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Rubens Valente

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

'Medalha perdeu razão de ser', diz sertanista ao devolver honraria

O indigenista e sertanista Sidney Possuelo devolve, no protocolo do Ministério da Justiça, sua medalha de mérito indigenista em protesto contra governo Bolsonaro - Álbum de família
O indigenista e sertanista Sidney Possuelo devolve, no protocolo do Ministério da Justiça, sua medalha de mérito indigenista em protesto contra governo Bolsonaro Imagem: Álbum de família
Rubens Valente

Rubens Valente é repórter desde 1989 e há 10 anos atua em Brasília. Nasceu no Paraná e trabalhou em órgãos da imprensa de São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, onde se formou em jornalismo na UFMS (Universidade Federal do MS). É autor de "Operação banqueiro" (Geração Editorial, 2014) e "Os fuzis e as flechas - história de sangue e resistência indígena na ditadura militar" (Companhia das Letras, 2017). Recebeu 17 prêmios nacionais e internacionais, incluindo o Prêmio Esso de Reportagem, dois Prêmios de Excelência Jornalística da SIP (Sociedade Interamericana de Jornalismo) e dois Grandes Prêmios Folha.

Colunista do UOL

17/03/2022 17h29Atualizada em 17/03/2022 17h50

Um dos maiores sertanistas e indigenistas do país, Sidney Possuelo, ex-presidente da Funai (Fundação Nacional do Índio), devolveu nesta quinta-feira (17), no protocolo do Ministério da Justiça em Brasília, a medalha de Mérito Indigenista que recebeu do governo federal há 35 anos. Foi um protesto contra a decisão do ministro da Justiça, o delegado da Polícia Federal Anderson Torres, de conceder a honraria para o presidente Jair Bolsonaro. Outras autoridades do governo receberam a medalha, incluindo Torres, que se autoconcedeu a honraria. A informação foi antecipada pelo "Estado de S. Paulo" e confirmada pela coluna.

Possuelo disse à coluna que, desde ontem, a condecoração "perdeu a razão de ser" e, por isso, decidiu pela devolução. "Essa medalha, entregue a quem foi, transforma o algoz em herói. Porque essa medalha distingue aqueles que, de alguma forma, direta ou indiretamente auxiliaram aos povos indígenas na demarcação de terras, na saúde, na educação. E ela é totalmente imprópria e é uma forma não apenas de banalizar a medalha, é mais do que isso, é degradar a medalha."

Junto com a medalha, Possuelo entregou uma carta dirigida ao ministro Torres. Eis a íntegra:

"Senhor ministro. Com imensa surpresa e natural espanto, tomei conhecimento de que o senhor Jair Bolsonaro foi condecorado com a medalha do Mérito Indigenista.

"Ao longo da história da humanidade, os povos autóctones tornaram-se vítimas de toda sorte de atrocidades cometidas por representantes de sociedades que se acreditam civilizadas e tementes a uma potestade superior.

"Os povos originários do continente americano - do Alasca à Patagônia - tiveram os territórios, onde milenarmente viviam, invadidos e drasticamente reduzidos. E, em nome de interesses sempre menores, condenados à morte.

O sertanista Sidney Possuelo observa, na frente do Ministério da Justiça, sua Medalha do Mérito Indigenista antes de devolvê-la ao governo nesta quinta-feira - Álbum de família - Álbum de família
O sertanista Sidney Possuelo observa, na frente do Ministério da Justiça, sua Medalha do Mérito Indigenista antes de devolvê-la ao governo nesta quinta-feira
Imagem: Álbum de família

"Quando deputado federal, o senhor Jair Bolsonaro, em breve e leviana manifestação na Câmara dos Deputados, afirmou que 'a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente, sim, foi a cavalaria norte-americana, que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema no país'.

"Ofendeu o senhor Jair Bolsonaro, ao vocalizar sua crença, seus desejos, a memória do marechal Rondon, e por extensão do Exército brasileiro.

"Dediquei minha vida ao trabalho de defender os direitos humanos de uma parcela da humanidade que vive em outro tempo histórico, mas que compartilha com a sociedade envolvente o mesmo tempo cronológico.

"Há 35 anos, vivi a honra de receber a medalha do Mérito Indigenista. E, como é de público conhecimento, delegou-me, em 1991, o coronel Jarbas Passarinho, então ministro da Justiça, a tarefa de demarcar, em nome do governo brasileiro, a Terra Indígena Yanomami. Meus companheiros e eu da Fundação Nacional do Índio - Funai - a cumprimos. E disso nos orgulhamos.

"Entendo, senhor Ministro, que a concessão do Mérito Indigenista ao senhor Jair Bolsonaro é um flagrante, descomunal, ostensiva contradição em relação a tudo que vivi e a todas as convicções cultivadas por homens da estatura dos Irmãos Villas Boas.

"Por essas razões, senhor Ministro, devolvo ao governo brasileiro, por seu intermédio, a honraria que, no meu juízo de valores, perdeu toda a razão pela qual, em 1972, foi criada pelo presidente da República."

O Ministério da Justiça foi procurado pela coluna para comentar a devolução e a carta. Caso se manifeste, este texto será atualizado.