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Em Alto Paraíso (GO), moradores se dividem entre rotina e rituais para enfrentar o dia em que o mundo não acabou

O colombiano Julio Álvares veio para Alto Paraíso, em Goiás, com a expectativa de sobreviver ao fim do mundo; na foto, os chalés que ele construiu para se refugiar - Evaristo Sa/AFP
O colombiano Julio Álvares veio para Alto Paraíso, em Goiás, com a expectativa de sobreviver ao fim do mundo; na foto, os chalés que ele construiu para se refugiar Imagem: Evaristo Sa/AFP

Lourdes Souza

Do UOL, em Alto Paraíso (GO)

21/12/2012 15h36

Apesar das previsões místicas sobre o fim do mundo, a rotina da cidade de Alto Paraíso, na Chapada dos Veadeiros, a 410 quilômetros de Goiânia, está tranquila. A movimentação pelas ruas é calma, o comércio e a prestação de serviços funcionam normalmente.

Mas mesmo diante de uma pacata sexta-feira (21), o engenheiro agrônomo aposentado Edison Pereira Lemos, 68, afirma que mudanças estão ocorrendo no planeta, que sai da era de Peixes para a de Aquário.

"O tema fim de mundo é alegórico, mas essa transição ocorre a cada 5.125 anos e promove alterações na verticalização do eixo da Terra, que pode gerar panes. Essa transição deve durar até 2018, isso é o que fala as teorias", diz Lemos, que se preparou para enfrentar três dias na escuridão.

Em sua casa, há estoques de 25 garrafas pets com água potável e outras 40 para serem utilizadas na limpeza e banho. Edison, que nasceu no Rio de Janeiro e se mudou há dez anos para Alto Paraíso, também se preocupou em comprar frutas secas, sementes de abóbora e de maracujá e shakes, caso haja imprevistos.

"A gente não sabe como serão esses dias", diz o engenheiro agronômo que também adquiriu um lampião e chuveiro manual.

Na zona rural da cidade, o paulista Augusto Vinholis diz acreditar nas teorias maias e prevê que haverá três dias na escuridão. Para enfrentar o período, ele se trancou em sua propriedade por volta das 11h com familiares.

"Espaços-nave"

Num ritmo diferente, João Rubens Dahmer, 31, manteve as obras da pousada Espaço Naves Luna Zen. Pedreiros dão continuidade aos trabalhos para levantar as sete "espaços-nave", que compõem o local.

A expectativa de Dahmer, que nasceu no Rio Grande do Sul e está em Alto Paraíso há um ano e meio, é de que os sete "espaços-nave", quiosques para hospedar turistas, sejam concluídas até o Carnaval.

Até agora, apenas três estão prontos. Uma delas serve de moradia para o colombiano Julio Álvarez, 54, que trabalha como caseiro do local e deixou seu país em busca de segurança para passar os dias que antecederiam o fim do mundo.

Além do quiosque, que seria à prova de terremotos, ele comprou um colchão inflável caso seja necessário flutuar sobre dilúvios. Para Dahmer, que está recepcionando familiares que vieram do Rio Grande do Sul conhecer a cidade, há exageros.

"Hoje, vamos fazer um churrasco e depois vamos conhecer as belezas naturais da cidade. Aqui tem muitas pessoas excêntricas."

A movimentação na cidade se tornou oportunidades de negócios também para a poetisa Londina Maria do Carmo, que vende livros para os turistas. Com exemplares do livro "Lembrança de um passado distante", ela diz que não espera o fim do mundo, mas apenas que o dia acabe com mais rendimentos financeiros.

Imóveis

O corretor de imóveis e radialista Nilton Kalunga afirma que o mercado imobiliário da cidade teve um aquecimento progressivo desde o início do ano. Segundo ele, os valores de imóveis e terrenos tiveram uma alta de 100%.

Kalunga conta que o preço do metro quadrado na cidade saiu de R$ 30 no começo do ano para R$ 60, em dezembro. Ele avalia que neste segundo fim do mundo aqueceu as vendas, que foram ampliadas em até 50%.

"Esse crescimento é uma tendência observada no município ao longo dos anos. Claro que as características místicas atraem compradores. Neste ano, houve um impacto, mas não tão forte como em 1999, quando cheguei a vender 70 lotes para um mesmo grupo de amigos."

Comemorações oficiais

As especulações sobre o fim do mundo geraram euforia na rede hoteleira de Alto Paraíso, que previa lotação máxima para o final de semana. Até o início da tarde desta sexta-feira, 21,60% dos leitos estavam ocupados, segundo informações da assessoria de imprensa da prefeitura.

Para o prefeito Alán Barbosa, o período de festas natalinas pode ter reduzido a procura pela cidade, já que as pessoas preferem ficar mais próximas dos familiares. Mas garante que as teorias maias de que o mundo se acabaria incrementaram o turismo na cidade, o que deve gerar aumento de até 40% no faturamento em relação ao mesmo período do ano passado.

Barbosa diz que esta mobilização impulsionou uma série de comemorações oficiais no município, que se iniciaram desde o dia 12 de dezembro, quando a cidade completou 59 anos. Batizado de "Todo Mundo no Paraíso", o calendário de eventos prevê shows gratuitos na praça da rodoviária, a partir das 20 horas com artistas locais.

No sábado (22), a convidada é a vencedora do The Voice Brasil, Ellen Oléria. Até a semana passada, o show anunciado seria de Paulinho Moska, que não se confirmou.

Para garantir a segurança e atendimento aos turistas, a prefeitura reforçou as equipes da PM (Polícia Militar), que teve o efetivo duplicado.

Alto Paraíso conta com 15 policiais e outros 15 foram encaminhados para atuar na segurança no período de maior visitação. A Polícia Civil e o Corpo de Bombeiros também ampliaram o número de profissionais no município.

Quartzo

A procura por Alto Paraíso se justifica pelo misticismo que confere à cidade o título de ser um local livre de tragédias. O município, que é cortado pelo paralelo 14, que atravessa Machu Picchu, no Peru, está sobre uma placa de quartzo de 4.000 metros quadrados e a 1.300 metros acima do nível do mar.

Segundo o prefeito Alán Barbosa, essas características naturais, aliadas à espiritualidade dos moradores e visitantes da cidade, têm reforçado o turismo local.

Ele diz que na cidade há grupos místicos, mas que a grande maioria não tem essa visão. "O nosso trunfo é a diversidade, aqui temos pessoas de culturas e religiões diferentes e conseguimos viver em harmonia. Aqui cabe até o fim do mundo".

Cotidiano