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Tales Faria

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Demissões e "licença para gastar" podem ser última cartada de Guedes

Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Chefe da Sucursal de Brasília do UOL

21/10/2021 19h55

O anúncio do pedido de demissão de pelo menos quatro dos principais assessores do ministro da Economia, Paulo Guedes, aumentou a irritação contra o chefe da pasta entre os assessores mais próximos do presidente Jair Bolsonaro.

A avaliação é que Paulo Guedes está esticando a corda contra seus colegas da área política para evitar que o projeto que substituirá o Bolsa Família -o tal "Auxílio Brasil"- ofereça a seus beneficiários um valor superior aos R$ 300 propostos pela área econômica.

Guedes e seus auxiliares calculam que é este valor que cabe no Orçamento da União sem desrespeitar o teto de gastos imposto pela Constituição. O presidente Jair Bolsonaro encampou a proposta de R$ 400 da área política. Para Paulo Guedes e seus assessores, esta é uma forma de "furar o teto".

O pedido de demissão foi visto como uma nova cartada da equipe econômica, depois do fracasso de outra jogada que Paulo Guedes teria tentado. Por esta versão, ao declarar publicamente nesta quarta-feira, 20, que o governo editaria uma "licença para gastar", o ministro da Economia quis mostrar ao governo como o mercado reagiria mal ao projeto de pagamento mínimo R$ 400.

Realmente o mercado reagiu muito mal, a cotação do dólar disparou novamente, subindo para R$ 5,66 e a Bolsa chegou a cair 3,28% nesta quinta-feira.

A crise se agravou ao longo do dia com o anúncio de paralisação dos tanqueiros (caminhoneiros que transportam combustível) e a resposta dada pelo presidente Bolsonaro.

O presidente prometeu pagar um auxílio a 750 mil caminhoneiros autônomos para compensar o aumento do diesel. O preço do combustível subiu 37,25% em agosto na comparação com o mesmo período do ano passado.

Com a declaração, Bolsonaro mostrou não ter-se impressionado com a reação do mercado após a declaração do ministro no dia anterior.

O pedido de demissão dos assessores teria vindo, então, na avaliação do Planalto, como uma última cartada para tentar sensibilizar o presidente e frear o avanço da área política.

É essa avaliação que está deixando os assessores mais próximos do presidente irritados.

Acham que, sob a proteção de Guedes, seus auxiliares estão insuflando a crise, num momento já delicado, com queda de popularidade do presidente, uma pandemia, a proximidade do ano eleitoral de 2022, e os problemas energéticos que o país está vivendo.

Seria quase que como uma traição, disse à coluna um auxiliar do presidente.

O resultado pode ser imprevisível. Bolsonaro está sendo insuflado a simplesmente ignorar os reclamos do ministro da economia. O presidente, no entanto, tem dito que mantém respeito pelo ministro e não quer sua saída.