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Tales Faria

Bolsonaro largou Bia Kicis e os bolsonaristas de raiz ao sabor do vento

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

23/07/2020 14h17

Sejamos honestos: quem se manteve ao lado do presidente Jair Bolsonaro quando apareceram as primeiras dissensões no ninho do governo?

Foram os bolsonaristas de raiz.

Quando o ex-ministro Gustavo Bebianno e os deputados Alexandre Frota e Joice Hasselmann romperam com o governo - ou foram rompidos, sei lá - quem ficou ao lado do presidente?

Foram os bolsonaristas de raiz. Aquele grupo mais radical que tem como gurus o Olavo de Carvalho e o filho Zero Dois, Carlos Bolsonaro.

Há quem diga que eles foram o motivo do rompimento, mas o fato é que ficaram com as bandeiras do bolsonarismo e os outros saíram.

Os deputados Daniel Silveira (PSL-RJ), Bia Kicis (PSL-DF) e Otoni de Paula (PSC-RJ) eram unha e carne com Joice, Frota & Cia. Mas escolheram ficar com Bolsonaro.

A verdade é que eles não entenderam uma coisa: o Bolsonaro de hoje já não está com o Bolsonaro de ontem.

Depois da prisão de Fabrício Queiroz na casa de Frederico Wassef, até então advogado do presidente e de seu filho, o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), o mandatário do Planalto resolveu que tem que se separar do Jair pré-eleitoral.

Chegou a hora de varrer para baixo do tapete do passado o Fabrício, o Wassef, rachadinhas e tudo o mais.

Bolsonaro se agarrou a quem pode, de fato, lhe ajudar a se manter no poder: os generais do Planalto, o Centrão e a parcela do povão com quem ele conseguir preservar o contato direto.

Os generais, que tanto foram xingados pelos bolsonaristas de raiz, não querem se misturar mais com esse grupo. Atribuem a eles os principais problemas do governo, além das denúncias e desacertos no Ministério da Educação, na Cultura, no Meio Ambiente e, sobretudo, no Congresso.

O Centrão concorda com os militares e está de olho no espaço no poder que pode ser aberto com o afastamento dos bolsonaristas radicais.

E Bolsonaro descobriu, com a pandemia, que bandeiras do passado, como a crítica ao Bolsa Família, não servem para aproximar o povão do seu governo. Promete aderir ao Bolsa Família com um nome novo: Renda Brasil.

O presidente acertou com o Centrão o apoio ao novo projeto em troca da aprovação de um Fundeb (Fundo Nacional de Ensino Básico) mais robusto, o que também pode ajudar a manter sua popularidade.

Os bolsonaristas de raiz não entenderam ou não gostaram dessa virada do presidente.

Na votação do Fundeb, nesta quarta-feira, a vice-líder do governo Bia Kicis votou contra o acordo acertado pelo líder Major Vitor Hugo e pelo ministro da coordenação política, o general Luiz Eduardo Ramos. Resultado: foi afastada da vice-liderança.

Daniel Silveira e Otoni de Paula também já haviam sido afastados da vice-liderança. Daniel Silveira chegou a apontar o general como quem deu a ordem para abrir espaço ao centrão. Otoni de Paula saiu, também a pedido do general, depois que xingou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, de cabeça de ovo, cabeça de piroca e canalha.

Eles não entenderam que, se tiver que escolher entre Bolsonaro ou o Bolsonarismo, o presidente ficará consigo mesmo. Às favas com a ideologia!

Aliás, é bom o ministro Paulo Guedes ficar esperto. Bolsonaro nunca foi um liberal. Tornou-se assim por causa dos ventos liberais do momento eleitoral passado.

Mas como já dizia Dorival Caymmi, se sabe que os ventos mudam, aí o tempo virou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL