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Thaís Oyama

Os critérios de Bolsonaro para definir o nome do próximo ministro do STF

O ministro Jorge Oliveira, candidato ao STF: do tamanho do governo -
O ministro Jorge Oliveira, candidato ao STF: do tamanho do governo
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

22/09/2020 10h31

O presidente Jair Bolsonaro enxerga o ministro Celso de Mello, do STF, como um inimigo pessoal.

Em novembro, quando o decano se aposentar, Bolsonaro não apenas se livrará de um adversário na Corte, como ganhará um aliado lá. "Alguém que tome cerveja comigo no fim de semana", como relatou em sua coluna na Folha de S. Paulo a jornalista Monica Bergamo.

Os dois nomes hoje favoritos para ocupar o lugar de Mello são o do ministro da Justiça, André Mendonça, e o do ministro da Secretaria Geral do Governo, Jorge Oliveira.


A maior vantagem de André Mendonça sobre Jorge Oliveira é o fato de o primeiro, na condição de pastor da Igreja Presbiteriana Esperança de Brasília, ser "terrivelmente evangélico", como já disse Bolsonaro que seria o ministro do STF indicado por ele. Mendonça tem bom trânsito na Corte - dá-se especialmente com Dias Toffoli, que no final dos anos 2000 foi seu chefe na Advocacia Geral da União--e é bem visto por ministros como Alexandre de Moraes, com quem assinou no ano passado um livro em homenagem a Toffoli.

Discreto, estudioso e disciplinado, Mendonça conta ainda com o apoio de generais militares do Planalto, como o ministro Augusto Heleno, do GSI, para herdar a vaga do decano inimigo. E se ele nunca foi juiz (caso, aliás, de apenas quatro dos atuais ministros do STF — Rosa Weber, Marco Aurélio de Mello, Ricardo Lewandowski e o atual presidente, Luiz Fux), ao menos tem um currículo apresentável. Formou-se em Direito pelo Centro Universitário de Bauru, é doutor em estado de direito e governança global pela Universidade de Brasília e fez mestrado em estratégias anticorrupção na Universidade de Salamanca, na Espanha.

Como ministro da Justiça, embora venha se esforçando para mostrar lealdade ao chefe mesmo quando não deve, Mendonça tem uma desvantagem incontornável como candidato a substituto de Celso de Mello.

O pastor evangélico conhece Bolsonaro há pouco tempo. Os dois foram apresentados em novembro de 2018, quando o então servidor da AGU foi levado ao escritório de transição do governo pelo hoje ministro Jorge Oliveira. Em outras palavras: Mendonça não teve tempo de ser submetido ao teste da antiguidade, único capaz de convencer de sua fidelidade um chefe notório por desconfiar de tudo e de todos.

"SE EU NOMEIO MORO PARA O STF, ELE ME PROCESSA POR HOMOFOBIA"

Bolsonaro não precisa de motivos para farejar traições, reais ou imaginárias. O ex-ministro Sérgio Moro, mesmo quando era ainda um troféu do governo e símbolo do finado compromisso do ex-capitão com a luta anticorrupção, já fazia as sobrancelhas de Bolsonaro se arquearem. A assessores, o presidente chegou a dizer, meio brincando, meio a sério: "Esse aí, se eu nomear pro STF, no dia seguinte abre um processo contra mim por homofobia".

Já Jorge Oliveira é 100% da cozinha do clã Bolsonaro. Seu pai foi chefe de gabinete do ex-capitão por mais de 20 anos, até morrer de infarto fulminante durante a campanha de 2018. Bolsonaro o chama de "Jorginho". Assim como o pai de Jorginho foi chefe de gabinete do ex-capitão, Jorginho trabalhou na mesma função para Eduardo Bolsonaro, de quem é padrinho de casamento.

Major da reserva da PM, ele se formou em Direito em 2006 pelo Instituto de Educação Superior de Brasília, e passou a atuar como advogado apenas em 2013, quando assumiu um dos pouquíssimos casos de sua curta carreira como defensor, praticamente toda dedicada a resolver pendengas de amigos militares.

Jorginho toma cerveja no fim de semana com Bolsonaro.

Bolsonaro confia 99% nele ("100% só em pai e mãe", já declarou o presidente)

E se alguém acha que o currículo de Jorginho não está à altura de uma cadeira no STF, poucos vão discordar que do tamanho do governo do ex-capitão ele é.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.