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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Bolsonaro foi para matar ou morrer: a segunda hipótese ficou mais provável

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

07/09/2021 13h23

O presidente contava com a visão da Esplanada dos Ministérios abarrotada de apoiadores de verde e amarelo para lembrar aos ministros do Supremo Tribunal Federal com quem eles estavam mexendo.

O que ele viu do helicóptero, no entanto, deixou claro o fracasso do plano. As imagens do presidente de cenho franzido enquanto observava a multidão da porta da aeronave eram o retrato da decepção.

Mas o que ocorreu de mais importante nas manifestações de Brasília hoje pela manhã não foi isso — mesmo porque a hipótese de uma avenida Paulista transbordando de gente à tarde não é impossível.

O dado relevante da manhã foi que, mesmo com muito menos poder de fogo do que esperava, Bolsonaro insistiu em discursar como um Nero da Esplanada.

Referindo-se ao presidente do STF, Luiz Fux, ameaçou: "Ou o chefe desse Poder enquadra os seus ou esse Poder pode sofrer aquilo que não queremos".

Por que Bolsonaro fez isso?

O presidente já declarou ver três destinos para si próprio: a prisão, a morte ou a vitória. Como logo voltou atrás sobre a hipótese da prisão ("essa alternativa, pode ter certeza, não existe"), consideremos apenas a morte e a vitória para concluir que, entre as duas, a primeira, do ponto de vista metafórico, ficou a partir de hoje bem mais provável.

É certo que o discurso golpista e incendiário que o presidente fez em Brasília —e que só deve piorar em São Paulo— irá reacender o debate do impeachment.

É líquido e certo também que o mesmo acontecerá com as discussões em torno da possibilidade de o TSE torná-lo inelegível.

E o Centrão, que nunca prometeu fidelidade, dará mais um passo atrás em seu apoio alugado, e vital, para a sobrevivência política do ex-capitão.

Por que, então, Bolsonaro elevou o tom?

A camiseta que seu filho Eduardo Bolsonaro vestia no sobrevôo de helicóptero com o pai pode anunciar a resposta: "Melhor morrer de pé do que viver de joelhos", dizia a frase estampada nela (originalmente em inglês).

Bolsonaro, chefe de um governo caindo aos pedaços, decadente nas pesquisas, encurralado pela economia e incapaz de confrontar-se com as próprias limitações, caminha para o suicídio político. A narrativa do "assassinato pelo sistema" e da "morte heroica" do mito é agora a sua aposta, é o que lhe restou.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL