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Thaís Oyama


Thaís Oyama

Com a decisão de não realocar Rêgo Barros, porta-voz vai para casa

O general Otávio Rêgo Barros: "paz e bem" - Anderson Riedel/PR
O general Otávio Rêgo Barros: "paz e bem" Imagem: Anderson Riedel/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

09/09/2020 11h06

Até sexta-feira, o porta-voz Otávio Rêgo Barros limpará suas gavetas e irá para casa. O presidente Jair Bolsonaro decidiu extinguir a função ocupada por ele desde o primeiro dia do governo e não vai realocá-lo em nenhum outro posto.

Antes de ser colocado na geladeira, onde esteve nos últimos meses, o general era um dos rostos mais conhecidos do governo.

O militar, ex-chefe do Centro de Comunicação Social do Exército, era responsável por ler para a imprensa os boletins oficiais do governo Bolsonaro transmitidos diariamente pela TV até o ano passado.

O general cumpria a tarefa com voz pausada e solenidade militar. A diplomacia de suas palavras muitas vezes camuflava a alta voltagem do assunto.

"O excelentíssimo senhor Presidente da República decidiu exonerar, nesta data, do cargo de ministro, o senhor Gustavo Bebianno Rocha. O senhor presidente da República agradece sua dedicação à frente da pasta e deseja sucesso na nova caminhada", disse o general em fevereiro de 2019 ao confirmar a precoce, tumultuada, traumática e nunca pacificada demissão de Gustavo Bebianno, o ex-aliado de primeira hora de Jair Bolsonaro e o primeiro ministro do governo a cair.

Às perguntas mais espinhosas dos jornalistas, o porta-voz respondia com semblante impassível e paciência de monge. Em seguida, despedia-se com seu bordão: "paz e bem" - Rêgo Barros é católico e devoto de São Francisco de Assis.

Nunca se soube de jornalista que tenha recebido dele uma informação não oficial. Em compensação, tampouco há registro de repórter que tenha tomado dele um pontapé, ou mesmo uma resposta mais ríspida.

No Palácio do Planalto, a proverbial discrição do porta-voz rendeu-lhe apelidos como "picolé de chuchu verde-oliva", fato que provavelmente nunca chegou ao seu conhecimento.

Rêgo Barros, que à frente da Comunicação do Exército transformou a Força na instituição de Estado mais popular nas redes sociais, caiu em desgraça no governo ainda no ano passado.

Sua estratégia de aproximação do presidente com a imprensa, que incluía cafés da manhã com jornalistas no Palácio, desagradou o núcleo de familiares e amigos mais próximos de Bolsonaro.

Carlos Bolsonaro, em especial, passou a bombardear o general nas redes sociais e fora delas. Desde então, colocado no freezer, o porta-voz ficou mudo.

Rêgo Barros aceitou integrar o governo menos por entusiasmo e mais por considerar o convite uma convocação.

O general, que comandou a ocupação do complexo do Alemão no Rio de Janeiro e a segurança da Rio +20, era um dos candidatos ao posto de quatro estrelas, a elite da Força. Mas o Alto Comando do Exército acabou por preteri-lo.

Na decisão, pesou o fato de existirem no páreo outros dois candidatos fortes vindos da cavalaria, mesma arma do porta-voz. Mas o motivo principal da não promoção do general foi o desejo do Alto Comando da Força de separar o Exército do governo. Sem a quarta estrela, Rêgo Barros passou para a reserva em julho do ano passado.

Agora, o general vai para casa do mesmo jeito que entrou e atuou no Palácio: com disciplina e sem barulho. E o governo, com a sua demissão, perde um pouco mais do que nunca teve sobrando — entre outras coisas, elegância e temperança.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.

Thaís Oyama