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Thaís Oyama

O Ano Novo de Bolsonaro e por que não há presidente em Brasília

Palácio do Planalto: tem alguém aí? - EBC
Palácio do Planalto: tem alguém aí? Imagem: EBC
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

29/12/2020 12h05

O ex-ministro da Justiça Sérgio Moro acendeu a ira de apoiadores de Jair Bolsonaro ao criticar o presidente pelo atraso do Brasil na vacinação contra a Covid-19. Perguntou no Twitter:

"Tem presidente em Brasília?"

Uma resposta literal à pergunta retórica do ex-ministro seria a de que não há presidente em Brasília porque Bolsonaro está desde ontem no Guarujá, a cidade do litoral paulista onde passará o feriado de Ano Novo. O presidente ficará hospedado no Forte dos Andradas, instalação militar do Exército construída durante a Segunda Guerra Mundial. É a sétima vez que Bolsonaro se hospeda lá desde que foi eleito.

Para o ex-capitão, a estada numa "praia do Exército" deve ter um doce sabor de vingança.

No dia 8 de abril de 1990, Bolsonaro e sua família tiveram a entrada vetada em uma praia de Niterói. A praia do Forte do Imbuí sediava a 1º Bateria do 1º Grupo de Artilharia de Costa Mecanizado.

A ordem para barrar Bolsonaro partiu do comando da unidade militar. À época, o hoje presidente da República disse numa entrevista que se sentiu "ofendido e humilhado" com o episódio. Recém eleito vereador, Bolsonaro havia virado persona non grata no Exército depois que, em outubro de 1987, a revista Veja revelou que ele e um colega planejaram explodir bombas em unidades militares do Rio para mostrar a insatisfação da categoria com os baixos salários. Em 1988, deixou o Exército para evitar ser expulso da corporação.

Desde aquela época, o "capitão da bomba", como ficou conhecido, dava mostras de que nem o professado amor pela carreira militar era capaz de domar suas crenças e ideias fixas.

A pandemia serviu para mostrar que Bolsonaro continua a cultivar as duas coisas com desvelo.

Por pura crença, sem respaldo na realidade, o presidente boicotou o isolamento social, o uso de máscaras e o fechamento do comércio durante o pico da pandemia.

Por causa de uma ideia fixa, mandou o Exército fabricar toneladas de um medicamento inútil para combater a Covid-19. E por conta de uma obsessão contra um adversário político, fez seu ministro da Saúde voltar atrás na compra de uma vacina promissora.

Agora, pelos mesmos desarrazoados motivos, diz que não irá se vacinar e estimula os brasileiros a seguirem o seu péssimo exemplo — ainda que, dentro mesmo do Palácio do Planalto, assessores implorem para que ele aja diferente nem que seja pelo bem da economia e da sua reeleição. Tudo em vão.

E é por isso que não há presidente em Brasília. Esteja Bolsonaro lá ou no Guarujá, sua cabeça estará sempre no mesmo lugar — em seu mundo de ideias fixas.