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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Dono do Patriota já acusou Bolsonaro de "estuprar" a sigla e não casar

Flávio Bolsonaro e o presidente do Patriota, Adilson Barroso: preparando a tempestade  - Reprodução/Twitter
Flávio Bolsonaro e o presidente do Patriota, Adilson Barroso: preparando a tempestade Imagem: Reprodução/Twitter
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

01/06/2021 10h48

"Depois de ter estuprado o PEN, o que espero dele agora é o casamento com o Patriota, a que ele deu o nome".

A frase foi dita em janeiro de 2018 por um desolado, mas ainda esperançoso Adilson Barroso, presidente do ex-Partido Ecológico Nacional (PEN), ao saber que Jair Bolsonaro havia se filiado ao PSL.

Depois de passar quase um ano esfalfando-se para atender as exigências do então candidato à Presidência para ingressar no seu partido, Barroso reclamava de ter sido abandonado por Bolsonaro no último instante, como noiva deixada no altar. Para satisfazer o ex-capitão, ele chegou mesmo a mudar o nome da sigla que fundou (o "ecológico" desagradava Bolsonaro).

Isso foi em 2018.

Agora, em 2021, o cartola do Patriota arrisca-se a repetir a experiência.

Ontem, o primogênito do presidente, Flávio Bolsonaro, filiou-se ao seu partido e disse que a possibilidade de o pai fazer o mesmo é uma "tendência natural". Ainda assim, Barroso continua roendo as unhas.

Sabe que Bolsonaro mantém conversas com outros partidos, incluindo o PTB, de Roberto Jefferson, e o PSL, de Luciano Bivar, de onde o ex-capitão saiu no ano passado depois de ser derrotado numa disputa pelo controle do cofre da legenda. Neste ano, o PSL deve receber mais de 100 milhões de reais de recursos públicos, uma bolada capaz de encher os olhos de qualquer candidato. Mas a volta de Bolsonaro ao partido que o elegeu encontra forte resistência de ex-aliados. O deputado Julian Lemos, por exemplo, da Executiva do PSL e um dos mais próximos colaboradores do ex-capitão na campanha de 2018, por exemplo, já colocou o pé na porta.

Além disso, Bolsonaro, que desconfia de tudo e de todos, exige o pleno comando do partido no qual ingressará.

Ontem, sua possível filiação ao Patriota abriu a temporada de pugilato na legenda: houve acusações de golpe, ameaça de desfiliações, pedido na Justiça de anulação da convenção e até a abertura de um boletim de ocorrência em delegacia.

Bolsonaro nem chegou e já semeia a tempestade.

Mas, para Barroso, a briga vale a pena. A possível entrada do presidente em sua sigla nanica é a melhor oportunidade para atrair deputados e engordar o cofre do Patriota - cofre que, como mostrou reportagem de hoje da Folha, ele tem usado para cuidar com desvelo de si próprio e de sua família. Mais de um milhão de reais da verba pública do fundo partidário do Patriota foi usado nesses anos para pagar salários mensais ao cartola e ao menos seis parentes, incluindo sua mulher, filha e cunhada.

Se Bolsonaro nunca foi marido confiável, o mesmo se pode dizer de seus pretendentes.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL