PUBLICIDADE
Topo

Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Agro, evangélicos e "antimáscaras" formam tripé que ainda segura Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro: tentando se equilibrar no tripé - Reuters
O presidente Jair Bolsonaro: tentando se equilibrar no tripé Imagem: Reuters
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

02/07/2021 10h41

Senadores e próceres do Centrão têm aumentado a pressão sobre Jair Bolsonaro para que desista de indicar André Mendonça ao Supremo Tribunal Federal.

O presidente, porém, resistirá até quando puder. E não apenas por confiar que seu apadrinhado levará para a Corte a lealdade já demonstrada a ele quando ministro da Justiça ou no cargo atual, de advogado-geral da União.

Mais importante que isso é o fato de Mendonça encarnar a ponta — potencialmente mais instável — do tripé que hoje sustenta um presidente prestes a bater um recorde histórico de impopularidade.

Desse tripé, fazem parte os chamados "eleitores do agro", moradores das fronteiras agrícolas fortemente beneficiados com a alta do preço da commodities. Em municípios do Centro-Oeste com intensa atividade agropecuária, a popularidade de Bolsonaro chega a 50%, como mostra levantamento do instituto Ideia divulgado hoje.

Dado que o aquecimento do mercado das commodities, fruto da recuperação das economias americana e chinesa, deve se manter para além de 2022, também o apoio ao ex-capitão nesse segmento não deve sofrer abalos até as eleições.

A outra ponta do tripé que sustenta Bolsonaro são os seus eleitores-raiz - majoritariamente homens, com curso superior e moradores das metrópoles. Também conhecidos como "antitudo" (antipolítica, anti-STF, anti-Congresso, antiuso de máscaras na pandemia), eles são indiferentes à CPI da Covid e a qualquer coisa que deponha contra o presidente. Compõem o segmento que a tudo resiste — diga o que diga e faça o que faça o ex-capitão.

A ponta dos evangélicos resta, portanto, a mais sensível do tripé. Formada sobretudo por seguidores da vertente neopentecostal, moradores de regiões urbanas e pertencentes à classe C, essa parte dos apoiadores de Bolsonaro lhe foi até agora fiel.

Ocorre que o hoje favorito para as eleições de 2022, o ex-presidente Lula, tem forte penetração nesse público também.

Pesquisa Datafolha divulgada em maio mostrou o petista e Bolsonaro empatados tanto no primeiro quanto no segundo turnos entre o eleitorado evangélico.

No cômputo geral, porém, Lula apresenta viés de alta, e o ex-capitão rola ladeira abaixo.

"Nunca antes um chefe do Executivo a essa altura do mandato teve índices tão grandes de reprovação", afirma Maurício Moura, CEO do Ideia.

Entre os presidentes que tentaram a reeleição, Fernando Henrique Cardoso tinha, a um ano e meio do pleito, 25% de desaprovação; Lula, na mesma época, tinha 33%; e Dilma Rousseff, 31% (isso considerando que o petista vivia o auge da crise do mensalão e Dilma enfrentava as passeatas de junho de 2013). O governo Bolsonaro tem hoje astronômicos 54% de reprovação, segundo o instituto.

Bolsonaro se equilibra sobre o seu tripé, e sabe bem qual será o seu destino se uma das pontas falhar.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL