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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Lula avança sobre Bolsonaro nas redes com "paz", "sorrisos" e óculos juliet

Lula: Deolane, BBBs e óculos de rapper para fazer sucesso nas redes - Foto: Ricardo Stuckert
Lula: Deolane, BBBs e óculos de rapper para fazer sucesso nas redes Imagem: Foto: Ricardo Stuckert
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

09/05/2022 12h34

Centrista no palanque, paz e amor nas redes.

O ex-presidente Lula lançou sua pré-candidatura no último sábado em evento com poucas bandeiras vermelhas, muitas referências à pátria, à democracia e a um sujeito oculto, cujo nome não foi mencionado nenhuma vez mas esteve o tempo todo no palco.

No discurso de Lula, comedido e lido, cada palavra visava a apresentá-lo como o exato oposto de Jair Bolsonaro, precisamente como nos novos filmes da pré-campanha petista, também apresentados no evento.

Lula, de acordo com texto que leu, além de ter sido o presidente em cujo governo os brasileiros podiam "comer três vezes por dia", foi também governante de um país que "falava de igual para igual com os países ricos e poderosos" — à diferença daquele que relegou o Brasil "à triste condição de pária do mundo"; que "não é capaz de verter um única lágrima diante dos mais de 660 mil brasileiros e brasileiras mortas pela Covid"; e que, embora se diga cristão, "não tem amor ao próximo (Lula, católico pouco praticante, encerrou seu discurso pedindo "que Deus abençoe o país").

Pouco antes de encerrar, porém, o ex-presidente fez uma menção às redes sociais.

Disse a seus apoiadores que estava "proibido ter medo de provocação e fake news via zap, via Instagram", porque "nós vamos vencer essa disputa pela democracia distribuindo sorrisos, distribuindo carinho, distribuindo amor, distribuindo paz e criando harmonia".

Foi uma guinada no tom das últimas semanas e uma sinalização do que virá pela frente também no ambiente virtual, em que Lula cresceu significativamente desde abril — em redes como o Instagram, até mais que Bolsonaro.

Esse crescimento é fruto do investimento da sua campanha no uso de memes, de novas plataformas como o Tiktok, e da tentativa de aproximar o petista de influencers e ex-BBBs.

As imagens de Lula com óculos de cantor de rap e ao lado de Deolane Bezerra (viúva do cantor McKevin transformada em cantora, DJ e estrela de reality show, hoje com 14 milhões de seguidores só no Instagram) foram os posts mais curtidos e compartilhados.

Mesmo crescendo na internet, porém, Lula ainda come a poeira de Bolsonaro. Enquanto o ex-capitão tem em torno de 48,5 milhões de seguidores na soma das principais redes sociais, o petista não chega a 14 milhões.

Além disso, dizem pesquisadores, vetor de crescimento de um candidato no Facebook, Twitter e Instagram não significa necessariamente aumento de intenção de votos para ele.

O fato de as interações na internet costumarem se dar em bolhas significa que as iniciativas das campanhas falam muito mais para os já simpatizantes, ou "convertidos". O que aumenta é o "engajamento" desses simpatizantes — fundamental para animar uma campanha.

Lula, agora pré-candidato, sinalizou no evento de sábado que pretende retomar, nos palanques e nas peças de propaganda, o discurso centrista na política e na economia; reforçar a comparação entre as conquistas de seus governos e os fracassos de Bolsonaro; e enfatizar a ideia da "democracia contra a barbárie". Já no mundo virtual, o petista promete responder com "amor", "carinho" e "harmonia" as aguardadas fake news bolsonaristas — no que deve ser uma das primeiras de suas declaradas disposições a ser posta em teste.