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Tales Faria

Bolsonaro e Doria melaram a distribuição de vacinas no Brasil

João Doria e Jair Bolsonaro frente a frente - Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR
João Doria e Jair Bolsonaro frente a frente Imagem: Reprodução/Redes Sociais e Marcos Corrêa/PR
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

20/01/2021 07h07

A verdade é que tanto o presidente Jair Bolsonaro como o governador de São Paulo, João Doria, têm culpa na incerteza em que se transformou o programa de vacinação contra o coronavírus no Brasil.

Bolsonaro pode ter um pouco mais de culpa pelo fato de ser o presidente da República e, por isso, deter uma responsabilidade maior com o país.

Mas a briga política entre ele e Doria é obra de ambos. E a inclusão da pandemia e do programa de vacinação no centro dessa briga política, também.

Vale lembrar que os dois têm deixado clara sua disposição de concorrer às eleições presidenciais de 2022. São candidatos à Presidência da República e já estão em campanha.

Com as eleições de 2022 em vista, João Doria a todo instante quis usar o acordo com a farmacêutica chinesa Sinovac, para a produção da CoronaVac pelo Instituto Butantan, como um instrumento de provocação contra o governo federal. Deixou claro que estava mais avançado do que o Planalto nos preparativos.

Bolsonaro aceitou de bom grado a provocação. E trucou! Alardeou que a "vacina chinesa" não prestava, e que ele fecharia contratos de compra de vacinas com potências ocidentais.

O presidente partiu para um acordo da Astra-Zêneca com a Fiocruz, do Rio de Janeiro, para a produção do Brasil de uma vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford.

Pura besteira discutir de qual país venha a vacina. Boa parte dos insumos para a produção das principais potências ocidentais é produzida pela China e pela Índia.

Mas Bolsonaro dobrou a aposta: em tom jocoso, numa de suas lives, disse que o governo brasileiro não compraria a "vacina do Doria". Só faltou xingar um palavrão. Não o fez porque estava ao lado da da ministra da Agricultura, Tereza Cristina, evidentemente constrangida.

Mordido, o governador de São Paulo foi logo anunciando o cronograma de um programa de vacinação próprio. E que receberia qualquer brasileiro que viajasse ao estado para se vacinar. Ou seja, transformou a vacinação num grande instrumento de campanha para conquistar eleitores em todo país.

Seguiram-se as discussões de qual vacina era mais eficaz. São Paulo fez um anúncio matreiro de que a CoronaVac teria 78% de eficácia, A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revelou que eram só 50,3% e Bolsonaro fez a festa com os anunciados 70,4% da vacina de Oxford.

Aí vieram as especulações de quem conseguiria iniciar primeiro a vacinação. Quem tiraria a foto? Diante do fato de que o Instituto Butantan estava, de fato, na frente, Bolsonaro revidou com a preferência de compra das vacinas pelo governo federal.

Desdisse o que havia dito e fechou contrato de compra com exclusividade da "vacina do Doria". E incluiu a CoronaVac no Programa Nacional de Vacinação. Pronto a vacina de São Paulo vai ter que ser distribuída no Brasil inteiro a partir do Ministério da Saúde. E num cronograma preparado pelo ministro-general Eduardo Pazuello, pseudo especialista em logística.

Mas eis que a vacina de Oxford no Brasil não ficou pronta a tempo. Atrasou a vinda dos insumos. E a Índia não mandou ao Brasil os dois milhões de doses que Pazuello anunciara que receberíamos.

O resultado da brincadeira é que se iniciou um programa de vacinação no país inteiro com as insuficientes doses da vacina de São Paulo. Sem a menor certeza de que haverá vacinas, insumos e acessórios prosaicos, como seringas, suficientes para a continuidade da vacinação nos prazos determinados pela medicina.

Com o agravante de que a China foi xingada por tantas vezes pelo presidente brasileiro, por seu filho Eduardo Bolsonaro e pelo chanceler Ernesto Araújo, que as autoridades daquele país não têm a menor pressa em autorizar a exportação de seu produto para o Brasil.

Estamos numa sinuca de bico por culpa de dois dos nossos principais líderes políticos, o governador de São Paulo e o presidente da República.

Quanto ao povo e sua saúde... Bem, que fique em casa e use máscaras por mais tempo. Pelo tempo que for possível.