criação do Parque Indígena do Xingu, em 1961, viviam na margem oeste do rio Xingu. Numa entrevista ao "Estado de S. Paulo" em 1976, por exemplo, Raoni foi identificado como líder de "150 txucarramães".

Em janeiro de 1974, a "Folha de S. Paulo" relatou, a partir do depoimento de Claudio Villas Bôas, que o cacique Raoni já era o principal entrave para as pretensões de posseiros que ameaçam invadir terras no Parque do Xingu. Segundo o jornal, os posseiros estavam incentivando brigas internas entre os txucarramães, e Raoni funcionou como apaziguador.

Aqui uma observação sobre a idade de Raoni. O ano do seu nascimento, ocorrido antes do contato com os não indígenas, pode ser estimado, mas não cravado. Ele conhece pela primeira vez os irmãos Villas Bôas em 1954. Na expedição estava o documentarista inglês Adrian Cowell (1934-2011).

Na sua biografia sobre os Villas Bôas "People of the rainforest" (Hurst Publishers, 2019), o escritor, explorador e um dos fundadores da Survival International John Hemming transcreve um texto de Cowell no qual ele estimou a idade de Raoni, grafado como "Rauni", em cerca de 18 anos em 1954. Sendo assim, o kayapó teria nascido por volta de 1936. Em 2020, Raoni teria portanto cerca de 84 anos - levando em conta que Cowell não tenha errado sua avaliação para menos. Os indígenas e apoiadores do cacique apontam que ele deve ter cerca de 90 anos de idade.

Cowell deixou registrada a impressão de que Raoni era "rápido no aprendizado, jovial, disposto a conversar e um tipo de pessoa que dá tapinha nas costas". Porém, o inglês se incomodou com certo egoísmo e o modo pelo qual "ele usava seu carisma para extrair presentes de pilotos e equipes de voo". Esse era um indígena de apenas 18 anos avaliado por um estrangeiro. Em 1979, vinte e cinco anos depois, então com mais de 40 anos, era outro o Raoni que estreava no palco internacional.

A partir do filme, Raoni entrou de vez no noticiário da imprensa para não mais sair. Os anos seguintes foram de intensa luta pela demarcação de terras kayapós. Raoni também passou a vir para Brasília com mais frequência. Ele rapidamente entendeu que era nos palácios que as coisas poderiam se decidir a favor do seu povo.

Nos anos 80, o começo 'das grandes brigas'

Líder indígena Raoni ao lado do antropólogo da Funai Claudio Romero na aldeia kayapó Kretire, em MT, em 1984 - Cintia Brito / álbum pessoal de Claudio Romero  - Cintia Brito / álbum pessoal de Claudio Romero
Líder indígena Raoni ao lado do antropólogo da Funai Claudio Romero na aldeia kayapó Kretire, em MT, em 1984
Imagem: Cintia Brito / álbum pessoal de Claudio Romero

O antropólogo e ex-presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio) Cláudio Romero conheceu Raoni pela primeira vez em 1979, na chamada "casa do Ceará", um local de pouso para os índios que vinham a Brasília, durante um dos périplos dos kayapós pelos gabinetes da capital federal. Já na época Raoni estava acompanhado do seu sobrinho, Megaron Txucarramãe, braço direito e outro importante líder kayapó.

"O Raoni, o Megaron, o Krumare, dormiram na 'casa do Ceara' e eu fui lá à noite. Megaron não tinha sapato e tivemos que arrumar um para as audiências. Eu fiquei bastante emocionado, feliz, de estar conhecendo o Raoni. Depois dali, ele começou a ter grandes brigas", disse Romero.

A primeira crise aguda estourou em agosto de 1980. "O Raoni vinha a Brasília reclamar e ninguém parava aquelas invasões. Ele ficou quase dois meses que nem um louco para lá e para cá em Brasília e ninguém fazia nada para parar. Ele foi lá e parou. Os tratores ainda estão lá, o mato cobriu tudo", disse Romero.

Em um relatório confidencial para a ABA (Associação Brasileira de Antropologia), a antropóloga do Museu Nacional do Rio Vanessa Lea explicou que desde maio, pelo menos, Raoni e os kayapós vinham alertando e pedindo providências das autoridades para conter invasões ao território, mas nada foi feito a tempo.

Lea escreveu que, em agosto, os txucarramães haviam escutado o barulho de máquinas perto da rodovia BR-080 e decidiram mandar um grupo para espantar os peões. "O chefe Raoni mandou os índios irem lá para prender os materiais dos trabalhadores", escreveu Lea - ou seja, Raoni não estava presente no momento do conflito.

Para chegar ao local do desmate, os índios tiveram que passar por uma fazenda. Nesse ponto houve um grande desentendimento, os índios disseram que foram hostilizados, ofendidos. Onze peões foram mortos pelos indígenas, em um episódio que gerou ondas de choque na mídia e no governo de Figueiredo.

'Quando o Raoni falava, a gente podia ouvir um alfinete cair no chão.'

Uma vez consumada a tragédia, Raoni passou a defender seus guerreiros. Na capa da edição de 13 de agosto de 1989, "O Globo" estampou uma foto de Raoni segurando uma borduna, com a chamada: "Cacique diz que matará brancos que entrarem em suas terras". Representantes da Funai e agentes da Polícia Federal correram para apagar o incêndio.

Hoje doutora em antropologia social pela UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), mestre pela Universidade de Oxford, professora titular aposentada e uma das fundadoras do Centro de Pesquisa em Etnologia da Unicamp, a britânica Vanessa Lea conhecia de perto os kayapós e Raoni. Ela havia morado na casa de Raoni, a partir de 1978, para uma tese de pós-graduação pelo Museu Nacional, do Rio.

"Raoni já na época era um líder forte, como se diz em português, 'com atitude', imponente, determinado, astuto, interessado em política." Era também um grande orador, uma característica comum entre os líderes kayapós. "Quando o Raoni falava, a gente podia ouvir um alfinete cair no chão. Era silêncio total, ele comandava a atenção das pessoas."

Em períodos não consecutivos, Lea morou dois anos na aldeia de Raoni, a Kretire, e pelo menos um ano como convidada na casa do cacique, na qual viviam sua mulher e filhos. O acervo dos documentos da ditadura guardados no Arquivo Nacional de Brasília inclui uma carta de Raoni para a presidência da Funai em 1979 a fim de exigir que o órgão autorizasse a continuidade dos trabalhos de Lea na aldeia Kretire.

Ele se mostra contrariado com as recusas da Funai em permitir o retorno de Lea. "Ela precisa ficar bastante tempo na minha casa, para eu contar toda a história do meu povo para ela, precisa ficar seis meses, assim aprende tudo e escreve tudo", explicou Raoni. A carta mostra uma característica importante do kayapó, a de buscar parcerias com os não indígenas. Lea retribuía levando presentes importantes para a comunidade, como armas de fogo para caça e munição. Levava principalmente informações sobre os processos de demarcação das terras indígenas.

Outros papéis antes confidenciais mostram que os agentes do governo ficavam incomodados com a presença de Lea e de outros estudantes de antropologia na região, acusando-os de estarem "instigando" os índios a lutar pela demarcação das terras. A "acusação" estapafúrdia, numa lógica torta própria dos tempos da ditadura e repetida contra vários outros apoiadores dos indígenas, era que Lea trazia para os índios informações, como recortes de jornal, e mapas para discutir a demarcação das terras kayapós.

'Queriam aprender o português para poder demarcar a terra'

Por diversas vezes Raoni tomou atitudes que contrariavam a Funai e o governo militar. Ele tinha suas prioridades sobre seu povo e procurava colocá-las em prática, ainda que a contragosto do governo - como permitir a continuidade dos estudos antropológicos de Lea. No começo dos anos 80, por exemplo, ele pediu, insistiu e conseguiu a presença de uma professora na aldeia do Kretire.

Em 1981, após uma viagem de vários dias que incluíram dois aviões e barcos, a socióloga Maria Elisa Leite^, nascida e criada em São Paulo, chegou ao Kretire como professora contratada da Funai. Entre idas e vindas, foram oito anos de convívio com a aldeia de Raoni. Ela passou a morar numa casinha ao lado do posto indígena da Funai, aprendeu a língua kayapó e ensinou o português.

Segundo ela, Raoni aprovava tudo, satisfeito. Ele estava preocupado em recuperar as terras que tinham sido cortadas pela construção da BR-080, nos anos 70. A princípio, num sinal de boa vontade, Raoni havia concordado em mudar sua aldeia para dentro do Xingu, mas agora queria suas terras de volta.

"Na época eles [da aldeia de Raoni] não tinham praticamente nenhuma terra. Uma parte do pessoal do Kremoro estava no Jarina, que era uma 'ilha' mínima [de mata], mais ao oeste, e outra parte no Kretire", disse Maria Elisa.

Nas primeiras aulas, a professora indagou aos kayapós o que eles queriam aprender. As respostas eram quase sempre as mesmas. "Eles queriam saber português e pediam para eu falar qualquer coisa, 'conta alguma coisa'. Queriam saber como as coisas funcionam. 'Quem manda na Funai? E quem manda no presidente da Funai?' Eles queriam demarcar a terra, o objetivo era bem claro. Queriam ler e aprender o português porque esse era o jeito de demarcar a terra, já que a terra demarca com papel. Eles queriam saber como funciona o país para poder acessar as coisas a fim de demarcar suas terras."

Raoni aparecia pouco na casa da professora, que ficava afastada cerca de 1 km da aldeia. "Ele sempre foi cordial e não ficava indo no posto toda hora. E eu não ia muito à casa dele, era o chefe grande, tinha muitas coisas para resolver. Às vezes me chamavam para ir à aldeia."

Certa feita, Maria Elisa começou a ouvir cantos, vozes e barulhos que vinham do cemitério dos indígenas perto do posto. Ela foi falar com os indígenas, que recomendaram a ela não ir ao cemitério. Eram as almas dos antigos indígenas, disseram. Dias depois, bem cedinho, Raoni apareceu na sua casa. "Isso eu nunca esqueço. Ele apareceu com uma suavidade, uma gentileza, e me disse que 'agora está tudo, você pode ficar alegre, já acabou, foi embora'." Maria Elisa disse que depois desse dia nunca mais ouviu os barulhos.

Raoni dá aula em curso de formação de professores indígenas na aldeia Piaraçu, em 2013 - Maria Elisa Leite / acervo pessoal - Maria Elisa Leite / acervo pessoal
Raoni dá aula em curso de formação de professores indígenas na aldeia Piaraçu, em 2013
Imagem: Maria Elisa Leite / acervo pessoal

De 1997 a 2013, a socióloga organizou cursos nas aldeias para formação de professores indígenas. Tiveram a ideia de convidar Raoni para dar aula aos mais jovens ao final de cada dia. Era o ponto alto da programação. Ele dava conselhos, broncas, contava histórias antigas, ensinava. Cursos semelhantes foram oferecidos nos anos 90, em 2002, 2012, 2013, sempre com a participação de Raoni.

"Raoni é mais que um chefe tradicional, é um líder nato. Ele indicava 'vamos por aqui e todo mundo sabe o que fazer'. Tem uma liderança, uma característica dele, um carisma. Isso é importante. Os kayapós não são autoritários. O chefe decide, mas eles conversam e o chefe tem que conseguir convencer todo mundo. O líder consegue convencer até outro chefe tradicional. Mas quando tomam a decisão, se todo mundo decidiu, ninguém fica de mau humor porque perdeu a discussão."

Depois de ter passado oito anos com os kayapós, de 1981 a 1989, Maria Elisa foi trabalhar na Funai, em Brasília. Ela atuou no órgão indigenista por mais de três décadas.

A 'guerra da balsa' estoura no Xingu

Difíceis decisões foram tomadas em 1984 no episódio que ficou conhecido como "a guerra da balsa", nos estertores da ditadura. Com Raoni e Megaron à frente, os kayapós resolveram interditar a rodovia BR-080 e bloquear a balsa que fazia a travessia do rio Xingu. Eles queriam a demarcação dos territórios que foram cortados pela ditadura na década de 70.

Cláudio Romero se envolveu pessoalmente no episódio. No começo de 1982, ele estava "encostado na Casa do Índio em Brasília", pois os militares desconfiavam que Romero "insuflava" indígenas, quando foi procurado por Raoni e outros líderes importantes do Xingu, como Aritana e Takumã. "Eles vieram do Xingu para cá para pedir apoio, o Raoni queria demarcar 15 km da margem direita do Xingu. Eles me pediram para ir lá. Apesar da posição contrária dos Villas Boas, o coronel Leal me nomeou."

Após conhecer a região e as aldeias, Romero disse que ficou combinado o bloqueio da balsa. Isso seria suficiente para atrair a atenção do governo. Os indígenas queriam a presença do presidente da Funai na região. Mas a Funai mandou três altos funcionários no lugar do presidente. Todos foram detidos pelos índios.

A crise se arrastou por mais de 40 dias. No final de abril de 1984, o presidente da Funai, Otavio Ferreira Lima, foi destituído do cargo pelo ministro do Interior, Carlos Andreazza. Dias depois, os índios conseguiram a promessa da demarcação e, assim, soltaram os reféns.

"Foi uma das maiores vitórias dos povos indígenas do país em toda a ditadura", disse Romero. Dias depois, Raoni foi a Brasília e sacramentou o acordo com Andreazza. No dia 3 de maio de 1984, em uma imagem que rodou o mundo, ele puxou uma orelha de Andreazza, num gesto que a imprensa disse ter sido "afetuoso". Tenente-coronel da reserva do Exército, Andreazza era um dos nomes fortes do governo Figueiredo e chegou a tentar uma candidatura para sucedê-lo na Presidência.

"Quem nasceu primeiro, aqui no Brasil, foi o avô do índio. Agora temos a terra para nossos filhos e netos. Quem conseguiu a terra para nós, fomos nós mesmos. Quero que o branco respeite nosso povo", disse Raoni para Andreazza, segundo "O Globo". O ministro teria respondido que "sou seu amigo e quero que você seja meu amigo".

O líder kayapó Raoni durante encontro com lideranças indígenas na aldeia Piaraçu, em MT, em janeiro de 2020 - Rubens Valente - Rubens Valente
Raoni durante encontro com lideranças indígenas na aldeia Piaraçu, em MT, em janeiro de 2020
Imagem: Rubens Valente

Na época da "guerra da balsa", Maria Elisa continuava trabalhando na aldeia do Kretire. "Teve um dia em que falei para eles dois, Megaron e Raoni. 'Mega, você é tipo um presidente do Brasil. E você, Raoni, é um embaixador, você vai lá, convence, puxa a orelha.' Ele não puxou só a orelha do Andreazza, apertou o nariz dele também. Eles acharam que era isso mesmo o que falei, concordaram. O Raoni fazia o trabalho de um chanceler dos povos indígenas", comparou Maria Elisa.

'Nunca se deixou seduzir por dinheiro de madeira nem de garimpo'

A partir do final dos anos 80, Raoni assumiu esse papel de "embaixador" para valer, muito em função do seu encontro com o astro britânico da música rock e pop Sting, que ficou maravilhado com a luta dos kayapós pela proteção da Amazônia e se tornou amigo de Raoni, levantou fundos para a demarcação física dos territórios e levou o kayapó para encontros com líderes internacionais.

Na mesma época (1987-1988) corria a Constituinte no Congresso Nacional, que na Carta de 1988 estabeleceu direitos indígenas sobre suas terras e modos de vida tradicionais. A pressão dos indígenas, indigenistas, deputados, antropólogos e missionários do "clero progressista" teve um papel determinante no texto final. Raoni participou ativamente do processo, vindo a Brasília com frequência.

Quase no final do seu governo, em janeiro de 1990, o presidente José Sarney (1985-1990) recebeu em audiência Raoni, Megaron, Sting e os músicos e compositores Rita Lee e Gilberto Gil e anunciou que iria demarcar a terra indígena Menkragnoti, nos estados do Pará e de Mato Grosso. A terra foi interditada em março daquele ano e por fim homologada em 1993, no governo Itamar Franco. Outra grande vitória de Raoni.

Nos anos 90 e 2000, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), Raoni continuou se encontrando com líderes mundiais, como o francês Jacques Chirac, em 2000, e cobrando a demarcação e a proteção de terras indígenas. Em 1999, repetiu o gesto de 1984 e puxou as orelhas do então presidente da Funai do governo FHC, Márcio Lacerda, durante um ato em que os indígenas cobraram melhorias no sistema de saúde indígenas.

Em 2000, kayapós mantiveram como reféns 15 turistas que haviam entrado ilegalmente na terra indígena Baú. Raoni cobrou a demarcação da terra. Sob pressão, FHC determinou que o Ministério da Justiça iniciasse o processo, cuja homologação só ocorreria oito anos depois, em 2008, no governo Lula.

O líder kayapó tentou por diversas vezes impedir a construção da hidrelétrica de Belo Monte, gestada no governo Lula e inaugurada por Dilma em 2016. Nos anos 80, com o nome de Kararaô e com dimensões diferentes, o plano da mesma usina havia sido arquivado pelo governo Sarney após uma intensa mobilização dos kayapós que incluiu a célebre ocasião em que a índia Tuíra colocou um facão na garganta do então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz Lopes.

Nos anos 2000, contudo, a obra saiu do papel para desespero de milhares de indígenas de etnias diferentes no Pará. Sob pressão do Ministério Público Federal, foram estabelecidas "condicionantes", muitas das quais jamais cumpridas pelo Estado brasileiro.

E veio o governo de Jair Bolsonaro, que prometeu não demarcar nenhum centímetro de terra indígena, quer abrir mineração em terras indígenas, desmonta setores sensíveis da Funai como o dos índios isolados e que, em 2019, atacou Raoni em seu discurso na Assembleia Geral da ONU ao dizer que ele seria "peça de manobra" de outros países.

O kayapó respondeu no dia seguinte. "Bolsonaro falou que não sou uma liderança, mas ele que não é líder e tem que sair. Antes que algo muito ruim aconteça, ele tem que sair. Para o bem de todos. [...] A minha fala é para um bem-viver, a minha fala é tranquila. Não ofendo ninguém. Que todo mundo viva com saúde, com tranquilidade."

Segundo Romero, na língua kayapó Raoni quer dizer onça. Porque Raoni era "muito bravo" quando jovem, depois foi mudando. "O que diferencia o Raoni das outras lideranças é que, primeiro, ele nunca se deixou seduzir por dinheiro de madeira nem de garimpo. Grande parte das lideranças entrou nessa, ele não. Ele sempre foi um líder de uma autenticidade, de uma coragem de preocupação com o povo dele. E tem uma uma bondade, uma solidariedade. Na 'guerra da balsa' a mulher dele estava grávida, e ele nunca parou. Ele tinha posição firme contra Belo Monte, foi contra e não cedeu ao governo. O que fazia um grande chefe kayapó eram a coragem, a generosidade e falar bem. Ele tem tudo isso."

Para a professora Vanessa Lea, "tanto para os povos indígenas quanto para o movimento ambientalista, Raoni não ter sido agraciado pelo Nobel foi uma tragédia". Ela entende que o comitê organizador, ao premiar um organismo da ONU, o do programa de segurança alimentar, quis dar um recado ao presidente dos EUA Donald Trump sobre a importância do multilateralismo.

"Mas foi lamentável terem priorizado isso quando se sabe da tragédia ambiental brasileira. Não se ignoram as mentiras de Bolsonaro, que teve a coragem de culpar os índios e ribeirinhos pelos incêndios na Amazônia. O Prêmio Nobel teria sido uma injeção contra isso", disse Lea.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.