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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Lula elegível pega Bolsonaro em seu pior momento político

Jair Bolsonaro: o presidente quase já não tem com quem brigar - Reprodução/Flickr Palácio do Planalto
Jair Bolsonaro: o presidente quase já não tem com quem brigar Imagem: Reprodução/Flickr Palácio do Planalto
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política da rádio Jovem Pan. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

16/04/2021 11h31

A confirmação pelo STF de que o ex-presidente Lula poderá se candidatar em 2022 pegou Jair Bolsonaro em péssimo momento.

Do ponto de vista eleitoral, o presidente está em viés de baixa. Analistas de pesquisa afirmam que, se a eleição fosse hoje, o ex-capitão teria de disputar a segunda vaga do segundo turno com o candidato "do centro" que ainda ninguém sabe quem é — a primeira vaga já seria de Lula.

Mas é do ponto de vista político que a situação do presidente Bolsonaro está pior.

E não porque ele esteja sob ataque cerrado dos adversários. Pelo contrário, isolado, o ex-capitão quase já não encontra com quem brigar.

Suas bravatas ("estado de defesa", "estado de sítio", "ação dura", "o caos vem aí") seguem um percurso cada vez mais familiar: explodem e produzem não mais que fagulhas no ar, seguidas de maciça e geral indiferença assim que se apagam.

O STF já percebeu que ganha mais quanto mais ignorar as provocações do chefe do Executivo.

Na quarta-feira, quando o presidente atacou nominalmente o ministro Luís Roberto Barroso, acusando-o de fazer "politicalha" e carecer de "coragem moral", ouviu da Corte um estrondoso silêncio. No dia seguinte a resposta veio no resultado da votação que, por 10 x 1, referendou a liminar de Barroso pela determinação da abertura da CPI da Covid pelo Senado.

Também no Congresso Bolsonaro está sem com quem se engalfinhar. A substituição de Rodrigo Maia — freguês antigo das suas provocações e da tropa bolsonarista— pelo bem mais frio e calculista Arthur Lira, do Centrão, deixou o presidente sem discurso.

Bolsonaro não pode mais reclamar do "boicote" do governo pelo Congresso, já que agora são seus aliados que mandam lá. E o que eles têm feito — tanto Lira quanto Rodrigo Pacheco, presidente do Senado— é o que se tem visto: quando precisam tratar com o Executivo, conversam diretamente com ministros e apenas "administram" as tentativas de "interferência" do presidente.

Bolsonaro não sabe jogar xadrez, prefere o vale-tudo. Quando a situação aperta, sobe no banquinho da sua live ou corre para o cercadinho do Alvorada de onde dispara perdigotos e impropérios contra os "inimigos", de modo a fabricar reações que, supõe, aglutinarão sua tropa.

Ocorre que, com dois anos e quatro meses de repetição da performance, ela já não faz efeito. Bolsonaro espuma, vocifera e ameaça, enquanto os adultos seguem em frente sem lhe dar atenção.

A única tática que o ex-capitão conhece é a do confronto. Agora arrisca-se a acabar sozinho no ringue.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL