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Thaís Oyama

REPORTAGEM

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Militares veem risco de impunidade de Pazuello "rachar" o Exército

O Exército "dele": generalato com a disciplina, tropas com o ex-capitão?  - Marcos Corrêa/PR
O Exército "dele": generalato com a disciplina, tropas com o ex-capitão? Imagem: Marcos Corrêa/PR
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

04/06/2021 10h47

O receio não vem de críticos do governo, mas de militares bolsonaristas ligados ao Palácio do Planalto: a decisão do comandante Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira de deixar impune o general Eduardo Pazuello pode dar início a uma divisão do Exército - com o risco da perda de controle da Força.

O anúncio da decisão de Paulo Sérgio de permitir que Pazuello, protegido do presidente Jair Bolsonaro, saísse ileso da infração disciplinar que cometeu ao participar de manifestação política em apoio ao ex-capitão foi pessimamente recebido por generais, tanto da ativa como da reserva.

"Destruíram com uma patada tudo o que levamos décadas para erguer", disse um quatro estrelas e ex-ministro de governo sobre o reflexo que, considera, o episódio terá para a imagem da instituição.

O general descreveu como "muito dura" a reunião de quarta-feira em que Paulo Sérgio discutiu com o Alto Comando do Exército o destino de Pazuello.

Uma parte minoritária da cúpula da Força entendeu que dobrar-se à pressão de Bolsonaro para que Pazuello fosse poupado de castigo seria a única forma de preservar a cabeça do comandante e, com ela, a estabilidade da Força. "Não se troca o número um do Exército como se troca de camisa", afirmou um militar adepto dessa corrente.

A parte majoritária do Alto Comando, porém, não "apoiou" a decisão de Paulo Sérgio - antes, pelo contrário, engoliu-a. O que, em se tratando da cúpula do Exército, pouca diferença faz no curto prazo.

O Alto Comando, formado pelos generais que ocupam os cargos mais importantes do Exército, é um órgão de assessoramento do comandante da Força.

Aos oficiais que o compõem resta, portanto, observar a mesma regra de ouro a que estão sujeitos todos os oficiais militares: diante de qualquer questão, subordinados podem expor seus argumentos ao comandante até o último minuto, mas tendo o superior tomado a sua decisão, goste-se ou não dela, decidido está - e não se fala mais no assunto.

O comandante Paulo Sérgio tomou sua decisão e, a partir de agora, a cúpula do Exército, disciplinadamente, se fechará.

O mesmo comportamento, porém, não se deve esperar do andar de baixo.

Nos grupos de Whatsapp de tenentes e coronéis, o tom predominante ontem era de comemoração. Pazuello, para eles, não tinha motivos para ser punido, dado que estava autorizado pelo presidente Bolsonaro — que além de Comandante Supremo das Forças Armadas, é também o candidato favorito de boa parte das tropas para 2022.

Começam a se definir assim os contornos de uma divisão entre o generalato e o baixo oficialato. O primeiro está ressentido, mas se manterá disciplinado. O segundo, sempre mais afoito, agora está à vontade para seguir os passos rebeldes de Pazuello.

E o que de pior pode surgir desse caldo?

Responde um oficial conhecedor da história e do bolsonarismo: "Um maluco disposto a botar a tropa na rua, por exemplo".

1964 já provou que eles existem.