Caos toma conta de novo abrigo para moradores do Pinheirinho, e prefeitura promete mais alojamentos

Guilherme Balza

Do UOL, em São José dos Campos (SP)

Falta de água, calor excessivo, superlotação, pessoas passando mal, crianças chorando: em questão de minutos, o novo abrigo para os moradores despejados da comunidade Pinheirinho, um ginásio no bairro Parque do Morumbi, zona sul de São José dos Campos (SP), virou um caos.

Os dois únicos banheiros do ginásio estão sem água. Os chuveiros e as descargas não funcionam. Os desabrigados reclamam do calor excessivo no interior do local. Até as 18h desta quarta-feira (25), pelo menos quatro pessoas foram hospitalizadas após se sentirem mal.
 
As cerca de mil pessoas que foram alojadas no local estavam na igreja do bairro Campo dos Alemães, vizinho ao Pinheirinho, onde não estavam recebendo assistência da prefeitura. Elas haviam se recusado a ir a abrigos da prefeitura --onde os alojados recebem comida, produtos de higiene e colchões-- temendo as condições do local.

Área é desocupada pela PM
em São José dos Campos (SP)

  • Arte/UOL

Hoje, decidiram migrar para o ginásio, após a igreja alegar não ter mais condições de abrigar as famílias. Caminharam por cerca de 4 km, sob um calor de 35ºC, até o novo abrigo. Diante da situação, a Prefeitura de São José dos Campos decidiu que irá distribuir as pessoas em outros abrigos --um deles no Jardim do Sol, também na zona sul do município.
 
“Aqui é muito quente, não há ventilação. Temos que comer sentados no chão”, reclama Priscila de Oliveira Santos, 23, que está no abrigo com o marido e dois filhos --uma menina de um mês e meio e um garoto de três anos.
 
Solitário, Geldásio Santiago dos Santos, 61, se queixa da superlotação. “Não há condições de ficar tanta gente aqui. Na igreja está melhor”, diz . O pedreiro Mauro Celso dos Santos, 31, que está no abrigo com a mulher e quatro filhos, também reclama do calor. “Parece um forno micro-ondas. Três pessoas já desmaiaram. O pessoal não está querendo ficar aqui.”
 
O desempregado Rafael Aparecido, 28, era o mais revoltado: com uma filha de dez meses e outra de dois anos, ele reclama da falta de água para lavar as mamadeiras das garotas e de não haver um fogão para esquentar o leite. “Hoje minha filha disse que queria voltar para casa. Como fica um pai ao ouvir isso?”, desabafa. “Meus R$ 7.000 de investimento que usei para construir meu barraco no Pinheirinho foram embora”, acrescenta.
 
Por volta das 18h10, um carro-pipa chegou ao ginásio para abastecer a caixa d’água. Apesar do caos no abrigo, as assistentes sociais estão distribuindo fraldas, medicamentos, colchões e cobertores ao desabrigados. Também estão cadastrando as famílias para que recebam o aluguel social, um auxílio de R$ 500 que será pago pelo governo do Estado aos despejados do Pinheirinho.
 
A prefeitura informou que colocou à disposição oito escolas e ginásios para atender os desabrigados. Na segunda-feira (23), o prefeito Eduardo Cury (PSDB) afirmou que os alojamentos não tinham sido abertos pelo baixo número de pessoas que procuraram ajuda.

Processo

Mais cedo, o representante do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos Humanos (Condep), Renato Simões, informou que foi aberto um processo para apurar as denúncias de abusos cometidos contra os moradores do bairro durante a ação policial. O órgão investiga as suspeitas de violações cometidas por parte de integrantes dos governos estadual e municipal.

O coronel da Polícia Militar Manoel Messias Mello, que comandou a operação de reintegração, diz não ter presenciado ou ter recebido informações de casos de violência e abuso. “Usamos armas não letais. Fizemos o necessário para conter a pressão”, afirmou. O policial disse que foi empregado elevado número de PMS na ação (2.000) para diminuir a possibilidade de confronto. “Quando se põe muita gente é para desestimular um confronto forte. É uma medida preventiva. Sabemos que isso foi perfeitamente favorável.”

Ontem, o governador Geraldo Alckmin (PSDB) prometeu dar bolsa-aluguel para 960 famílias do Pinheirinho cadastradas pela Prefeitura de São José depois da reintegração. Segundo o advogado, o movimento exigirá que sejam pagas 1.500 bolsas para atender famílias que não se cadastraram.

Supostos desaparecidos

Na noite de ontem, em assembleia, os moradores criaram uma comissão para procurar sete pessoas que estariam desaparecidas desde a operação.

Um dos presentes, o servidor público Antonio Carlos dos Santos, 63, afirma não ter notícias da irmã e de três sobrinhos desde a desocupação. Ele deixou o município de Caçapava e foi até São José dos Campos atrás dos familiares, mas diz que não os encontrou nos abrigos onde estão as famílias. “Estou desesperado. Já faltei no trabalho dois dias para procura-los, mas não os acho."

A polícia não confirma que haja desaparecidos após a operação. Segundo balanço oficial, cerca de 20 pessoas ficaram feridas e não houve registro de mortos.

A área

Com 1,3 milhão de metros quadrados, a área que abrigava a comunidade pertencia à massa falida da Selecta, do investidor Naji Nahas. O terreno havia sido ocupado há oito anos pelas famílias e foi desocupado por decisão do Tribunal de Justiça do Estado.

Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), havia cerca de 6.000 moradores no Pinheirinho, mas menos de 3.000 foram cadastradas pela prefeitura de São José dos Campos. (Com Agência Brasil)

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