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Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro tornou-se vivandeira de quartéis, como as odiadas por Castello

O presidente Jair Bolsonaro junto a militares brasileiros - Getty Images
O presidente Jair Bolsonaro junto a militares brasileiros Imagem: Getty Images
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

10/05/2022 08h32

"Eu os identifico a todos. E são, muitos deles, os mesmos que desde 1930, como vivandeiras alvoroçadas, vêm aos bivaques bulir com os granadeiros e provocar extravagâncias do poder militar."

Quem disse isto foi o marechal Humberto Castello Branco, em agosto de 1964, no auditório da Escola de Comando e Estado Maior do Exército. Reclamava dos civis que passaram a atacar seu governo, mas que, antes, rondavam os quartéis a pedir ajuda militar para suas extravagâncias políticas.

As vivandeiras citadas por Castelo são aquelas mulheres que seguiam as tropas em marcha para comercializar ou levar mantimentos que os soldados necessitavam. No ideário machista, parte delas seriam prostitutas "a bulir com os granadeiros".

A afirmação jocosa do marechal bem marcava o desprezo dos militares pelos civis que tanto os convocaram, ao longo de toda a história do Brasil, para dar apoio armado às artimanhas dos políticos.

Os estrategistas do golpe militar de 1964 —entre os quais o general Golbery do Couto e Silva— utilizaram o seguinte argumento para convencer os colegas a aderir ao movimento: parar de agir para sustentar este ou aquele político, pois chegou a hora de os próprios militares assumirem o poder.

Desde então, as vivandeiras dos quarteis perderam expressão na política brasileira. E os militares, por sua vez, acabaram se desgastando com seus 20 anos de governos autoritários. Castigados por terem se metido de corpo e alma na política.

Mas eis que o tempo passa e é eleito presidente da República o capitão da reserva militar Jair Bolsonaro, afastado do Exército e classificado como "um mau militar" pelo ex-presidente e general Ernesto Geisel.

Obrigado a deixar a caserna, Bolsonaro tornou-se um político. Acabou incorporando alguns dos maus hábitos dos dois lados. O pior deles está se revelando agora: a estratégia dos velhos políticos civis pré-Castelo Branco de convocar os militares para intervir na política.

Bolsonaro tornou-se uma daquelas vivandeiras apontadas pelo marechal, que buliam com os granadeiros para levar os militares a cometer extravagâncias políticas.

Pensávamos todos que os militares de alta patente, após a lição de 1964, estavam vacinados contra os chamamentos das vivandeiras para a política.

Talvez até estivessem. Mas não parecem resistir à sedução de um carguinho comissionado, do aumento do soldo e da possibilidade de furar o teto salarial.

Bolsonaro parece despertar o que há de pior na tropa, quando vemos um general-ministro da Defesa aceitar ser candidato a vice-presidente, como é o caso do general Braga Netto. E, o que é pior, seu sucessor e também general, Paulo Cesar Nogueira, se prestar a bulir com o Tribunal Superior Eleitoral para pôr em dúvida a confiabilidade das eleições.

O presidente do TSE, Edson Fachin, respondeu no tom exato às questões levantadas pelo general, mostrando-lhe o quanto são inapropriadas. Espera-se que tenha servido como um ponto final.