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Thaís Oyama


Deixem "E o Vento Levou" e a estátua do Borba Gato em paz

"E o Vento Levou": Clark Gable e Vivian Leigh, agora na fogueira  - Reprodução/YouTube
"E o Vento Levou": Clark Gable e Vivian Leigh, agora na fogueira Imagem: Reprodução/YouTube
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

11/06/2020 11h40

Tiraram do streaming "E o Vento Levou".

O filme sobre a Guerra Civil americana, vencedor de oito Oscar, entrou no index do antirracismo por mostrar escravos inconscientes da opressão e escravagistas em papeis de herói. O filme foi rodado em 1939 e mantém o título de uma das maiores bilheterias de todos os tempos.

A onda de fúria contra o passado, despertada pelo assassinato de George Floyd, tem banido filmes, derrubado estátuas e renomeado ruas e departamentos.

No Reino Unido, a imagem de Winston Churchill que fica em frente ao Parlamento britânico foi pichada: "Era um racista". Para o pichador, e não poucos historiadores, o ex-primeiro-ministro britânico que liderou a vitória de seu país contra o nazismo merece arder no inferno porque foi um defensor do imperialismo britânico — um supremacista branco.

Não foi o único ex-primeiro ministro britânico chamuscado pelos protestos. A Universidade de Liverpool anunciou que a ala de dormitórios dos estudantes batizada "Gladstone" não mais se chamará assim. Ela será renomeada porque o pai do por quatro vezes chanceler do Reino Unido foi um proprietário de escravos, uma prova de que não só na Coreia do Norte filhos pagam o preço pelos pecados dos genitores.

No Brasil, mais uma vez a estátua de Borba Gato virou assunto.

Querem pô-la abaixo não porque é uma obra medonha — feia e desproporcional— mas porque o bandeirante, morto em 1718, era um "racista, misógino e assassino".

Iconoclastas indignados de todo o mundo, devagar com o andor, por favor.

Derrubar estátuas e jogar filmes na fogueira não combina com a era de tolerância e o fim das discriminações por que lutam inclusive os que foram às ruas mostrar sua indignação pelo assassinato de um homem negro e desarmado por um policial branco e sádico.

Cancelar a história é também discriminar os que viveram nos limites do conhecimento do seu tempo e que, antes de ser esconjurados por isso, poderiam contribuir para a evolução da humanidade com a simples lembrança de suas existências.

Uma estátua é uma estátua é uma estátua.

A reverência com que alunos de antigamente foram levados por seus professores a olhar para o bandeirante gigantesco nunca foi uma imposição do monumento, mas o resultado de uma visão hoje anacrônica das pessoas sobre ele.

Mude-se o olhar, deixe-se as estátuas e os filmes em paz.

Os mortos ainda têm a ensinar, nem que seja por meio dos erros que cometeram.

Thaís Oyama