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Thaís Oyama

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Por voto evangélico, Bolsonaro prega luta entre o Diabo e o Messias

O presidente Jair Bolsonaro, ou o Messias, na cruzada digital para 2022 - Ueslei Marcelino/Reuters
O presidente Jair Bolsonaro, ou o Messias, na cruzada digital para 2022 Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

26/07/2021 13h03

O presidente Jair Bolsonaro publicou hoje no seu Facebook um vídeo mostrando o pregador mirim Caíque Ferreira sugerindo uma comparação entre Lula e Barrabás — o ladrão que, segundo a Bíblia, a multidão escolheu libertar no lugar de Jesus. O menino, um prodígio de oratória, não cita o nome do petista em nenhum momento, mas a alusão é evidente.

Desde que foi internado para tratar de mais uma sequela do atentado que sofreu em 2018, Bolsonaro incrementou o teor religioso das suas mensagens nas redes sociais. Termos como Deus, sacrifício, redenção, cruzada e bênção se tornaram constantes.

O alvo do ex-capitão, claro, é o público evangélico, mais especificamente sua vertente neopentecostal, onde ele é forte (a penetração de Lula é maior entre batistas e presbiterianos, mas no cômputo geral, ambos empatam na preferência do segmento religioso, como mostrou pesquisa Datafolha divulgada em 12 de maio).

Se, para Lula, o apoio dos evangélicos é uma importante plataforma de arrancada em direção a 2022, para Bolsonaro, ele é fundamental para amortecer sua queda de popularidade. Até agora, esse eleitorado lhe tem sido fiel.

Uma série histórica do instituto Ideia mostra que, em agosto, o governo Bolsonaro era considerado ótimo ou bom para 36% dos brasileiros que se identificavam como evangélicos. Passados dez meses — durante os quais o país registrou, entre outras desgraças relacionadas ao governo, a ocorrência de mais de 500 mil mortes pelo coronavírus e a eclosão das denúncias de corrupção na compra das vacinas— o índice de aprovação de Bolsonaro nesse segmento se manteve em 37%.

O antropólogo Juliano Spyer, em seu livro "O povo de Deus", lembra que, em 2018, 21 milhões de evangélicos votaram em Jair Bolsonaro, contra 10 milhões que optaram pelo petista Fernando Haddad no segundo turno.

À época, diversos analistas associaram a vitória de Bolsonaro ao apoio dos evangélicos. Embora o próprio autor tenha reservas quanto à tese, ele afirma que o episódio da facada, que ajudou a impulsionar a eleição do ex-capitão, foi todo narrado "sob a forma de um testemunho evangélico, no qual a ação do Diabo foi contida pela Providência divina".

Se o discurso de Bolsonaro em 2018 já partia de um suposto embate entre o "bem e o mal", a campanha de 2022 promete escalar alguns degraus: na retórica bolsonarista, a briga agora será entre o diabo e o Messias.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL