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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Indecisão de Moro não é fruto só de questões familiares ou profissionais

Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

08/10/2021 11h05

Sergio Moro continua jogando parado.

Na sua mais recente, digamos, movimentação pelo país, o ex-juiz, que atualmente mora em Washington, voltou a assanhar partidos desejosos de ter sua foto nos santinhos de 2022.

Por enquanto, frustrou todos.

Moro desembarcou no Brasil mudo e retornou aos Estados Unidos calado. Durante a sua estada no país, conversou com representantes do Podemos, Novo, PSDB e DEM, entre outros partidos.

Ao final, nem a cúpula do Podemos, sigla da qual ele sempre esteve próximo, pode anunciar nada além do já publicamente sabido: Sergio Moro irá tomar sua decisão de candidatar-se ou não a presidente, vice ou qualquer outra coisa só no mês que vem, quando vence o seu contrato com a empresa Alvarez & Marsal.

A indecisão de Moro não é fruto apenas de suas questões familiares, profissionais ou existenciais.

O ex-juiz tem ciência de que, não obstante o alvoroço em torno dele, também os partidos sabem que o eventual lançamento de seu nome à presidência é uma empreitada arriscada — tanto assim que, até o momento, apenas o Podemos — partido comandado pela família Abreu e que conta com apenas dez deputados na Câmara— lhe ofereceu a cabeça de chapa.

O PSDB, por exemplo, também gostaria de ter o ex-juiz com ele, mas apenas como vice.

Para um cacique tucano apoiador da pré-candidatura de Eduardo Leite, a entrada do ex-juiz na chapa presidencial poderia alavancar brutalmente as chances do governador do Rio Grande do Sul. "Como Moro tem sempre por volta de oito pontos de intenção de votos nas pesquisas, Leite já poderia dar a a largada com 10 pontos, mais que Ciro Gomes".

O raciocínio do cacique tucano, porém, não tem o respaldo de especialistas em pesquisas eleitorais, para os quais nada garante que Moro, na condição de vice, consiga transferir uma quantidade razoável de votos para o seu eventual cabeça de chapa, quanto mais a totalidade deles.

Mais que isso: Moro e os caciques políticos sabem que o ex-juiz pode atrair eleitores, mas afasta as siglas —sem capital partidário e malvisto por parte de políticos de direita, centro e esquerda por sua atuação na Lava Jato, sua presença em qualquer chapa, ainda que como vice, acabaria por dificultar as possibilidades de alianças.

Do ponto de vista dos partidos, portanto, tirando o ainda pequeno Podemos, Moro é um ativo apenas relativamente muito bom.

Do ponto de vista do ex-juiz, o que se apresenta diante dele é uma escolha atroz: desistir da iniciativa privada e partir para uma candidatura à Presidência em que corre o grande risco de perder para um presidente da República com a caneta na mão e para um ex-presidente com 44% de intenção de votos, ou resignar-se a uma candidatura a vice e continuar correndo o risco da derrota, com o agravante de que, nesse caso, ela reduziria mais ainda a sua estatura e ele acabaria igualmente sem nada no final.

Segundo um interlocutor frequente do ex-juiz, com quem ele tampouco é claro sobre seus planos, Moro tem grande preocupação com as "questões de estabilidade e segurança" profissional e, também por isso, muita saudade dos tempos de magistrado. A aposta desse interlocutor frequente é que, por essas e outras, Moro terminará optando por concorrer a uma cadeira no Senado, pelo Paraná — no máximo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL