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Tales Faria

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Barros não pedirá demissão, mas só fica líder se o centrão e Lira quiserem

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

06/07/2021 13h35Atualizada em 07/07/2021 14h55

A coluna perguntou ao líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), se ele pretende entregar o cargo. Ele respondeu que não. Barros disse que seu cargo pertence ao presidente da República. Ou seja, não esperem por seu pedido. Cabe a Jair Bolsonaro o peso da decisão. O peso, sim. Mas a decisão está nas mãos de outros.

Um integrante da equipe de coordenação política do governo disse-me o seguinte: a permanência de Barros no cargo depende do presidente da Câmara, Arthur Lira, que também é do PP. Ele já pediu a cabeça de Barros, tempos atrás, e não conseguiu. Agora, se Lira insistir, Barros sai.

Por quê? Porque tudo o que Bolsonaro não quer é que essas acusações de corrupção que pesam sobre o Ministério da Saúde resultem num rompimento com o centrão — aquele grupo de partidos sem coloração ideológica que dá sustentação ao governo em troca de benesses da máquina pública.

O deputado Luís Miranda disse na CPI da Covid que quando ele falou com o presidente de uma roubalheira no Ministério da Saúde, Bolsonaro retrucou que aquilo era coisa de Ricardo Barros.

Pois bem. Há uma desconfiança no Planalto de que Arthur Lira incitou Miranda a falar do líder em seu depoimento na CPI da Covid. Mas o PP de Barros e de Arthur Lira é o maior partido do centrão.

Se o presidente da Câmara insistir na queda de Barros, é porque seu partido abandonou o líder. Então, para o presidente da República, tudo bem, ele se livra de Ricardo Barros, de quem também nunca gostou muito.

Mas se Arthur Lira não insistir, é porque não tem o apoio do seu grupo, o centrão, como um todo.

Esse é o problema. Será que Barros sozinho está por trás do domínio do centrão sobre o Ministério da Saúde? Ou será que ele é apenas um dos caciques a mandar por ali?

Numa de suas entrevistas antes de ir à CPI, Luís Miranda disse que também falou sobre a encrenca com o então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, na véspera de o general ser exonerado.

Segundo Miranda, Pazuello contou que ele mesmo estava sob pressão. E que teria tentado reagir, mas ouviu de uma dessas pessoas que o pressionava: "Eu vou te tirar dessa cadeira." E tirou mesmo.

Quem teria falado isso para Pazuello? Foi aquela mesma pessoa que queria "pixulecos", como relatou o ex-chefe da pasta para seus funcionários, na despedida do Ministério?

Deve realmente ser alguém muito forte para ter derrubado o general. E para fazer com que Bolsonaro não tenha atacado pessoalmente Luís Miranda ou Ricardo Barros. Nem ter reagido sobre a força do centrão no governo como um todo.