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Tales Faria

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Ministro da Defesa, Walter Braga Netto se preocupa em salvar a própria pele

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

10/08/2021 10h19

Foi lastimável. De figuras importantes para assistir da rampa do Palácio do Planalto ao desfile de blindados militares, só o presidente Jair Bolsonaro e seu ministro da Defesa.

Estavam acompanhados de figurantes indistinguíveis para a opinião pública, ou que se escondiam atrás do batalhão da frente na rampa. Nenhuma das principais celebridades chamadas pelo presidente da República aceitou seu convite.

O ministro da Defesa, general Braga Netto, é claro que tinha que estar ali. Afinal, foi cúmplice de Bolsonaro na decisão de promover uma demonstração de força contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal no dia da votação da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do voto impresso pela Câmara.

A demonstração de força acabou se tornando uma demonstração de fraqueza. Nenhum dos ministros do STF aceitou o convite, nem o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), e, principalmente, nem mesmo o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), hoje o maior aliado de Bolsonaro na cúpula do Congresso.

Mas foi visto na rampa, o líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP-PR), aquele que o presidente apontou para o deputado Luís Miranda (DEM-DF) como possível responsável pela tentativa de compra de 20 milhões de doses de vacinas da Covaxin, superfaturadas e que sequer existiam.

Braga Netto vai ter que explicar à tropa por que envolveu os militares nesse vexame. Só falta a proposta de voto impresso ser derrotada na Câmara, como se prevê, para o vexame ser completo.

Evidentemente o general não dará a explicação real, porque ela é difícil de se admitir: está tentando demonstrar força porque vive seu maior momento de fraqueza. Pois, além da provável derrubada do voto impresso há a CPI da Covid.

Braga Netto se viu envolvido num episódio mal explicado em que teria ameaçado impedir as eleições do ano que vem se o voto impresso não for aprovado. Desmentiu ter feito a ameaça com um discurso em que, na verdade, atacou o voto eletrônico, como tem sido feito há anos.

Mais. Quando ministro da Casa Civil, desenhou e comandou do Palácio do Planalto toda a operação do governo federal de combate à pandemia. Está ameaçado de ter que depor na CPI na condição de investigado por senadores civis.

Após mais de 560 mil mortes no país, não há como deixar de reconhecer que a operação federal de combate à pandemia foi um fracasso. E ainda com acusações de corrupção envolvendo militares que Braga Netto ajudou a empossar no Ministério da Saúde.

Agora todos os atos do ministro da Defesa são uma tentativa de salvar a própria imagem. Mesmo que isso leve de roldão seus comandados na caserna.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL