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Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


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Na CPI, Ernesto faz alegações falsas sobre relação com China e vacinas

18.mai.2021 - O ex-chanceler Ernesto Araújo presta depoimento à CPI da Covid - Jefferson Rudy/Agência Senado
18.mai.2021 - O ex-chanceler Ernesto Araújo presta depoimento à CPI da Covid Imagem: Jefferson Rudy/Agência Senado

Bernardo Barbosa, Beatriz Montesanti e Vitor Pamplona

Do UOL e colaboração para o UOL, em São Paulo

18/05/2021 11h56Atualizada em 18/05/2021 18h04

O ex-ministro das Relações Exteriores Ernesto Araújo fez alegações falsas sobre sua relação com a China e sobre a chegada de vacinas ao Brasil durante seu depoimento à CPI da Covid no Senado, hoje (18), em Brasília.

Araújo afirmou que nunca promoveu "atrito" com a China, o que não é verdade. Também não está correta a informação de que o Brasil foi o primeiro país a receber vacinas enviadas pela Índia. O UOL Confere checou as principais declarações do ex-ministro. Veja abaixo:

Araújo teve atritos com a China

Jamais promovi nenhum atrito com a China, seja antes, seja durante a pandemia.
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

O ex-ministro omitiu que se envolveu em uma crise diplomática com a China em março de 2020, depois de o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) acusar o país de ser culpado pela pandemia de covid-19 e "esconder algo grave". A diplomacia de Pequim reagiu atacando duramente o parlamentar. Ernesto Araújo, por sua vez, cobrou da China uma retratação. A rusga interrompeu por quase um ano o diálogo entre o então chanceler e a embaixada chinesa no Brasil.

Em abril de 2020, Araújo publicou um texto em seu blog pessoal usando o termo "comunavírus" e afirmando que o coronavírus seria uma "imensa oportunidade para acelerar o projeto globalista" que seria, por sua vez, "o novo caminho do comunismo".

Já neste ano, em janeiro, o então chanceler afirmou que o Brasil deveria se unir aos EUA para barrar o que chamou de "tecnototalitarismo", em uma referência velada à China.

A China é o principal parceiro comercial do Brasil e exportador essencial de insumos para a produção de vacinas. O ex-chanceler, no entanto, insistiu na CPI que nenhuma declaração sua foi ofensiva e que as relações com o governo chinês não foram afetadas.

Fala sobre insumos não reflete momento atual

A China já nos informou, suas autoridades já informaram publicamente que o Brasil é o país que mais recebeu insumos e vacinas produzidos pela China.
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

Em entrevista ao jornal "O Globo" publicada em 26 de março, o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, afirmou que "em termos de volume e velocidade de entregas, o Brasil está à frente dos quase 50 países que compram vacinas ou IFA (ingrediente farmacêutico ativo) da China".

No entanto, desde então, a falta de insumos chineses colocou em risco a produção de vacinas no país, atingindo tanto a CoronaVac, produzida pelo Instituto Butantan, quanto a vacina da AstraZeneca, feita pela Fiocruz.

As últimas remessas chinesas do ingrediente farmacêutico ativo para o país chegaram ainda em abril, o que levou, por exemplo, à suspensão da produção no Butantan desde sexta-feira (14).

Uma nova entrega de matéria-prima para a Fiocruz está prevista para sábado (22), informou a própria fundação. Já o Butantan deve receber insumos na quarta (26), segundo o governador paulista, João Doria (PSDB).

Brasil não foi 1º país a receber vacinas da Índia

Graças à qualidade das nossas relações com a Índia, fomos o primeiro país do mundo a receber vacinas exportadas por aquele país.
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

O primeiro país a receber vacinas para a covid-19 enviadas pela Índia foram as ilhas Maldivas, segundo a imprensa indiana e o governo daquele país, no dia 20 de janeiro. O Brasil recebeu as primeiras vacinas oriundas da Índia dois dias depois.

O colunista do UOL Jamil Chade lembra também que, antes do Brasil, a Índia enviou doses para vários países da Ásia, como Butão e Bangladesh.

Brasil não estava no início de aliança por vacinas

Manifestamos, desde junho de 2020, a intenção de aderir ao consórcio Covax da OMS tão logo essa iniciativa foi definida e dela participamos ativamente desde então.
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

O consórcio Covax de fato foi estabelecido em junho de 2020 e com a participação do Brasil, mas antes disso já havia conversas para uma aliança internacional que viabilizasse vacinas para covid-19.

O colunista do UOL Jamil Chade noticiou ainda no ano passado que o Brasil não participou de uma primeira aliança para acelerar a produção de vacinas, feita no começo de maio. Ainda segundo Jamil, as primeiras reuniões para uma parceria entre países e organizações internacionais começaram em abril, e o Brasil não participou dos encontros.

Araújo distorce posição do Brasil em ranking de vacinação

Das cerca de 82 milhões de doses que hoje figuram no vacinômetro como já distribuídas, que fazem do Brasil agora o quarto país que mais vacina no mundo, cerca de 60 milhões de doses chegaram ao Brasil durante a minha gestão ou foram produzidas com insumos importados durante a minha gestão no Itamaraty.
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

Embora o Brasil esteja atualmente em 4º lugar do ranking mundial de vacinação em números absolutos, com 53,6 milhões de doses contra a covid-19 aplicadas de acordo com o Ministério da Saúde, o país ocupa apenas o 62º lugar quando levada em conta a proporção de vacinas por número de habitantes.

Segundo o site Our World in Data, que reúne dados de fontes oficiais de todo o mundo, países como Chile, Reino Unido e Estados Unidos aplicaram mais de 80 doses para cada 100 pessoas, enquanto o Brasil só aplicou cerca de 27. O líder no ranking é Seicheles, com 134 doses aplicadas por cada 100 pessoas, seguido por Israel (121) e Emirados Árabes Unidos (117).

O número de doses distribuídas citado pelo ministro está defasado. Segundo dados do Ministério da Saúde, até a manhã de hoje (18), já haviam chegado aos estados 90,6 milhões de doses.

Araújo omitiu, no entanto, que este número poderia ter sido maior. Em depoimento à CPI da Covid, o executivo da Pfizer Carlos Murillo declarou que o governo federal recusou ofertas de vacina feitas pela empresa que representariam mais 4,5 milhões de doses aplicadas até março.

Comércio com a China cresceu no último ano

O nosso comércio com a China aumentou significativamente ao longo desse governo. (...) Não se pode ver, no comércio, nenhum indício de uma piora da relação [com a China].
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

Dados disponíveis no site do Ministério da Economia mostram que, de fato, os valores referentes às trocas comerciais brasileiras com o país asiático aumentaram nos últimos anos.

Em 2020, importações e exportações com China, Hong Kong e Macau somaram a quantia de US$ 105 bilhões, ante cerca de US$ 102 bilhões em 2019 e 2018 e US$ 78 bilhões em 2017. Importante ressaltar, no entanto, que o preço das commodities subiu significativamente nesse período, o que influencia esses valores.

OMS não descartou transmissão do coronavírus entre humanos

A OMS, em certo momento, disse que o vírus não era transmissível entre humanos.
Ernesto Araújo em depoimento à CPI da Covid

Em 14 de janeiro de 2020, a OMS (Organização Mundial de Saúde) publicou em seu perfil oficial no Twitter que investigações preliminares realizadas por autoridades da China não haviam encontrado evidência clara de transmissão do novo coronavírus entre humanos.

No entanto, a OMS nunca eliminou essa possibilidade — que viria a ser oficialmente confirmada por cientistas chineses no dia 20 daquele mês.

No entanto, a atuação da OMS antes de declarar a pandemia do novo coronavírus em 11 de março de 2020 foi criticada por especialistas, que consideraram a resposta da instituição demorada.

Segundo um painel independente criado em setembro do ano passado para avaliar as medidas iniciais de combate à pandemia, tanto a OMS quanto o governo da China poderiam ter agido antes para impedir a disseminação da covid-19 pelo mundo. Formado por 13 membros, sob a liderança da ex-ministra da Nova Zelândia Helen Clark e da ex-presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf, o Painel Independente para Prevenção e Resposta à Pandemia concluiu que "a pandemia é um desastre que poderia ter sido evitado" caso tivessem sido adotadas medidas de contenção ao vírus na velocidade necessária. O relatório final da comissão foi publicado na semana passada.

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