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Rubens Valente

Casal de trabalhadores em assentamento rural volta a ser ameaçado no Pará

O casal de trabalhadores rurais Osvalinda Maria Marcelino Alves Pereira e Daniel Pereira em Trairão, Pará - Walter Guimarães
O casal de trabalhadores rurais Osvalinda Maria Marcelino Alves Pereira e Daniel Pereira em Trairão, Pará Imagem: Walter Guimarães
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

15/10/2020 04h00

Resumo da notícia

  • Secretaria de Segurança Pública do Pará confirma que casal está em programa de proteção a testemunhas e diz que denúncia é investigada pela polícia
  • Casal diz que ameaças de madeireiros e fazendeiros começaram depois que criou associação de mulheres trabalhadoras rurais com foco no agroextrativismo

O casal de trabalhadores rurais Osvalinda Maria Marcelino Alves Pereira e Daniel Pereira voltou a receber ameaças de morte no município de Trairão, no Pará, segundo duas queixas registradas na Polícia Civil. Eles receberam a informação de que um pistoleiro foi sondado para matá-los por R$ 90 mil, mas desistiu. A Secretaria de Segurança Pública do Pará informou à coluna que a polícia investiga a denúncia.

Osvalinda e Daniel já foram ameaçados em várias outras ocasiões, desde que ajudaram a criar uma associação de mulheres, presidida por Osvalinda, que trabalha com lavouras pequenas, polpa de frutas como açaí, murici, acerola e cajá, criação de animais pequenos e plantio sem agrotóxicos.

Há dois anos, duas sepulturas com cruzes foram cavadas nos fundos do quintal no assentamento quando eles estavam fora de casa. Osvalinda e Daniel saíram da região por cerca de um ano e sete meses como parte de um programa de proteção a testemunhas. Moraram em duas cidades diferentes que aqui não podem ser reveladas. Resolveram voltar há dois meses para Trairão, quando então as ameaças recomeçaram.

Por e-mail, a Secretaria de Segurança Pública do Pará informou ao UOL: "O casal está inserido no Programa de Proteção dos Direitos Humanos do Governo do Estado e rondas policiais são realizadas de forma constante na localidade onde os dois residem. A Polícia Civil informa que investiga o caso". Também procurada, a superintendência regional da Polícia Federal não se manifestou até o fechamento deste texto.

As histórias de Osvalinda e de outra líder trabalhadora rural também ameaçada de morte, Maria Ivete Bastos dos Santos, foram abordadas no documentário "O tempo que resta" (2019). Dirigido por Thaís Borges e produzido por Walter Guimarães, o filme recebeu o prêmio do júri popular da edição do ano passado do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

'Eles [madeireiros] começaram a nos ver como ambientalistas', disse Osvalinda

Osvalinda e Daniel nasceram na zona rural no interior do Paraná e chegaram a Trairão, a cerca de 900 km de Belém (PA), por volta de 2001, tornando-se assentados do programa da reforma agrária do Incra no projeto de assentamento Areia, a cerca de 42 km da cidade. Osvalinda disse por telefone à coluna que tudo estava normal até a primeira metade dos anos 2010, quando o casal ajudou a criar uma associação de mulheres assentadas.

"Nós começamos a trabalhar com agroextrativismo, roça sem queima, sem agrotóxico. Eles [madeireiros e fazendeiros da região] começaram a nos ver como ambientalistas, como se a gente fosse denunciar os madeireiros. Nos ofereceram dinheiro. Eles não falaram a quantia, disseram que dava para eu fazer a cirurgia no coração e me cuidar. Nós recusamos. Aí ficaram zangados comigo por causa disso", disse Osvalinda, que tem duas filhas e onze netos.

Temendo por sua segurança, o casal procurou a Polícia Federal. Meses depois, o órgão, junto com o Ministério Público Federal, desencadeou uma operação na região para reprimir crimes ambientais.

"Na operação a polícia queimou várias máquinas, caminhão, esteira, apreenderam madeira dentro da reserva. Aí que eles [madeireiros] ficaram zangados comigo, me culparam", disse Osvalinda.

Cruzes e túmulos falsos que o casal de trabalhadores rurais Osvalinda Maria Pereira e Daniel Pereira afirmam ter encontrado nos fundos de seu quintal como ameaça de morte no assentamento em Trairão, no Pará - Walter Guimarães - Walter Guimarães
Cruzes e túmulos falsos nos fundos da casa de Osvalinda e Daniel na zona rural de Trairão (PA)
Imagem: Walter Guimarães

As ameaças, segundo Osvalinda, se intensificaram em 2014 e passaram a ser investigadas pela Polícia Federal. Ela disse que não foi informada sobre o resultado da apuração. Também não sabe se a polícia descobriu o autor das sepulturas falsas cavadas em 2018.

Segundo Osvalinda, tem piorado ano a ano o clima de insegurança dentro do assentamento. Das 300 famílias originais do projeto do Incra, ela calcula que restaram apenas cem. As outras abandonaram ou venderam seus lotes.

"Não tinha condições de trabalhar, não tinha assessoria, assistência nem dinheiro para sobreviver nem trabalhar. São assentamentos que o governo faz e abandona para trás. Aqui só aumentou o desmatamento, os incêndios. Aumentou tudo. Nesse ano piorou muito mais."

'O que passa na minha cabeça é que a qualquer momento eu vou tomar uma bala'

No mês passado, voltou o clima de ameaças. O casal fez duas queixas na Polícia Civil. "Primeiro minha filha veio ao Trairão para comprar coisas e um rapaz chegou para ela e mandou recado, disse que era pra gente se cuidar porque nossa cabeça estava a prêmio. Que eu estava valendo [R$] 70 mil e Daniel, meu esposo, estava valendo [R$] 20 mil. Mas que ele [rapaz] tinha admiração pela gente e não queria que nada acontecesse com a gente. Quando foi na semana passada, aconteceu novamente. Um rapaz foi lá em casa - o Daniel tinha vindo para o Trairão - e falou que só não tinha matado eu e Daniel por consideração da nossa filha, porque tinham oferecido muito dinheiro para poder matar nós."

Osvalinda disse que o casal foi transferido, há cerca de dois meses, do programa de proteção a testemunhas federal para o estadual. Em Belém (PA), segundo o casal, as autoridades disseram que iriam providenciar uma escolta policial 24 horas por dia dentro do assentamento rural, mas houve um problema. "Eles viram que era uma casa pequena, não dava para eles ficarem morando conosco. Além de nós dois, temos cinco crianças na mesma casa. A gente estava na luta para poder construir um quarto para a escolta."

Sem estrutura para manter uma equipe dentro da casa do casal no assentamento, a polícia do Pará optou por fazer rondas na região e fornecer proteção em deslocamentos do casal.

Osvalinda teme pelo futuro. "Resolvemos voltar porque não dava mais para ficar longe de casa. Não dava para ficar de apartamento em apartamento sem resolver o nosso problema. Falaram que iam fazer a investigação, mas não foi feita. Eu, quando estou na garupa da moto, nós só temos uma moto para andar, o que passa na minha cabeça é que a qualquer momento eu vou tomar uma bala. Não tenho muita expectativa não, não tenho muito o que pensar."

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.