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Defesa desiste de ouvir mãe de Eloá; "Não vi arrependimento nele", diz ela sobre Lindemberg

Débora Melo

Do UOL, em Santo André (SP)

14/02/2012 11h25Atualizada em 14/02/2012 14h33

A advogada de defesa de Lindemberg Alves desistiu de ouvir a mãe de Eloá Pimentel no segundo dia de julgamento do caso, que ocorre em Santo André (Grande SP). Ana Cristina Pimentel chegou a entrar no plenário e encarou o réu. A defesa, porém, que havia arrolado a testemunha ontem, recuou e disse que não queria mais a ouvir, dando início a uma discussão com a juíza e a promotoria. A advogada Ana Lúcia Assad chegou a ameaçar deixar o plenário --o mesmo comportamento foi adotado ontem, ao exigir que Ana Cristina depusesse.

Ao fim, a promotoria aceitou o pedido, e a testemunha foi dispensada. O mesmo não aconteceu com o irmão mais novo de Eloá, Everton Douglas, cujo depoimento foi mantido mesmo contra a vontade da defesa. Everton depôs antes de ser decretado intervalo para o almoço, por volta das 12h30.

O julgamento de Lindemberg, que em outubro de 2008 manteve sua ex-namorada Eloá, de 15 anos, como refém por cerca de cem horas, foi reiniciado na manhã de hoje no Fórum de Santo André, no ABC Paulista. O cárcere terminou com a morte da jovem e com a amiga dela, Nayara Rodrigues, baleada.

Em entrevista aos jornalistas, Ana Cristina disse que se sentia humilhada por ter sido dispensada e que gostaria de ter falado. A mãe de Eloá afirmou que Lindemberg é um assassino. "Eu tratava ele como filho", disse. Ela completou que está preparada para ouvir o que ele tem a dizer no plenário. "O pior já passou, que foi perder minha filha", ressaltou. "Não vi arrependimento nele, ele não pediu perdão", afirmou, relembrando o momento em que eles se olharam no plenário. Segundo a mãe, Lindemberg fez um gesto com as mãos, interpretado por ela como um pedido para que ela "limpasse a barra" dele.

Ana Cristina ainda lembrou o dia do início do cárcere. "Eu tive um pressentimento: eu disse para a Eloá e para o meu filho mais novo não abrirem a porta se ele fosse lá. Mas ele foi e acabou entrando. Ele convenceu meu filho a entrar em casa. Não entendo de lei, mas acho que ele tem que continuar preso", afirmou.

Ontem, a juíza Milena Dias, que conduz o julgamento, havia aceitado o pedido da defesa e autorizado a inclusão da mãe e do irmão mais novo da jovem como testemunhas. Nos bastidores, afirma-se que o pedido da defesa seria uma estratégia para retirar a mãe de Eloá do plenário, evitando que ela comovesse os jurados.

Hoje foi ouvido o irmão mais velho de Eloá, Ronickson Pimentel, que se emocionou durante o depoimento. Ele chegou a afirmar que Lindemberg é "um mostro", mas sua família o tratava "como um filho".

Ronickson também contou que seu irmão mais novo, Everton Douglas, se sente culpado pela morte da irmã porque foi ele quem apresentou Lindemberg a Eloá. 

Depois de Ronickson, começaram a ser ouvidas as dez testemunhas convocadas pela defesa. A previsão é que o julgamento dure até quarta ou quinta-feira.

Após os depoimentos das testemunhas, o réu será interrogado –Lindemberg, que até agora se recusou a falar, poderá permanecer calado, mas sua advogada já adiantou que ele vai falar sobre o caso e "expor sua versão". Depois dessa etapa, os debates são abertos, com uma hora e meia para a acusação e uma hora e meia para a defesa, além da réplica e da tréplica.

VEJA COMO FOI O PRIMEIRO DIA DO JULGAMENTO

Primeiro dia de julgamento

O primeiro dia de julgamento durou pouco mais de nove horas e foi encerrado às 20h de segunda-feira (13). As quatro testemunhas que prestaram depoimento confirmaram que Lindemberg fazia ameaças de morte durante o cárcere privado. O testemunho mais esperado do dia era o da amiga de Eloá, Nayara Rodrigues, que foi feita refém junto com a jovem. Nayara pediu que Lindemberg fosse retirado da sala enquanto ela falasse.

A jovem, que foi ferida por um tiro no rosto quando a polícia invadiu o local, disse que o réu agrediu Eloá durante o período de cativeiro e que a vítima dizia o tempo todo que “sabia que ia morrer”. Nayara afirmou que ouviu três disparos antes da entrada da polícia no apartamento –o que comprova a tese da acusação, de que os tiros partiram do réu e não da polícia.

A amiga de Eloá também falou sobre o comportamento do ex-namorado da vítima. “Lindemberg passou a perseguir a Eloá depois que eles terminaram o namoro”, completou. Segundo a jovem, ele a considerava uma má influência para a vítima. "Ele tinha raiva de mim e da minha mãe porque a Eloá andava dormindo lá em casa e a gente saia bastante. Ele dizia que eu a influenciava diretamente."

Já sobre o comportamento do réu durante o cárcere, ela afirmou que Lindemberg dava risada e se vangloriava pela repercussão do caso na mídia. "Na televisão só passava isso [relatos do caso]", disse Nayara.

A advogada de defesa, Ana Lúcia Assad, questionou o teor do depoimento. “A Nayara mentiu e inventou (...). Por ela ser vítima, o depoimento dela é um depoimento suspeito”, disse. “Ela foi bem orientada por seu advogado, até simulou um choro, uma emoção, para dramatizar.”

Outros dois amigos de Eloá, que também foram mantidos reféns, afirmaram que Lindemberg os ameaçava de morte. "Ele dizia que ia fazer uma besteira", disse Victor Lopes de Campos respondendo às perguntas da promotora Daniela Hashimoto. Já Iago Oliveira afirmou que "ele ameaçava a Eloá a toda hora, e dizia que ela não ia sair viva de lá: ou ele ia matar todo mundo e se matar, ou matar a Eloá e se matar".

O sargento Atos Antonio Valeriano, policial militar que iniciou o trabalho de negociação com Lindemberg, disse que o jovem estava nervoso e dizia que “ia matar os quatro” e depois ameaçava também se matar.

Entenda o caso

Lindemberg Fernandes Alves, então com 22 anos, invadiu o apartamento de sua ex-namorada Eloá Cristina Pimentel, 15, no segundo andar de um conjunto habitacional na periferia de Santo André, na Grande São Paulo, no dia 13 de outubro de 2008. Armado, ele fez reféns a ex-namorada e outros três amigos dela, que estavam reunidos para fazer um trabalho da escola.

Em mais de cem horas de tensão, Lindemberg chegou a libertar todos os amigos, mas Nayara Rodrigues acabou voltando ao cativeiro, no ponto mais polêmico da tragédia --a polícia, que trabalhava nas negociações, foi bastante criticada por ter permitido o retorno.

Em depoimento, Nayara afirmou que, após ter sido liberada, foi procurada por policiais que queriam que ela tentasse convencer Lindemberg a libertar Eloá pelo telefone. Então ela os acompanhou até o local do sequestro e foi orientada pelo rapaz ao celular a subir as escadas. Nayara disse que Lindemberg prometeu que os três desceriam juntos, mas, quando chegou à porta, viu que ele estava com a arma apontada para a cabeça de Eloá. Então, ele puxou Nayara para dentro do apartamento e não a libertou mais.

Mais tarde, policiais militares do Gate (Grupo de Ações Táticas Especiais) invadiram o apartamento, afirmando que ouviram um estampido do local. Em seguida, foram ouvidos tiros. Dois deles atingiram Eloá, um na cabeça e outro na virilha, e outro atingiu o nariz de Nayara. Eloá morreu horas depois. Lindemberg foi preso.

O réu é acusado de cometer 12 crimes, entre eles homicídio duplamente qualificado por motivo torpe, tentativa de homicídio (contra Nayara Rodrigues e contra o sargento Atos Valeriano), cárcere privado e disparos de arma de fogo. Se for condenado por todos os crimes, a pena pode ser superior a cem anos de prisão –Lindemberg está preso desde 2008.

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