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Thaís Oyama

Bolsonaro não vai soltar a mão de Trump nem abandonar suas ideias fixas

Os presidentes Bolsonaro e Donald Trump: unidos pela fantasia  -                                 JIM WATSON/AFP
Os presidentes Bolsonaro e Donald Trump: unidos pela fantasia Imagem: JIM WATSON/AFP
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

07/01/2021 11h58

O presidente Jair Bolsonaro não vai soltar a mão de Donald Trump.

"Ele apoia Trump e assim seguirá", disse um assessor do Palácio do Planalto. O auxiliar presidencial afirmou estar convicto de que Bolsonaro não irá fazer qualquer manifestação crítica à incitação do americano à invasão do Capitólio. De acordo com ele, o presidente "projeta-se" no republicano e crê de verdade que Trump foi vítima de fraude nas eleições — da mesma maneira que ele próprio teria sido trapaceado no primeiro turno de 2018 e pode voltar a ser em 2022, caso o sistema de votação eletrônica não seja modificado.

"Vamos ter problema pior que os Estados Unidos", profetizou o ex-capitão nesta manhã.

Para Bolsonaro, a verdade é o de menos, já que ele tem a sua própria coleção de ideias de estimação, também conhecidas como ideias fixas: as urnas eletrônicas não são confiáveis, o nióbio é a salvação do Brasil, a cloroquina é a salvação para a pandemia e por todo lado há gente querendo enganá-lo, envenená-lo, emboscá-lo, matá-lo (o fato de essa última crença ter desgraçadamente se confirmado no dia 6 de setembro de 2018 não contribuiu para atenuar as desconfianças do presidente que até hoje dorme armado no Palácio da Alvorada).

Tudo isso estaria limitado à esfera psíquica e privada do ex-capitão não fosse ele, além de presidente do Brasil, uma referência, galopante e potencialmente perigosa, para os seus eleitores e 35 milhões de seguidores nas redes sociais.

Como se viu no caso de Trump, bastam certas condições para que os fatos sejam soterrados pelas versões. Uma dessas condições é o cansaço das pessoas ao tentar acompanhar um caso intrincado, em que uma torrente de informações mistura meias verdades com mentiras inteiras e tecnicidades mais ou menos difíceis de entender, como a de que teria havido no estado de Michigan "uma disparidade entre os votos registrados em um software utilizado para a contagem e os dados registrados em outro sistema, o que fez com que os dados contabilizados corretamente fossem consolidados incorretamente, beneficiando fraudulentamente Biden" (a parte do erro humano ocorreu, mas foi detectado, corrigido e não influenciou a vitória do democrata no estado).

Bem mais fácil do que analisar friamente o desenrolar de assuntos complexos ou enfadonhos é optar pelo atalho mental de escolher alguém, ou um lado, e simplesmente alinhar-se ao que ele diz.

O presidente Donald Trump repetiu à náusea que os seus eleitores foram enganados e tiveram a vitória roubada por aliados de Joe Biden. Parte desses eleitores invadiu ontem o Capitólio, deixando quatro mortos e uma chaga na história dos Estados Unidos.

O presidente Jair Bolsonaro afirma desde já que em 2022 haverá trapaça e seus eleitores poderão ser passados para trás. Ainda faltam dois anos para as eleições presidenciais ocorrerem no Brasil, mas o perigo é que, até lá, como nos Estados Unidos de Trump, a verdade passe a ser o que menos importa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.