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Thaís Oyama

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Como transformar trator em votos e o que isso diz do Brasil de Bolsonaro

O presidente Jair Bolsonaro: em campanha, de trator  - Isac Nóbrega / Planalto
O presidente Jair Bolsonaro: em campanha, de trator Imagem: Isac Nóbrega / Planalto
Thaís Oyama

Thaís Oyama é comentarista política. Foi repórter, editora e redatora-chefe da revista VEJA, com passagens pela sucursal de Brasília da TV Globo, pelos jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S Paulo, entre outros veículos. É autora de "Tormenta - O governo Bolsonaro: crises, intrigas e segredos" (Companhia das Letras, 2020) e de "A arte de entrevistar bem" (Contexto, 2008).

Colunista do UOL

23/05/2022 11h44

Era assim no Brasil de Odorico Paraguaçu e continua sendo assim no Brasil de Jair Bolsonaro.

Na fictícia cidade de Sucupira, o prefeito criado pelo novelista Dias Gomes se dizia disposto a inaugurar até bica d'água para se reeleger. No Brasil de Bolsonaro, na falta até de bicas d'água para inaugurar, o governo decidiu fazer chover tratores para colher votos.

A Folha revela que, aproveitando o apagar das luzes de 2021 e a pretexto da emergência da covid, o governo federal planejou distribuir, preferencialmente a aliados, quase R$ 90 milhões em maquinário supostamente destinado à agricultura familiar, mas que inclui pás-carregadeiras e motoniveladoras.

Esses últimos equipamentos se prestam, entre outras coisas, a abrir e pavimentar estradas, iniciativas que, por terem o condão de melhorar imediatamente a vida de uma comunidade, possuem alto quociente eleitoral — ou seja, são muito apreciados por prefeitos desejosos de conquistar a simpatia do eleitorado.

Reza a cartilha de Sucupira, observada até hoje por boa parte dos políticos nacionais, que cabe aos prefeitos aliados a fundamental tarefa de, no dia da votação, transportar o eleitor até as urnas, fornecer-lhes lanche, promessas e uma lembrança do seu nome e número registrados em pedaços de papel, a imortal "cola".

Não por acaso, deputados e senadores da base governista —e alguns da oposição— já haviam usado as chamadas emendas secretas para agradar prefeitos amigos direcionando aos seus municípios milhares de tratores comprados pelo Ministério do Desenvolvimento Regional, segundo revelou reportagem do Estadão em maio do ano passado.

Agora, o mesmo procedimento parece ter seduzido o Executivo que, em vez de emendas secretas, planejou usar o Orçamento da União para fazer tratores chegarem aonde interessa — ou, como indica a reportagem, aos lugares em que, com uma mãozinha dos políticos beneficiados, as máquinas podem virar votos para o presidente.

Em quatro anos de governo, Bolsonaro semeou suspeitas onde antes havia confiança, como no caso das vacinas; rebaixou instituições que conseguiram se elevar na paisagem à custa de trabalho duro, como a Polícia Federal; esforçou-se para espalhar o obscurantismo, com predileção pelas áreas da cultura e educação; e ressuscitou das catacumbas de onde nunca se imaginou que sairia a expressão "golpe de estado".

Jair Bolsonaro vendeu "conservadorismo" e entregou retrocesso civilizatório. O recurso à "política do trator" mostra que, de mãos dadas com o Centristão, o ex-capitão está disposto a provar que Millôr Fernandes tinha razão: o Brasil tem mesmo um grande passado pela frente.