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Thaís Oyama

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Bolsonaro crê em 30% de votos, mas teme derrota por "inflação dos pobres"

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

02/09/2021 11h24

O presidente Jair Bolsonaro não acredita na viabilidade de uma "terceira via" nas eleições de 2022, está convicto de que irá para o segundo turno com o ex-presidente Lula e considera que terá 30% dos votos nessa primeira fase, mas teme ser derrotado ao final sobretudo pelo efeito eleitoral decorrente do que ele vem chamando de "inflação dos pobres". A informação é de um assessor do primeiro escalão próximo do presidente.

Segundo esse assessor, a escalada de preços de produtos básicos (como arroz, carne e botijão de gás) ameaça criar um "desequilíbrio de competitividade" entre Bolsonaro e Lula — o petista, segundo o último Datafolha, tem a preferência de 57% dos brasileiros com renda familiar até dois salários mínimos.

Diante disso, afirma o assessor, o presidente sabe que só conseguirá superar a desvantagem em relação ao seu provável concorrente mediante a execução de programas de assistência vultosos, como um Auxílio Brasil vitaminado e a distribuição de vouchers para compra de gás de cozinha, que Bolsonaro já disse estar em estudo e chamou de "vale-gás".

O problema é que a perspectiva de maior alta da inflação tem diminuído o espaço fiscal do governo para o aumento de gastos em 2022. A folga orçamentária projetada por esse espaço adicional no teto de gastos, que já chegou a 40 bilhões de reais, está hoje em torno de 15 a 20 bilhões de reais apenas.

Nos cálculos do governo, seriam necessários mais 40 bilhões de reais para colocar em pé os programas assistenciais desejados — o que indica, nas palavras do assessor, que, nesse contexto, a manutenção do teto de gastos "é inexequível". Para o assessor presidencial, o mercado investidor já está ciente disso e apenas "calcula qual será o custo acima do teto" a ser despendido pelo governo.

Um ex-integrante da equipe econômica e conhecedor do mercado concorda apenas em parte com a afirmação de que os investidores já absorveram a ideia da quebra do teto de gastos: "Hoje, os preços dos ativos estão, sim, refletindo esse receio", afirma.

Mas, além de existir uma esperança de que isso não ocorra, a reação diante de um estouro do teto dependerá não apenas do valor a ser ultrapassado pelo governo, mas do que motivará essa ultrapassagem: "Se houver uma quebra de 10 a 15 bi, com, por exemplo, a saída das sentenças judiciais e precatórios do teto, talvez o mercado aceite porque reconhece que o aumento das despesas judiciais e precatórios foi excessiva", afirma o economista.

"Mas o mercado não aceitaria uma quebra fora do teto para turbinar programas assistenciais, corrigir salário de servidor público e aumentar o investimento. Se isso acontecer será o caos".