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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

"Carteirada" de Bolsonaro para filha é revanche do ex-capitão a generais

O ex-capitão Jair Bolsonaro: aproveitando o dia da caça - Ueslei Marcelino/Reuters
O ex-capitão Jair Bolsonaro: aproveitando o dia da caça Imagem: Ueslei Marcelino/Reuters
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

28/10/2021 11h22

O comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, atendeu ao pedido de Jair Bolsonaro e autorizou que a filha do presidente, Laura Bolsonaro, de 11 anos, seja matriculada no Colégio Militar de Brasília sem passar pelo processo seletivo.

Ao submeter o Exército, e a filha, ao constrangimento de uma "carteirada" com a finalidade de facilitar o ingresso da adolescente no Colégio Militar, o presidente Jair Bolsonaro, mais uma vez, consumou a pequena vingança de fustigar com sua faixa presidencial os generais que o desprezaram no passado.

Quando era um capitão do Exército medíocre e causador de confusão, seus filhos Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro foram impedidos de estudar em colégios militares. Ao menos um deles, Carlos, deixou claro em entrevista à jornalista Leda Nagle dada em 2019 que nunca desculpou esse veto.

Em outro episódio do passado, quando Carlos tinha sete anos de idade, ele, seus pais e irmãos foram impedidos "por ordem do comandante" de entrar em uma praia de Niterói em que os militares costumavam passar as férias com a família. Bolsonaro, já vereador e ex-capitão, declarou em entrevistas ter se sentido "ofendido e humilhado" com o ocorrido.

Bolsonaro era então o "capitão da bomba" e sentia na pele o desprezo explícito dos generais.

Em 2018, no entanto, quando se candidatou à Presidência da República, oficiais estrelados do Exército — premidos pela falta de opção e desejosos de se deixarem iludir pela chancela do então respeitado e tríplice coroado general Augusto Heleno — bateram continência para o autoengano.

O patinho feio, se bem assessorado (por eles), até que podia dar em cisne, pensaram.

Bolsonaro, por sua vez, cobriu de reverências os seus conselheiros de quepe, aos quais prometia, no exercício da presidência, ouvir com a humildade de um soldado raso.

A promessa durou seis meses, até a demissão do general Santos Cruz, cujo equívoco foi considerar estar diante de um chefe ávido por deixar os maus hábitos da política para trás (no caso, o de abrigar com bem pagos cargos parentes e apaniguados sem qualificações para ocupá-los, como o sobrinho Léo Índio, protegido de Carlos Bolsonaro).

Se o bolsonarismo, com seus ódios e preconceitos, é a instrumentalização do ressentimento, Bolsonaro sempre foi o símbolo antropomórfico desse estado de espírito alimentado a ódio e desejo de vingança.

Nietzsche já alertava para o perigo que representa o ressentimento nos homens fracos. Bolsonaro, com seus pequenos e avassaladores erros, mostra o quanto o filósofo estava certo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL