PUBLICIDADE
Topo

Tales Faria

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Arthur Lira copia Eduardo Cunha para conquistar votos contra Lula

O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em campanha pela reeleição para o comando da Casa - Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), em campanha pela reeleição para o comando da Casa Imagem: Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Tales Faria

Tales Faria largou o curso de física para se formar em jornalismo pela UFRJ em 1983. Foi vice-presidente, publisher, editor, colunista e repórter de alguns dos mais importantes veículos de comunicação do país. Desde 1991 cobre os bastidores do poder em Brasília. É coautor do livro vencedor do Prêmio Jabuti 1993 na categoria Reportagem, ?Todos os Sócios do Presidente?, sobre o processo de impeachment de Fernando Collor de Mello. Participou, na Folha de S.Paulo, da equipe que em 1986 revelou o Buraco de Serra do Cachimbo, planejado pela ditadura militar para testes nucleares.

Colunista do UOL

01/07/2022 12h09

Com a inclusão do orçamento secreto impositivo na Lei de Diretrizes Orçamentárias o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), repetiu uma estratégia já utilizada por Eduardo Cunha (RJ), então no MDB, quando este comandava a Casa.

O orçamento secreto impositivo foi aprovado na quarta-feira, 29, pela Comissão de Orçamento durante a votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Ainda será submetido ao plenário do Congresso.

Foi incluído no texto numa articulação do centrão, que tem em Arthur Lira sua principal liderança no Congresso. Evita que, se eleito para o Planalto, Lula consiga barrar a reeleição do chefe do centrão no comando da Câmara.

Vale lembrar que Lira era um deputado inexpressivo até se tornar um dos principais aliados de Eduardo Cunha. Também vale rememorar a estratégia usada por Cunha nas eleições de 2014.

Cunha já estava no comando da Câmara, mas sabia que sofria resistências da então presidente da República, Dilma Rousseff. Diante da iminente reeleição de Dilma, resolveu, então, ajudar na eleição de deputados de praticamente todos os partidos, inclusive do PT.

O presidente da Câmara pediu a empresários de vários estados, que lhe deviam favores na aprovação de projetos, para financiarem as campanhas dos deputados pelo país. Com isso, conquistou o voto dos colegas para sua reeleição no comando da Casa.

O deputado formou bancada tão forte que, durante o governo Dilma, comandou a uma verdadeira artilharia de pautas bombas e acabou protagonizando o impeachment da ex-presidente.

A diferença para Arthur Lira, é que a base da estratégia de Eduardo Cunha foi o apoio de empresários, enquanto o atual presidente da Câmara pretende formar sua superbancada com verbas públicas, as chamadas emendas ao Orçamento.

O presidente da Câmara já foi informado por aliados de que, se o PT vencer as eleições presidenciais, o Planalto trabalhará contra sua reeleição para dirigir a Casa. Se eleito, Lula não quer ter no comando do Congresso um opositor tão poderoso quanto foi Eduardo Cunha.

Sabendo disso, Arthur Lira vem desenhando sua estratégia para enfrentar o petista desde 2020. Foi quando ajudou na criação do chamado orçamento secreto com base na RP-9, rubrica para "Resultado Primário 9" no Orçamento da União.

As RP-9 são emendas do relator geral do Orçamento, que sempre existiram como uma pequena reserva para ajuste de contas. No final da votação anual do texto pelo Congresso, o relator geral usava essa verba para aparar arestas entre as bancadas.

A partir de 2020, Arthur Lira e o centrão decidiram engordar as verbas da RP-9 estupidamente. Passaram de cerca de R$ 1 bilhão para mais de R$ 16 bilhões, que, como estão no nome do relator geral, ficam sem ter como se saber qual deputado está sendo beneficiado.

Daí o apelido de "orçamento secreto".

Somadas às demais emendas orçamentárias dos congressistas que também são impositivas, as emendas parlamentares formam uma prisão de mais de R$ 30 bilhões em investimentos que o futuro governo terá que deixar nas mãos de parlamentares.

Com a promessa de que terão essa dinheirama em mãos, independentemente de quem seja eleito presidente da República, Lira e o centrão acreditam que aprovarão facilmente em plenário a LDO. Se isto ocorrer, será quase impossível desfazer a camisa de força contra o próximo governo.