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Jamil Chade

Governo preocupou-se com Nobel para cacique Raoni, antítese de Bolsonaro

O cacique Raoni Metuktire, líder indígena brasileiro da etnia caiapó  -  Fernando Frazão/Agência Brasil
O cacique Raoni Metuktire, líder indígena brasileiro da etnia caiapó Imagem: Fernando Frazão/Agência Brasil
Jamil Chade

Jamil Chade é correspondente na Europa há duas décadas e tem seu escritório na sede da ONU em Genebra. Com passagens por mais de 70 países, o jornalista paulistano também faz parte de uma rede de especialistas no combate à corrupção da entidade Transparência Internacional, foi presidente da Associação da Imprensa Estrangeira na Suíça e contribui regularmente com veículos internacionais como BBC, CNN, CCTV, Al Jazeera, France24, La Sexta e outros. Vivendo na Suíça desde o ano 2000, Chade é autor de cinco livros, dois dos quais foram finalistas do Prêmio Jabuti. Entre os prêmios recebidos, o jornalista foi eleito duas vezes como o melhor correspondente brasileiro no exterior pela entidade Comunique-se.

Colunista do UOL

09/10/2020 15h52

Fontes em Oslo (Noruega), sede do comitê organizador do prêmio Nobel da Paz, afirmaram à coluna que o cacique brasileiro Raoni foi de fato considerado a receber a homenagem, o que deixou o governo do Brasil preocupado com a possível repercussão mundial.

A premiação não apenas reconheceria uma vida de luta. Acima de tudo, seria um duro recado contra tudo o que a gestão de Jair Bolsonaro representa.

O anúncio nesta sexta-feira ocorre em péssimo momento para a diplomacia brasileira, ávida a provar ao mundo que está lutando para proteger a floresta e seu povo. Se por meses o governo esnobou os alertas da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre suas políticas ambientais e de direitos humanos, em Brasilia todos sabem que não haveria forma de ignorar o prêmio Nobel da Paz, o primeiro dado a um brasileiro de forma individual.

O prêmio de 2020 foi concedido ao Programa Mundial de Alimentação da ONU.

Se Raoni já era recebido pelo mundo como um líder internacional, um prêmio o deixaria numa posição "intocável". O governo, segundo diplomatas, teria de conviver com a sombra do cacique, um brasileiro que representa o que Bolsonaro tenta destruir.

O prêmio ainda mandaria um recado velado ao governo: a Amazônia é sim um assunto mundial.

Viés político do prêmio Nobel

Raoni, assim, seria elevado a uma espécie de resistente contra a estratégia política, ambiental e social de um governo cada vez mais desprezado pelo mundo.

Dentro do Itamaraty, já existia um debate sobre como reagir. Se felicitassem Raoni, estariam justificando sua luta e inclusive seu apelo pela demarcação de terras, algo que Bolsonaro prometeu que não faria. Se criticassem a escolha, se alinhariam aos países autoritários como China e Mianmar que acusaram Oslo de usar a premiação para fazer política.

Os organizadores do prêmio tinham plena consciência de seu papel político e usam a escolha justamente neste sentido. Quando a zona do euro estava ameaçada, Oslo premiou a UE (União Europeia). Quando o multilateralismo foi atacado, o Nobel saiu para a ONU.

Ao longo do ano de 2019, Raoni percorreu o mundo em sua campanha pela floresta. Mas, segundo indígenas que o acompanhavam, ele os alertava que sua força estava se esgotando. Ele sabe que lhe resta pouco tempo e que novas lideranças precisam surgir. Em 2020, as internações deixaram isso ainda mais evidente.

A ironia que se conta em Oslo é que se o cacique tivesse recebido o prêmio, dois brasileiros entrariam para a história. Mas apenas um deles poderia circular pelo mundo sem medo de ser alvo de protestos.