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UOL Confere

Uma iniciativa do UOL para checagem e esclarecimento de fatos


Em sabatina, Doria erra sobre pobreza e acerta sobre economia e vacinação

Bernardo Barbosa, Letícia Mutchnik e Rayanne Albuquerque

Do UOL, em São Paulo

28/04/2022 14h11Atualizada em 28/04/2022 14h46

O pré-candidato do PSDB a presidente, João Doria, errou durante a sabatina UOL/Folha hoje ao citar dados sobre pobreza no Brasil e pesquisas eleitorais, mas acertou ao falar do crescimento da economia de São Paulo e da vacinação contra a covid-19 no estado, onde foi governador até março. Leia a checagem do UOL Confere:

Dobramos o número de pessoas pobres e miseráveis de 15 milhões para 30 milhões, são os brasileiros que vivem em situação de pobreza ou de extrema pobreza."
João Doria (PSDB)

A declaração é falsa. O número de pessoas pobres no Brasil é bem maior, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Apesar de Doria não ter especificado o período em que estes números teriam dobrado, esta não foi a evolução destes dados nos últimos anos.

Segundo o último dado do IBGE, de 2020, o Brasil tinha 5,7% da população na extrema pobreza (renda mensal de R$ 155 per capita) e 24,1% na pobreza (renda mensal de R$ 450 per capita), segundo as linhas do Banco Mundial. Isso representa 12 milhões de pessoas na extrema pobreza e 50,9 milhões na pobreza, totalizando 60,9 milhões de brasileiros.

Ainda de acordo com dados do IBGE, as proporções de pessoas na pobreza e extrema pobreza no Brasil não dobraram nos últimos anos. Entre 2012 e 2020, a proporção de brasileiros pobres ficou entre 24,1% e 27,3%; a de extremamente pobres, entre 4,7 e 6,8%.

De acordo com uma projeção feita em estudo do Made-USP (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo), o número de pessoas pobres no Brasil aumentou em 2021, mas não dobrou em relação a 2019. No ano passado, o Brasil somava 61,1 milhões de pessoas vivendo na pobreza, contra 51,9 milhões em 2019; e 19,3 milhões na extrema pobreza, contra 13,9 milhões dois anos antes.

Vale dizer que, de acordo com as últimas pesquisas, 44% dos eleitores do Brasil não querem nem Lula, nem Bolsonaro. Aos que neste momento fazem a opção por Lula, se eu não me engano, em torno de 15%, e por Bolsonaro, 18%, que estão na opção do menos ruim, mas que se tiverem uma opção de centro democrático, liberal, poderão migrar para essa nova opção."
João Doria (PSDB)

A declaração de João Doria é distorcida, porque muda o significado de dados de pesquisas eleitorais.

O ex-governador paulista não cita a fonte dos dados, mas os números citados por ele se aproximam dos da última pesquisa Datafolha, divulgada em 25 de março. Os cenários incluíam Sergio Moro (então no Podemos, hoje União Brasil), que abriu mão de sua pré-candidatura. Lula (PT) liderava com 43% das intenções de voto, contra 26% de Bolsonaro (PL). Doria aparecia com 2%.

O Datafolha perguntou aos eleitores se seus votos ainda poderiam mudar, e 21% dos apoiadores de Lula e 20% dos de Bolsonaro disseram que isso poderia acontecer. No entanto, os entrevistados não foram questionados sobre quem escolheriam ao deixar de votar em Lula ou Bolsonaro.

Pelos números do Datafolha, os 44% citados por Doria só se concretizam diante de uma conta muito específica: os 30% ou 31%, a depender do cenário de candidatos, que não declararam voto nem em Lula, nem em Bolsonaro, incluindo brancos e nulos; mais os votos dos eleitores destes dois candidatos que disseram que ainda podem mudar de ideia (14% do total).

São Paulo foi o estado que mais vacinou no Brasil. Se São Paulo fosse uma nação (...), seria o segundo país do mundo em vacinação."
João Doria (PSDB)

É verdade que São Paulo é o estado que, até o momento, mais vacinou brasileiros. Dados do consórcio de veículos de imprensa, divulgados ontem, mostram que 85,49% de seus habitantes estão com a imunização completa contra a covid-19. A seguir, aparecem Piauí (84,7%), Ceará (80,68%), Paraná (79,23%) e Rio Grande do Sul (78,49%).

Já a declaração sobre o índice de vacinação em São Paulo está sem contexto. Se fosse um país, o estado estaria em segundo lugar no ranking de vacinação mundial apenas em comparações envolvendo os países mais populosos do mundo.

No dia 9, segundo o governo paulista, o estado tinha 86,14% da população com esquema vacinal completo, o que o deixava em segundo lugar em comparação a países com população igual ou superior a 40 milhões de pessoas, de acordo com o Our World in Data, da Universidade de Oxford. São Paulo tem uma população estimada em 46,6 milhões de pessoas, segundo o IBGE.

Com os dados de ontem (85,49% da população totalmente imunizada), São Paulo apareceria em terceiro lugar entre os 30 países mais populosos do mundo, segundo o Our World in Data, atrás da Coreia do Sul (86,82%) e da China (86,33%), mas há países com populações menores e maiores taxas de vacinação, como Portugal (92,6%) e Chile (90,83%).

Este movimento [BolsoDoria] só se expressou no segundo turno [de 2018]."
João Doria (PSDB)

A fala de Doria está sem contexto. Apesar de o tucano só ter defendido abertamente a aliança no segundo turno das eleições de 2018, ele se distanciou da candidatura de Geraldo Alckmin (então no PSDB, hoje no PSB) e se aproximou de Bolsonaro no fim da campanha do primeiro turno, como mostra o noticiário da época.

A Folha noticiou, por exemplo, a "bolsonarização" do discurso de Doria na reta final antes do primeiro turno. A campanha de Doria não mostrava Alckmin e, mais perto da votação, aliados já admitiam o apoio a Bolsonaro.

Eu não usei essas palavras de facínora [contra Lula], as expressões mais duras que você colocou, embora com antagonismo em relação a Lula e ao PT."
João Doria (PSDB)

A declaração é falsa. Questionado por Josias de Souza, colunista do UOL, sobre ter chamado Lula de "facínora", Doria negou, mas há pelo menos uma gravação que mostra o contrário.

Em vídeo publicado em seu Facebook no dia 5 de abril de 2018, Doria falou sobre a prisão do petista e usou o termo. "Lula na cadeia. Facínora, mentiroso, enganou o Brasil, roubou os brasileiros, tirou a esperança de milhões de brasileiros — jovens, adultos, famílias. Promoveu o desemprego, assaltou os cofres públicos e agora, Lula, você vai para a cadeia", disse ele no vídeo.

Mais cedo hoje, o UOL publicou reportagem mostrando outros momentos em que Doria atacou Lula. Ontem, o tucano usou um tom mais ameno ao falar do petista em entrevista ao jornal Valor Econômico.

A vacina permitiu que a economia de São Paulo retomasse com força: foi a economia que mais cresceu no Brasil. No saldo desses últimos três anos, cresceu 5 vezes mais que a economia do país. São Paulo cresceu 8% no PIB, e o Brasil cresceu 1,5%."
João Doria (PSDB)

A declaração é verdadeira. Entre 2019 e 2021, o PIB (Produto Interno Bruto) do estado de São Paulo cresceu 7,8%, ou 4,6 vezes o crescimento do Brasil no período (1,7%). Os números estaduais são da Fundação Seade, e os nacionais, do IBGE. A Agência Lupa já havia verificado este dado em março.

No estudo do Datafolha, tenho 30% de rejeição. Já tive 44%. Na penúltima, tinha 37% e na última, publicada no mês de março, (...) eu tinha 30%. Portanto, uma rejeição decrescente."
João Doria (PSDB)

A declaração é verdadeira. Na última pesquisa do Datafolha, cuja íntegra foi publicada no dia 25 de março, Doria teve rejeição de 30%, e a proporção dos que dizem que não votariam nele de jeito nenhum teve queda nas últimas pesquisas do instituto. Na penúltima pesquisa, em dezembro, ele teve rejeição de 34%. Na antepenúltima, em setembro, teve 37%.

Eduardo Leite redigiu uma carta onde reconhece as prévias do PSDB, reconhece a nossa vitória, e reconhece que o candidato a presidente do PSDB somos nós."
João Doria (PSDB)

A declaração é verdadeira. Eduardo Leite (PSDB), ex-governador do Rio Grande do Sul, de fato escreveu e divulgou carta na sexta-feira (22) reconhecendo a pré-candidatura de Doria pelo PSDB e a vitória do paulista nas prévias do partido.

"O PSDB deve ter candidato a presidente e liderar o centro democrático. Hoje este nome é João Doria, por decisão dele e das prévias — das quais nunca se buscou tirar legitimidade. Qualquer caminho diferente dependeria de entendimento com o próprio candidato escolhido. Assim, me coloco ao lado do meu partido e desta candidatura, na expectativa de que a união do PSDB contribua com a aguardada unificação dos atores políticos do centro daqui até a eleição de outubro", escreveu Leite.

De janeiro de 2021 a março de 2022, dados do Caged mostram que São Paulo gerou mais de 1 milhão de empregos com registro de carteira."
João Doria (PSDB)

A declaração é falsa. Segundo dados do Painel de Informações do Novo Caged, do governo federal, divulgados hoje à tarde, já depois da sabatina, São Paulo gerou um pouco menos de 1 milhão de empregos formais no período citado por Doria. O saldo entre admissões e demissões no intervalo entre janeiro de 2021 e março de 2022 ficou em 992.975 postos de trabalho.

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