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Guedes revelou que o Posto Ipiranga encolheu e foi enquadrado pelo Planalto

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

10/09/2020 13h36

O ministro da Economia, Paulo Guedes, revelou numa live desta quarta-feira que acabou seu voluntarismo no governo.

Segundo o ministro, agora a área política está estruturada e, por isso, ele proibiu seus subordinados na equipe econômica de discutir com parlamentares os projetos em tramitação no Congresso.

Guedes não é político. Por isso, às vezes exagera em contar as coisas como elas são. Políticos sabem esconder melhor.

Nesta live, o ministro cometeu um sincericídio: simplesmente revelou que foi enquadrado. Que o antes todo-poderoso "Posto Ipiranga" do governo, por onde tudo passava, não existe mais.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e os líderes partidários negociarão com os líderes do governo no Congresso e o coordenador político do Planalto, general Luiz Eduardo Ramos. Quando muito, com o presidente Jair Bolsonaro.

Passado esse filtro, aí sim o assunto chega ao Ministério da Economia. E Paulo Guedes negociará com o Palácio do Planalto, então, a forma como a área econômica cederá nos temas em tramitação no Congresso.

O ministro contou isso para confirmar que realmente havia proibido seus auxiliares, como revelou Rodrigo Maia, de conversar com parlamentares sobre os projetos em tramitação no Congresso. Maia estava bastante irritado.

Sincericida, Paulo Guedes citou na live até mesmo uma área de atrito com o presidente da Câmara e os líderes partidários: os políticos querem aumentar as destinações de verbas para estados e municípios, e ele quer manter o máximo de recursos na União.

No final das contas, com o novo sistema, Bolsonaro vai decidir o quanto será entregue, em função do quanto necessitará de apoio dos políticos - ou seja, do centrão - a cada momento.

E os momentos têm sido muito delicados, depois que Fabrício Queiroz foi preso, apareceram mais cheques dele na conta da primeira-dama e ganharam mais força as acusações de rachadinhas contra o filho do presidente, o senador Flávio Bolsonaro.

Por isso, Guedes foi enquadrado. Como ele mesmo diz, Acabou-se o seu voluntarismo. Seus assessores já começaram a sentir que o chefe não está tão forte. Nas discussões internas ele precisou dizer que quem não estivesse satisfeito que deixasse o governo. Perdeu alguns secretários e provavelmente perderá outros daqui para a frente.

Um filme semelhante ao que viveu o ex-ministro da Justiça Sergio Moro. Agora é esperar para ver como e quanto a corda vai esticar. Quanto e como a área econômica se sentirá desautorizada pelo Planalto.

E por quanto tempo o ministro segurará o rojão sem se sentir humilhado...

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL