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Thaís Oyama

Bolsonaro e Severino, o rei do baixo clero, teriam algo em comum?

Severino Cavalcanti: Bolsonaro apoiou o "rei do baixo clero" para a presidência da Câmara - Celso Junior/Estadão Conteúdo
Severino Cavalcanti: Bolsonaro apoiou o "rei do baixo clero" para a presidência da Câmara Imagem: Celso Junior/Estadão Conteúdo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

23/09/2020 10h29

O presidente Jair Bolsonaro e seus filhos abasteceram suas campanhas eleitorais com dinheiro vivo doado por eles para eles mesmos, revelou reportagem da Folha de S Paulo. Entre 2008 e 2014, as notas somaram 163 mil reais em valores corrigidos pela inflação.

Tanto Jair Bolsonaro pai, quanto Flávio e Carlos Bolsonaro, filhos, são suspeitos de terem aderido à prática da rachadinha: desvio, na direção do próprio bolso, de dinheiro público destinado a pagar funcionários de gabinetes.

Bolsonaro se jactou a vida toda de nunca ter aceitado dinheiro de empresários para suas campanhas. É verdade. O cheque de 200 mil reais que ele devolveu em 2014 ao seu partido na ocasião, o PP, assim que foi informado se tratar de dinheiro da JBS, por muito tempo foi usado pelo ex-capitão como um atestado de lisura.

Bolsonaro foi eleito com fama de honesto, "incorruptível".

Até hoje, nem as seguidas revelações que apontam para o seu envolvimento e de seus filhos no esquema da rachadinha foram capazes de abalar a fé bolsonarista.

"O PT roubou bilhões", desdenham os seus eleitores, segundo as pesquisas.

Da mesma forma que o ex-capitão, o ex-deputado Severino Cavalcanti, morto neste ano, nunca teve seu nome exposto em lista de propinas de empreiteiras. Nunca se envolveu nos grandes escândalos de corrupção que assolaram o país.

Conhecido como o rei do baixo clero no Congresso, virou presidente da Câmara em 2005 quase por acaso. A visibilidade lhe custou caro.

Poucos meses depois de assumir, foi denunciado por extorquir o dono de um restaurante que operava na Câmara quando era primeiro-secretário da Casa.

Em troca da renovação da concessão do restaurante e da permissão para aumento de preços no cardápio, Severino teria cobrado do empresário 60 mil reais, divididos em parcelas - um "mensalinho".

O deputado renunciou no mesmo ano para não ter o mandato cassado. Processado na Justiça, morreu antes de ser julgado.

Deixou assim, uma dúvida no ar.

Era um homem probo e seu nome esteve ausente dos grandes escândalos por causa de suas convicções éticas e morais à prova, inclusive, das más companhias do Congresso?

Ou será que, sendo o rei do baixo clero tão pequeno e de tão pouca ajuda aos poderosos não era nem sequer por eles procurado e assim optou por montar um esqueminha bem mais modesto como o "mensalinho"?

Mundo vasto mundo. Mensalinho e rachadinha podem ser dois diminutivos, mas nem por isso rimam nem são prova de honestidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.