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Thaís Oyama

O mercado pode aliviar-se: Guedes não quer engrossar a fila do desemprego

Guedes vai se especializando na arte de contornar balões de ensaio que irritam o presidente Bolsonaro - SERGIO LIMA/AFP
Guedes vai se especializando na arte de contornar balões de ensaio que irritam o presidente Bolsonaro Imagem: SERGIO LIMA/AFP
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

16/09/2020 10h53

A cada vez que é desautorizado em público pelo presidente, Paulo Guedes corre para declarar que o chefe tinha razão em lhe passar a carraspana.

Criticado por Bolsonaro há duas semanas por ter sugerido o fim do abono salarial para bancar o Renda Brasil, o ministro fez ato de contrição. De fato, seria "tirar dos pobres para quem está pior", como ele pôde propor tamanha besteira? O presidente só poderia mesmo ter reagido, "com o senso político dele".

Só faltou Guedes agradecer a bronca e dizer que aprendeu muito com ela, como reza a cartilha da moda.

Ontem, o ex-ministro-que-mandava-na-economia repetiu o vexame. Só os ingênuos —ou os que por compromissos de naturezas diversas são obrigados a acreditar nas versões oficiais do governo—conseguem engolir a versão de que o secretário especial da Fazenda Waldery Rodrigues disse o que disse sem o conhecimento e a autorização de Guedes.

Em entrevista ao G1, o secretário declarou que a equipe econômica vinha estudando a ideia de desindexar ou mesmo congelar o valor de aposentadorias e pensões —numa clara tentativa de testar reações à ideia, como é praxe no governo Bolsonaro.

Só que o presidente, mais uma vez, reagiu à divulgação do projeto com seu "senso político" (também conhecido como "medo de ver a popularidade ir para o brejo") e Paulo Guedes, novamente, deu razão ao chefe.

A culpa era do fato de o estudo ter "ido para a mídia". O presidente, afirmou o ministro, "sempre disse" que não iria tirar dos pobres para dar aos mais pobres. Guedes preferiu não lembrar que nenhum assunto "vai para a mídia" sem que alguém o coloque lá.

Sobre a ameaça presidencial de levantar o cartão vermelho, não é a primeira vez que o ministro se furta a achar que o recado é para ele.

No ano passado, seu então secretário da Receita, Marcos Cintra, em outro clássico balão de ensaio, deu uma entrevista falando de estudos sobre a reforma tributária que incluíam a possibilidade de recriação de uma nova CPMF.

Bolsonaro reagiu com seu senso político, Guedes lamentou "a morte em combate" de Cintra e o demitiu, esquecendo-se de mencionar que a autoria da ideia sempre foi dele, como hoje deixou claro com a nova declaração em defesa do "imposto digital".

O mercado, que já tanto temeu a possibilidade de Guedes pedir o chapéu, pode respirar aliviado. O ministro só sai do governo chutado.