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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Vacina contra a covid-19 é segura e não gera HIV, câncer ou HPV

29 set. 2021 - Vacina contra a covid-19 da Moderna em centro de vacinação no Hospital Robert Bosch, em Stuttgart, na Alemanha - Bernd Weibbroad/dpa/picture alliance via Getty Images
29 set. 2021 - Vacina contra a covid-19 da Moderna em centro de vacinação no Hospital Robert Bosch, em Stuttgart, na Alemanha Imagem: Bernd Weibbroad/dpa/picture alliance via Getty Images

Do Projeto Comprova

12/11/2021 10h13Atualizada em 12/11/2021 10h20

É falso o conteúdo que circula no Telegram, em formato de áudio, no qual há afirmações sobre as vacinas contra a covid-19 conseguirem gerar nos imunizados doenças autoimunes e câncer. O conteúdo é atribuído ao médico Nelson Modesto, especialista em clínica médica, que atua com imunoterapia ativada e imuno-oncologia.

O áudio foi compartilhado no grupo Médicos Pela Vida e gerou pânico entre os membros, além de reforçar a falsa ideia de que as vacinas não são seguras e eficazes. É possível chegar a esta conclusão a partir de comentários deixados na publicação, como o de um homem afirmando que o "China vírus veio de lá, tudo por dinheiro".

Além de comentários xenofóbicos, outros negacionistas também aparecem, como o de uma mulher que afirma não existir o coronavírus. Ela utiliza como justificativa que "nenhum cientista encontrou o vírus isolado", o que é mentira.

A reportagem entrou em contato com o profissional para checar se o áudio seria, de fato, da autoria dele. O médico confirmou e deu mais detalhes da pesquisa elaborada que foi citada no áudio.

Segundo o médico, todas as vacinas aplicadas no Brasil foram elaboradas com o insumo chinês que causa câncer e doenças autoimunes, além de estar contaminando os vacinados com uma variante do coronavírus mais forte. Modesto fez as afirmações sem apresentar qualquer tipo de prova que pudesse ratificar sua tese.

Ainda sem provas, o médico diz que o insumo chinês contém Nagalase — enzima chamada de proteína de ligação à vitamina D —, óxido de grafeno e nanopartículas de grafeno, substâncias que, segundo ele afirma também erroneamente, causam as doenças já citadas. Esses componentes não integram a lista de substâncias presentes nos imunizantes desenvolvidos pela Pfizer, Coronavac e AstraZeneca.

"Eu fiz o estudo que prova que as pessoas vacinadas contra a covid-19 estão na realidade se contaminando com uma nova variação do vírus, bem como também podem desenvolver câncer e doenças autoimunes, meu estudo foi elaborado em torno do BDORT, o insumo chinês contém substâncias que causam todos esses problemas que eu descobri", afirmou Modesto. Questionado sobre como o suposto estudo foi desenvolvido e a veracidade deste, o médico informou que a pesquisa ainda não está completa.

"Ainda não tenho este estudo escrito para publicação, estou fazendo o levantamento de participantes, já avaliei e tratei cerca de 75 pessoas que estavam contaminadas com a vacina. Para ter um bom resultado quero chegar em 100 participantes no meu estudo. A pesquisa está em Powerpoint. Não vou publicar meu trabalho no Brasil, irei publicar a pesquisa no Canadá", disse Modesto.

Especialistas entrevistados pelo Comprova relatam que as afirmações do médico são equivocadas e infundadas, visto que as pesquisas publicadas apontam resultados diferentes.

Diante das informações apuradas, a verificação do Comprova definiu o conteúdo como falso, por ter sido inventado.

Como verificamos?

O Comprova buscou informações sobre a relação de vacinas e o desenvolvimento de doenças em matérias jornalísticas e no site oficial da OMS (Organização Mundial da Saúde) e do Ministério da Saúde brasileiro.

Entrevistamos, por WhatsApp, o médico infectologista e professor da Universidade Católica de Brasília César Carranza Tamayo.

Também conversamos por WhatsApp com Gilmar Alves Zonzin, ex-presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio, além de Ethel Maciel, professora da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), que tem pós-doutorado em epidemiologia pela Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

A reportagem entrou em contato com Nelson Modesto, citado como autor do áudio aqui verificado, que confirmou a autenticidade da gravação. Também entramos em contato com a instituição de ensino superior em que ele leciona, no interior de São Paulo, e aguardamos retorno.

O Comprova fez esta verificação baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 11 de novembro de 2021.

Verificação

Vacinas contra covid-19 não causam doenças autoimunes ou câncer

Especialistas ouvidos pela reportagem do Comprova afirmam que as vacinas desenvolvidas para combater o coronavírus não são responsáveis pelo desenvolvimento de doenças autoimunes ou câncer, conforme afirma falsamente o áudio aqui verificado. O mesmo é dito por autoridades sanitárias do Brasil — como a Anvisa — e do mundo — como o FDA, CDC e OMS.

Gilmar Alves Zonzin, ex-presidente da Sociedade de Pneumologia e Tisiologia do Estado do Rio, classificou como 'bizarras' e 'absurdas' as afirmações de Nelson Modesto ligando o citomegalovírus, HIV e HPV aos imunizantes contra a covid-19.

"Já lhe adianto que essas são informações bizarras, absurdas, sem nenhum fundamento. Outrossim, vacinas, como também medicamentos, e diversos insumos, não são ausentes em efeitos indesejáveis, que devem ser identificados, relatados, monitorados, estudados, etc., mas não essas bizarrices", concluiu.

O médico infectologista César Carranza Tamayo disse que as vacinas são seguras e que a maior parte dos efeitos adversos é leve, como febre e dor no local da aplicação. Segundo o especialista, as vacinas não são causadoras de doenças autoimunes ou câncer.

"O que acontece, e isso é um efeito largamente conhecido, é que pessoas com esse tipo de doenças, mas que ainda não desenvolveram sintomas, podem começar a apresentá-los após uma infecção viral ou algumas vacinas com vetor viral", explica o infectologista.

Na sequência, Tamayo complementou informando que uma pessoa que tem alguma doença autoimune ainda não manifestada de forma plena pode ter uma virose, como a mononucleose — doença do beijo —, e posteriormente iniciar os sintomas da doença. "Isso não quer dizer que o vírus causou a doença, mas que serviu como gatilho para essa pessoa começar a apresentar sintomas da doença autoimune", descreve.

"As vacinas em geral são amplamente testadas em laboratório antes de serem liberadas para sua distribuição e comercialização. As medidas de fabricação são extremamente estritas para garantir a esterilidade da vacina. Ou seja, uma vacina não pode ter absolutamente nenhum contaminante que possa causar doenças (como bactérias, vírus, etc). Até porque, se isso acontecesse, existiria a chance de uma vacina perder sua eficácia".

A mesma afirmação sobre a segurança dos imunizantes contra a covid-19 foi feita por Ethel Maciel.

"Sobre a segurança das vacinas contra covid-19: São seguras e eficazes. Os eventos graves pós vacinais são raros. O evento raro mais comum é a trombose, mas a doença (covid-19) causa muito mais essa doença (trombose) que a vacina".

A cientista recomendou a leitura do artigo disponível na página da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) a respeito do risco de trombose.

Em complemento, a epidemiologista disse que outro evento raro, pós-vacina, é a miocardite, mas que os casos também são mais registrados nas pessoas que desenvolveram a covid-19 do que em vacinados. Maciel contestou o áudio de Nelson Modesto, alegando que o imunizante não provoca 'qualquer outra doença'.

"A vacina contra covid-19 não provoca HIV, HPV ou qualquer outra doença. A vacina auxilia o sistema imunológico a construir a resposta imune contra a covid, essa é a ação, não causa doença", afirmou.

Outro estudo sugerido pela especialista foi divulgado pelo CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças) dos Estados Unidos. O artigo relaciona a covid-19 e a miocardite, utilizando como base dados coletados em hospitais norte-americanos entre março de 2020 e janeiro de 2021.

Quem é o médico

Nelson Modesto, citado como autor do áudio aqui verificado, afirma ser médico desde 1967, graduado pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com especialização em Clínica Médica pela Sociedade Brasileira de Clínica Médica e doutorado em Medicina pela Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

As informações foram obtidas pelo Comprova por meio de uma busca na Plataforma Lattes, do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), que agrega currículos virtuais com foco na trajetória acadêmica. Todas as informações foram preenchidas pelo próprio médico nessas plataformas.

As mesmas informações presentes no Lattes constam no perfil do Facebook do médico. Modesto não tem pesquisas publicadas em revistas de relevância dentro da sua área de atuação.

Modesto declara nas plataformas digitais que ainda atua como professor titular da Pontifícia Universidade Católica de Campinas e como Médico do Hospital da Real Sociedade Beneficência de Campinas. O especialista foca suas atividades no nicho de leptômonas — tipo de parasitas. No entanto, segundo o site da instituição, ele não consta como docente.

Confrontado com as informações pela reportagem do Comprova, Modesto alegou que há anos não atua mais como professor na PUC Campinas, mas não esclareceu por quais motivos ainda mantém o título nas redes sociais e no currículo acadêmico como se fossem referentes ao atual status dele.

Uma outra checagem foi feita pelo Boatos.org desmentindo as afirmações contidas no áudio. O Comprova também desmentiu outras afirmações contidas na declaração de Modesto, como a verificação que conferiu que as vacinas de RNA mensageiro não geram doenças autoimunes e não são responsáveis pelo desenvolvimento de câncer.

Congresso citado pelo médico

Por meio de uma busca na internet, a reportagem localizou o congresso citado no áudio que circula nas plataformas de mensagens. Trata-se da 1ª Jornada Brasileira Sobre o BDORT e Cuidados Integrativos, que aconteceu virtualmente em julho deste ano.

Em conversa com a reportagem, o médico confirmou ter sido palestrante no evento e ainda disse ter apresentado sua pesquisa, no entanto, Nelson Modesto não consta na lista de palestrantes que integra o site oficial do evento. As apresentações da jornada foram transmitidas via YouTube, onde ainda constam os vídeos e Modesto não aparece nas gravações.

A sigla BDORT significa Bi Digital O-Ring Test (Teste do Anel Bi-Digital, em português). A técnica consiste em uma "investigação clínica não invasiva, desenvolvida pelo médico engenheiro nipo-americano Yoshiaki Omura", segundo informações divulgadas pela organização que representa a categoria no país, situada em São Paulo.

A técnica, considerada como uma ponte entre métodos orientais e ocidentais, usa como teste a musculatura dos dedos, em forma de anel. O teste, segundo o site da AMBBDORT (Associação Médica Brasileira do Bi-Digital O-Ring Test), é baseado na pesquisa da força muscular em um grupamento muscular padrão.

No site, a associação explica que o método tem sido utilizado para o "diagnóstico e tratamento experimental".

"Este método não deve substituir, em hipótese alguma, os métodos convencionais de diagnóstico e tratamento vigentes com base em protocolos de pesquisa", diz a associação.

Diante da falta de evidências que pudessem comprovar a presença de Nelson Modesto no evento, o Comprova encaminhou um e-mail solicitando a confirmação da AMBBDORT sobre a lista de palestrantes e participantes.

O objetivo é checar se Modesto integrou alguma mesa de debate ou se submeteu, de fato, o artigo citado no áudio. Até o momento da publicação desta matéria, a reportagem não teve retorno da associação.

Por que investigamos?

Em sua quarta fase, o Comprova verifica conteúdos suspeitos que tenham viralizado sobre a pandemia, as políticas públicas do governo federal e as eleições. A publicação no canal Médicos pela Vida do Telegram teve mais de 21 mil visualizações.

Informações sobre a pandemia, especialmente as vacinas, são importantes de serem verificadas porque podem afetar a confiança da população nos imunizantes — que possuem comprovação científica e são defendidos por autoridades de saúde para combater a doença.

Recentemente, o Comprova mostrou ser falso que pessoas imunizadas com a vacina da Pfizer se tornem rastreáveis e que o CDC não disse que imunidade natural é superior à das vacinas, como sugere empresário indiciado pela CPI.

Falso, para o Comprova, é o conteúdo inventado ou que sofreu edições para mudar o seu significado original e divulgado de modo deliberado para espalhar uma mentira.

O Comprova é um projeto integrado por 33 veículos de imprensa brasileiros que descobre, investiga e explica informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas compartilhadas nas redes sociais ou por aplicativos de mensagens. Envie sua sugestão de verificação pelo WhatsApp no número 11 97045 4984.

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