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Raio de calor, retirada de útero: EUA de Trump já lembra "O Conto da Aia"

1º.jun.2020 - O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de St. John, em Washington, DC  - Brendan Smialowski/AFP
1º.jun.2020 - O presidente dos EUA, Donald Trump, posa com uma Bíblia em frente à Igreja Episcopal de St. John, em Washington, DC Imagem: Brendan Smialowski/AFP
Vicente Toledo

O jornalista Vicente Toledo começou sua carreira em 2000 no UOL, onde foi redator, repórter, vídeo reporter, apresentador e editor assistente. Participou das coberturas especiais da Copa do Mundo de 2006, na Alemanha, das Eleições Presidenciais, em 2006, e dos Jogos Pan-Americanos de 2003, em Santo Domingo, e 2007, no Rio de Janeiro, dentre outros grandes eventos. Apresentou programas da TV UOL como a "Tabelinha", com Juca Kfouri, e o "Pit Stop", com Fábio Seixas. Após 12 anos como editor na Microsoft, incluindo passagens por Canadá e Estados Unidos, retorna ao UOL para contribuir com a cobertura das eleições presidenciais norte-americanas.

Colunista do UOL

18/09/2020 13h36

Faltando menos de dois meses para a eleição presidencial nos Estados Unidos, a visão de Donald Trump para o futuro do país vem ficando cada vez mais clara. Seu governo gastou a maior parte dos últimos anos desconstruindo o legado de Barack Obama, contestando normas e instituições democráticas, testando os limites do Poder Executivo. E, a julgar pelos acontecimentos dos últimos dias, a perspectiva de um segundo mandato de Trump é cada vez mais assustadora.

Politização da Justiça, descrédito da ciência, violência contra o dissenso, incitação a milícias armadas, escalada de tensões raciais, doutrinação educacional e supressão de liberdades civis, principalmente de mulheres e imigrantes. Um cardápio antidemocrático de fazer inveja a regimes autoritários tanto do mundo real quanto da ficção.

Os rumos da campanha de Trump à reeleição soam familiares a quem assistiu ao seriado "O Conto da Aia" ("A Handmaid's Tale" no original em inglês), baseada no livro homônimo da escritora canadense Margaret Atwood.

Na história, um grupo fundamentalista religioso lidera uma revolução que depõe o governo democrático dos Estados Unidos e instala uma ditadura militar chamada República de Gilead, onde direitos individuais são suprimidos, principalmente os das mulheres (proibidas de ler, escrever, ter propriedade e controlar suas próprias funções reprodutivas).

Instaurar um regime totalitário, machista e opressivo não está nos planos de Donald Trump ou do Partido Republicano. Mas um olhar crítico sobre o que os atuais líderes da Casa Branca têm dito e feito na reta final a campanha presidencial levanta muitas dúvidas em relação aos seus limites, ou a ausência deles, na ânsia de se manterem no poder.

Com The Handmaid?s Tale e Todo Mundo Odeia o Chris, confira as estreias de agosto do Globoplay - Reprodução - Reprodução
Manipulação de informações aliada a uma postura violenta faz EUA lembrarem série "O Conto de Aia"
Imagem: Reprodução
Raio de calor contra manifestantes

Denúncia feita ao Congresso pelo major Adam DeMarco, veterano da Guerra do Iraque que atualmente serve na Guarda Nacional do Distrito de Columbia, afirma que um alto oficial do Departamento de Defesa cogitou a utilização de um raio de calor e um canhão sônico para dispersar manifestantes em Washington.

Desenvolvido para uso militar, o equipamento emite um raio de energia que causa intensa sensação de calor na superfície da pele, mas jamais foi utilizado por razões éticas e de segurança. "Não há nada rotineiro em perguntar se um raio de calor está disponível para usar contra cidadãos americanos exercitando seus direitos", disse David Laufman, advogado de DeMarco.

O procurador-geral William Barr, autoridade policial máxima do país, desmentiu o depoimento do major, a quem buscou desacreditar afirmando que ele foi candidato a deputado federal pelos Democratas em 2018.

Problematizar racismo é coisa da esquerda e gera desunião, diz discurso trumpista

No dia em que os Estados Unidos comemoram o aniversário de sua Constituição, assinada em 1787, o atual presidente denunciou o que considera um ataque da "esquerda radical" contra a história do país. Segundo Trump, fanáticos revolucionários estão propagando uma narrativa de que a "América é uma nação perversa e racista".

Em um discurso similar ao do movimento Escola Sem Partido, que gerou caloroso debate sobre a educação no Brasil em anos recentes, Trump prometeu combater uma suposta doutrinação da esquerda nas escolas com um novo currículo pró-América e restaurar a educação patriótica.

"As revoltas e o caos nas ruas são resultado direto da doutrinação esquerdista em nossas escolas. A teoria racial crítica está sendo forçada nas escolas das nossas crianças, imposta em treinamentos nas empresas e aplicada para separar amigos, vizinhos e famílias", afirmou o presidente.

A guerra cultural é outra grande aposta da campanha de Trump à reeleição. Desde a onda de protestos contra o racismo desencadeada pela morte de George Floyd e outras vítimas negras pelas mãos da policia, o presidente vem colocando lenha na fogueira das tensões raciais e incitando o medo no eleitorado branco.

Cena da terceira temporada de "The Handmaid's Tale" - Divulgação - Divulgação
Rigor religioso é usado pela gestão de Trump em discursos que incitam o medo para abafar discussão sobre racismo. Na foto, cena de "O Conto de Aia".
Imagem: Divulgação
Disputa política escanteia a ciência na luta contra o coronavírus

Líder mundial disparado em número de casos (6.7 milhões) e mortes (198 mil) pela covid-19, os Estados Unidos sofrem com a disputa política em torno da resposta à pandemia. As agências responsáveis pela saúde pública e controle de doenças batem cabeça, e o presidente Trump insiste em desmentir os especialistas do seu próprio governo.

No mês passado, o CDC (sigla em inglês para Centro de Controle de Doenças) publicou em seu site uma controversa recomendação: não era mais necessário testar pessoas sem sintomas da covid-19, mesmo se elas tivessem sido expostas ao vírus. A orientação deixou especialistas espantados, já que contraria o consenso em torno da necessidade de mais testes para combater a pandemia, não menos.

Investigação do jornal "The New York Times" desvendou o mistério da súbita mudança de posição do CDC.

"O documento veio de cima, do HHS e da força-tarefa", disse um oficial do governo federal ao jornal, referindo-se ao HHS, órgao equivalente ao Ministério da Saúde, e ao grupo que comanda a resposta ao coronavírus na Casa Branca. Segundo a reportagem, funcionários do HHS reescreveram as orientações dos cientistas e as publicaram no site do CDC, driblando o processo de revisão científica da agência.

Denúncia revela retirada do útero de mulheres imigrantes

Ainda na área da saúde, uma denúncia sobre a ausência de medidas de prevenção contra o coronavírus em um centro de detenção de imigrantes revelou um problema ainda mais chocante: mulheres teriam sido submetidas a histerectomias (cirurgias para retirada do útero) sem necessidade ou consentimento.

A enfermeira Dawn Wooten, que trabalhava no local, alegou em documento de 27 páginas entregue ao inspetor-geral do Departamento de Segurança Nacional (DHS, em inglês) que mulheres encaminhadas para tratamento médico fora do centro de detenção estavam recebendo um alto número de histerectomias.

Uma imigrante detida, não identificada, afirmou conhecer cinco mulheres que foram submetidas ao procedimento entre outubro e dezembro de 2019. Wooten levantou dúvidas sobre a capacidade das mulheres, que não falam inglês, de entender e consentir propriamente ao tratamento.

"Eles até tiraram o ovário errado de uma moça. Ela tinha um cisto no ovário esquerdo, mas o médico removeu o direito. Ela teve que voltar para retirar o ovário esquerdo e acabou com uma histerectomia total", relatou a enfermeira.

A denúncia também foi assinada por diversas organizações de suporte aos imigrantes e causou reação imediata de 173 congressistas norte-americanos, que enviaram uma carta ao inspetor geral do DHS demandando uma investigação. O vice-secretário do órgão, Ken Cuccinelli, afirmou ter enviado representantes para conduzir uma auditoria nos arquivos médicos do centro de detenção.

O caso toca em um ponto sensível da história dos Estados Unidos. No início do século passado, 32 estados aprovaram leis que resultaram na esterilização de cerca de 70 mil pessoas. Ao final de 1963, 3284 pessoas haviam sido esterilizadas apenas no estado da Georgia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.