Otimistas, cicloativistas acreditam em uma maior integração das cidades com a bicicleta

Márcio Padrão

Do BOL, em São Paulo

Neste domingo (22), o Dia Mundial Sem Carro volta a propor uma reflexão sobre a dependência dos automóveis nas metrópoles e pede que nesse dia as pessoas deixem espontaneamente seus carros na garagem. É certamente uma das datas mais esperadas pelos cicloativistas, que tentam convencer a parcela da sociedade que ainda resiste à bicicleta como alternativa de locomoção.

Ciclista encara desafio de pedalar por grande avenida de SP

Ciclistas que tentam encarar o trânsito diário ainda sofrem com falta de espaço para circular, a impaciência dos motoristas e o medo de se ferir ou morrer vítima de acidentes. Para promover o debate sobre um novo modelo de transporte público, mais democrático e menos caótico, os cicloativistas argumentam que as bicicletas são veículos mais adequados para curtas distâncias, trazem benefícios à saúde, não poluem, não ocupam grandes espaços. Além disso, muitas cidades da Europa vêm implantando diversos incentivos aos ciclistas nos últimos anos.

Em São Paulo, grupos como o Bike Anjo, Instituto CicloBR, Vá de Bike e Ciclocidade estimulam o aumento de usuários de bicicleta e dialogam com o poder público reivindicando mais ações que favoreçam os ciclistas. Ainda que as estatísticas ainda sejam sombrias – segundo reportagem do UOL, um ciclista morre em acidente de trânsito por semana em São Paulo – os ciclistas de longa data entrevistados por esta reportagem estão confiantes em virar o jogo.

A jornalista Aline Cavalcante, 27 anos, saiu de Aracaju para morar em São Paulo em 2008 e foi nesta cidade que desenvolveu o interesse de descobrir a cidade pela bicicleta. Há dois anos, atua como voluntária no Bike Anjos, onde dá dicas para os novos ciclistas pedalarem com mais segurança. "Hoje em dia, ouço muito menos agressões verbais [dos motoristas]. Sou bem otimista com a cidade, considerando as pessoas que moram nela. O que não sou tão otimista é com a politica do país, pois se ela estiver atrelada à indústria do petróleo, não adianta", afirma Aline.

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  • Arte UOL

"Com ela fico muito menos estressado do que nos outros meios de transporte, tanto os públicos quanto nos carros", orgulha-se um dos fundadores do Ciclocidade, o jornalista e produtor Thiago Benicchio, 34 anos. Ele acredita que as conquistas nessa área ainda são poucas, mas tem observado mais coerência nos projetos cicloviários e maior adesão popular. "A sociedade tem achado importante contemplar a bicicleta", reforça.

Mais 400 km em São Paulo

Ronaldo Tonobohn, superintendente de Planejamento da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET) de São Paulo, afirma com todas as letras que apoia a causa dos cicloativistas. "O automóvel particular não é prioridade na nossa gestão. A meta é de implantar 400 quilômetros de estrutura cicloviária até o final desta administração [do prefeito Fernando Haddad]", enfatiza.

Atualmente a capital paulista conta com 60 km de ciclovias, 3,3 km de ciclofaixas permanentes no bairro de Moema e mais 58 km de ciclorotas, além de 120 km de ciclofaixas de lazer apenas aos domingos e feriados. Para os 400 km estimados, a CET já inclui 150 km de ciclovias ao lado dos novos corredores de ônibus e 60 km de ciclovias que já tem projeto executivo concluído. Além disso, cita projetos de 140 km de outras infraestruturas cicloviárias e 300 km de rotas de bicicletas integradas ao seu projeto de bicicletas compartilhadas, o Bike Sampa. Se tudo ocorrer como o esperado, a meta de 400 km da gestão será superada.

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A prefeitura ainda procura um modelo de integrar a bicicleta a outros tipos de transporte, como ônibus e metrô. "Estamos estudando casos de sucesso de cidades como Amsterdã, Barcelona e Nova York, mas ainda não decidimos. O que se sabe é que não deverá ser um modelo totalmente importado, mas com adaptações à nossa realidade", adianta Tonobohn.

Orientando novatos

Ainda há muito a ser feito, porém. Os ciclistas continuam enfrentando desafios como a ferocidade do trânsito, os empecilhos geográficos, a pouca sinalização e a falta de estacionamentos para bicicletas. "As pessoas ainda são muito agressivas. Xingamento é o mais leve que enfrentamos; tem o motorista que 'tira fino', passando rápido. Não é todo dia, mas existe. Pedalar em São Paulo é como surfar, o humor no trânsito varia de acordo com horário, local, lentidão do metrô", explica Benicchio.

  • UOL

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"As ciclovias existentes não são suficientes ou estão com má qualidade. Você não tem onde estacionar. Você só vê placas de 'proibido bicicleta'. O respeito das pessoas é que cresceu. Há cinco anos, você não tinha o mesmo entendimento da sociedade para com os ciclistas", complementa um dos fundadores da Bike Anjo, o pesquisador João Paulo Amaral, de 26 anos.

Atuante desde 2010, a iniciativa afirma ser uma rede de 800 ciclistas voluntários em 80 cidades do Brasil. O processo de orientação da Bike Anjo varia conforme o perfil. "Se a pessoa não tiver nenhuma noção, costumamos levá-la a um parque ou para bairros mais tranquilos", define Amaral.

Sua colega no grupo, Aline Cavalcanti também vê esse processo como um fator de socialização. "Ajudei mais de 100 pessoas desde que me voluntariei, com certeza. Essa atividade tem o poder de integrar pessoas. Se comparar com antes e depois de pedalar, a bicicleta me apresentou muita gente. Além disso. Você passa a pesquisar rotas alternativas e conhecer mais as ruas. Dizem que eu conheço mais a cidade do que quem mora aqui".

Os cicloativistas acreditam que os benefícios da causa são capazes de atrair mais gente e progressivamente mudar o paradigma do trânsito para melhor. "É importante colocar o tema em pauta e pedir melhorias para aqueles que pedalam. A dificuldade é quando você não tem uma forma oficial de conversar com as autoridades, por isso é importante ter um grupo organizado para participar de processos com o poder público", resume o jornalista Felipe Aragonez, diretor do Instituto CicloBR, cicloativista desde 2006.

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