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Thaís Oyama

Governo aguarda início da vacinação contra covid-19 para demitir Pazuello

O futuro ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello -                                 NAJARA ARAUJO/CÂMARA DOS DEPUTADOS
O futuro ex-ministro da Saúde, Eduardo Pazuello Imagem: NAJARA ARAUJO/CÂMARA DOS DEPUTADOS
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

30/12/2020 10h59

Resumo da notícia

  • Erros de planejamento no combate à pandemia enfraquecem ministro da Saúde, que tem data para sair
  • Estratégia por vacina, testes deixados em galpão e fracasso na compra de seringas estão entre pontos críticos
  • Ricardo Barros (PP), líder do governo na Câmara, é o mais cotado para ocupar o cargo em 2021

O governo aguarda apenas o início da vacinação contra o coronavírus para sacar o general Eduardo Pazuello do ministério da Saúde. Pazuello deve ser substituído pelo atual líder do governo na Câmara, Ricardo Barros (PP), que já ocupou a pasta no governo Michel Temer.

O general que entrou coberto de louros por sua atuação na Operação Acolhida, de atendimento aos refugiados venezuelanos em Roraima, passa seus últimos dias como ministro sob uma saraivada de pedras — vindas, inclusive, do Palácio do Planalto.

Lá, assessores próximos do presidente mostram-se inclementes para com o general. Na visão desses assessores, Bolsonaro atrapalhou o trabalho do ministério no combate à pandemia em vários momentos, como quando obrigou Pazuello a recuar no acordo de compra da Coronavac, por exemplo, mas não proibiu o general de apresentar um bom plano de vacinação.

O erro de apostar numa só vacina, ao contrário do que fizeram quase todos os vizinhos do Brasil da América Latina, foi o primeiro dos muitos maus passos dados pelo ministério nessa fase da pandemia.

Antes, porém, o general já havia sido pego de calças curtas em episódios de gritante incompetência, como o dos quase 7 milhões de testes para diagnóstico do coronavírus flagrados pelo jornal O Estado de S. Paulo à beira do vencimento num galpão em Guarulhos (o caso foi "resolvido" com a prorrogação da validade dos testes, autorizada pela Anvisa, por quatro meses) e o das 20 milhões de máscaras cirúrgicas adquiridas pelo governo em março — das quais apenas 3 milhões tinham chegado ao seu destino até setembro, segundo o Tribunal de Contas da União.

O fracasso na compra das seringas

Agora, vexame dos vexames, o pregão eletrônico para compra de agulhas e seringas, tardiamente realizado pelo ministério da Saúde, resulta em retumbante fracasso.

Das 331 milhões unidades necessárias, o governo conseguiu comprar até agora apenas 7,9 milhões.

Motivo principal: erro de cálculo. Alguns dos preços estimados pelo ministério chegaram a ficar 70% abaixo do mínimo pedido pelos fabricantes. Ao desprezar regras elementares como a da oferta e demanda, e a de que quem chega por último paga mais caro, o ministério da Saúde viu os fornecedores virarem-lhe as costas - e ficou falando sozinho.

Quando recebeu a visita de consolação de Bolsonaro logo depois de ter sido por ele desautorizado no episódio do cancelamento da compra da Coronavac, Pazuello, rindo amarelo, afirmou: "Senhores, é simples assim: um manda e outro obedece".

O vergonhoso caso das seringas mostra que o hoje quase ex-ministro errou muito e errou feio, mas não foi só por obedecer demais.