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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro pôs o impeachment na mesa: olhos agora se voltam para o Centrão

O 7 de Setembro de Bolsonaro: era para ser uma demonstração de "força" - Reuters
O 7 de Setembro de Bolsonaro: era para ser uma demonstração de "força" Imagem: Reuters
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

08/09/2021 08h46

O presidente Jair Bolsonaro deu o seu mais largo passo em direção ao próprio impeachment ao dizer que não cumprirá ordens judiciais vindas de um ministro do Supremo Tribunal Federal e que só morto deixará a Presidência.

Diante das falas desesperadamente golpistas do ex-capitão, lideranças políticas de peso que haviam se colocado publicamente contra o seu afastamento, como Gilberto Kassab, presidente do PSD, já reavaliam suas posições.

O vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (PL), disse que, caso Bolsonaro leve adiante sua ameaça de desacato ao STF, "não terá outra alternativa ao presidente Arthur Lira que não seja ler o processo de impeachment".

A partir de amanhã, uma nova leva de pedidos de afastamento do ex-capitão aterrissará na mesa de Lira — a quem, ao fim e ao cabo, cabe a palavra final sobre a oportunidade de abrir ou não o processo.

A palavra "final" de Lira vinha sendo "não". E caso ache conveniente, o líder do Centrão sempre poderá mantê-la sob o argumento de que "ameaçar" desacatar uma ordem judicial não é o mesmo que fazê-lo.

Ocorre que o impeachment, mesmo sem prescindir de base jurídica, é um julgamento político, e o Centrão é um bloco de partidos que, ao alugar sua lealdade ao mandatário da vez, pesa o custo e o benefício da ação. Até ontem, na aliança com Bolsonaro, o benefício das emendas bilionárias e dos cargos à mancheia superava o custo do desgaste presidencial.

Desde ontem, porém, o preço de compactuar com um projeto golpista desequilibrou a equação para os aliados do governo — sem falar nos prejuízos práticos que o 7 de setembro de Bolsonaro causou.

Com o rompimento da pinguelinha que ainda ligava o presidente ao Supremo, a possibilidade de o governo conseguir bancar o Auxílio Brasil por meio de um acordo com o Poder Judiciário, e sem a PEC dos Precatórios, ficou bem mais distante — para grande insatisfação de parlamentares para os quais a possibilidade de usufruir dos dividendos eleitorais do benefício junto às suas bases já estava na conta.

Bolsonaro causou um estrago político de magnitude inédita e o que viram seus aliados foi o mesmo que viu boa parte do Brasil: um presidente que, com escassas perspectivas de se manter no poder diante de uma popularidade em queda, 15 milhões de desempregados, inflação próxima de dois dígitos e nenhuma disposição de se confrontar com as próprias limitações, parece disposto a se auto-explodir — e a espalhar os estilhaços pelo país.

Bolsonaro partiu ontem para o tudo ou nada e ficou bem mais perto do nada.

A sobrevivência política do presidente depende do Centrão, e o contrário não é verdadeiro. As lideranças do bloco, que reúne em torno de 220 deputados, não irão abandonar o barco amanhã, mas medirão polegada a polegada o soçobramento da embarcação.

Com a tranquilidade de quem sempre teve o cuidado de manter os pés em duas canoas.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL