PUBLICIDADE
Topo

Décadas de políticas equivocadas causam incêndios recordes na Califórnia

Brigadistas tentam conter incêndio florestal em Arcadia, na Califórnia (EUA), em 13 de setembro de 2020 - David McNew/Getty Images/AFP
Brigadistas tentam conter incêndio florestal em Arcadia, na Califórnia (EUA), em 13 de setembro de 2020 Imagem: David McNew/Getty Images/AFP
Vicente Toledo

O jornalista Vicente Toledo começou sua carreira em 2000 no UOL, onde foi redator, repórter, vídeo reporter, apresentador e editor assistente. Participou das coberturas especiais da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, das Eleições Presidenciais, em 2006, e dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo, e 2007, no Rio de Janeiro, dentre outros grandes eventos. Apresentou programas da TV UOL como a "Tabelinha", com Juca Kfouri, e o "Pit Stop", com Fábio Seixas. Após 12 anos como editor na Microsoft, incluindo passagens por Canadá e Estados Unidos, retorna ao UOL para contribuir com a cobertura das eleições presidenciais norte-americanas.

Colunista do UOL

24/09/2020 04h01

A temporada de incêndios florestais na Califórnia (EUA) ainda está na metade, mas já atingiu recordes históricos: cinco dos vinte maiores incêndios registrados no estado aconteceram em 2020, segundo a Cal Fire, agência estadual de combate ao fogo. Todos os cinco ainda estão queimando.

Mais de 8 mil focos de incêndio foram registrados no estado neste ano, grande parte deles iniciados no mês de agosto, durante uma tempestade de relâmpagos que ateou fogo na vegetação ressecada. Viraram cinzas mais de 14,5 mil quilômetros quadrados de área, mais de 6,5 mil estruturas foram destruídas, e ao menos 23 mil pessoas continuam evacuadas.

Segundo o governador Gavin Newson, cerca de 19 mil bombeiros combatem 27 grandes focos de incêndio. Até o momento, o fogo matou 26 pessoas na Califórnia, entre elas o bombeiro Charles Morton, de 39 anos, que morreu combatendo o incêndio de El Dorado, na Floresta Nacional de San Bernardino, na última quinta-feira.

O maior motivo de preocupação nos últimos dias tem sido o incêndio Bobcat. Com 427 quilômetros quadrados, ele é um dos maiores a atingir a região de Los Angeles — está a cerca de 80 km a nordeste do centro da cidade —, e ameaça o histórico Observatório do Monte Wilson, fundado em 1904 e palco de importantes descobertas da astronomia. Mesmo após duas semanas queimando, o Bobcat ainda está apenas 17% contido.

Para especialistas, os incêndios são em parte resultado de altas temperaturas e condições secas, que tornaram a vegetação mais fácil de queimar, tornando os focos maiores, mais intensos e mais assustadores.

Apontam para o mês de agosto mais quente já registrado na Califórnia, seguido de um início de setembro em que as temperaturas superaram frequentemente os 40 graus — no dia 6 de setembro, o condado de Los Angeles atingiu absurdos 49 graus, o dia mais quente de sua história.

Brigadistas tentam conter incêndio florestal em Arcadia, na Califórnia (EUA), - David McNew/Getty Images/AFP - David McNew/Getty Images/AFP
Brigadistas tentam conter incêndio florestal em Arcadia, na Califórnia (EUA), em 13 de setembro de 2020
Imagem: David McNew/Getty Images/AFP

Chá de bebê iniciou incêndio que matou bombeiro

A cada novo incêndio, há uma compreensível urgência em apontar culpados, encontrar uma causa específica que deu início ao fogo: uma bituca de cigarro acesa, uma fogueira de acampamento mal apagada ou uma família que decide usar um aparelho pirotécnico gerador de fumaça colorida para revelar o sexo de seu futuro bebê (foi assim que começou o incêndio de El Dorado, que queimou cerca de 90 quilômetros quadrados e custou a vida do bombeiro Charles Morton).

Embora a grande maioria dos incêndios florestais, na Califórnia e em outras regiões, sejam iniciados por ações humanas diretas, não há como negar o papel de fenômenos naturais inevitáveis como o vento, que derruba linhas de transmissão de energia, e as já citadas tempestades de raios. Mas essa falsa dicotomia entre homem e natureza ignora a complexidade do problema, e dificulta o debate em torno de possíveis soluções baseadas na ciência.

O próprio fogo é uma das melhores ferramentas de preservação das florestas. Povos indígenas sabem bem disso, e a queimada controlada de florestas e pastos é parte intrínseca de sua cultura. Mas durante grande parte do século 20, a resposta padrão a todos os incêndios florestais na Califórnia foi a mesma: apagá-los.

Segundo cientistas, porém, essa estratégia agravou o problema. Isso porque a maioria dos ecossistemas da Costa Oeste são adaptados ao fogo, até dependentes dele. Queimas periódicas livram a paisagem de vegetação morta e ajudam novas árvores a germinar - apagando os incêndios, as pessoas tornaram as florestas artificialmente densas, criando mais combustível para futuros incêndios.

Mesmo quando as consequências dessa política ficaram claras, governantes californianos continuaram relutantes em reduzir a vegetação com queimadas controladas, temerosos de incomodar residentes com a fumaça ou começar um incêndio que poderia sair do controle. Isso tornou as florestas da Califórnia mais confortáveis para as cerca de 11 milhões de pessoas que hoje vivem nelas ou em seu entorno. Mas também as deixou mais suscetíveis a incêndios catastróficos. "Nós meio que construímos essa dívida de fogo", descreve um especialista.

'Incêndio El Dorado': Bombeiros tentam conter fogo na Floresta Nacional de San Bernardino, na Califórnia (EUA) - Kyle Grillot/The Washington Post via Getty Images - Kyle Grillot/The Washington Post via Getty Images
'Incêndio El Dorado': Bombeiros tentam conter fogo na Floresta Nacional de San Bernardino, na Califórnia (EUA)
Imagem: Kyle Grillot/The Washington Post via Getty Images

Choveu pouco no inverno

Antes do verão escaldante, o inverno seco preparou o terreno. Em abril, a quantidade de neve nas montanhas do estado atingiu apenas 54% de sua média histórica. As chuvas também fizeram sua parte. Desde outubro do ano passado, São Francisco registrou apenas 50% de seu volume histórico de precipitação, e as florestas não tiveram tempo suficiente para se recuperarem do período de duras secas entre 2012 e 2017, que deixou mais de 140 milhões de árvores mortas no estado, segundo levantamentos aéreos.

No meio de agosto, uma série de tempestades atingiram a Califórnia com mais de 14 mil relâmpagos e quase nenhuma chuva. Mais de um terço da área queimada neste ano é atribuída a esta tempestade. "Nunca vi uma tempestade de raios atingir com tamanha precisão. É extremamente raro. Ela sobrecarregou todas as nossas agências de combate ao fogo", disse Scott Stephens, cientista da Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Nada disso foi uma surpresa. A primeira Avaliação Nacional do Clima, publicada em 2000, alertou para o aumento do risco de incêndios na Costa Oeste com o aquecimento global. Um estudo publicado no jornal da Academia Nacional de Ciências revelou que a área florestal queimada anualmente dobrou entre 1984 e 2015. E uma avaliação climática da própria Califórnia publicada em 2018 previu que temperaturas mais altas levariam à queima de mais de 10 mil quilômetros quadrados anualmente. Mas os modelos apontavam que isso só aconteceria em 2050.

Trump manda "varrerem o chão" da floresta e prevê que "as coisas vão esfriar"

O presidente Donald Trump, impopular na Califórnia e adversário político dos governantes do estado, criticou repetidamente seus rivais pelo mau gerenciamento das florestas, defendendo que "varressem o chão" — embora a maior parte das florestas californianas sejam de propriedade federal (o estado administra apenas 3%) e sua administração venha reduzindo gastos com manejo e preservação.

Outra resposta de Trump para o problema é a exploração madeireira. Em 2019, Trump assinou uma ordem executiva autorizando a retirada de enormes quantidades de madeira de terras públicas como forma de reduzir o risco de incêndios. Mas à medida que o estrago causado pelos incêndios aumenta, o governo federal transfere a culpa para o governador democrata Gavin Newson e reduz o apoio às pesquisas sobre o tema.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.