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Cotidiano

Sai Exército, entra UPP: após ano violento, Maré vê futuro com desconfiança

Paula Bianchi

Do UOL, no Rio

20/03/2015 06h00

Maria*, 65, vive há 45 anos no Complexo de Favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro. Quando se mudou, a área, até então à beira da Baía de Guanabara, era repleta de casas sobre palafitas e ainda pouco urbanizada. Com o tempo, o conjunto de favela e a região cresceram –hoje, cerca de 130 mil pessoas se dividem entre 16 comunidades. O mar deu lugar a um aterro e o local em que ela morava, antes tranquilo, ganhou o apelido de "Faixa de Gaza", por representar o ponto simbólico da divisão entre as favelas Nova Holanda e Baixa do Sapateiro e também entre as áreas dominadas pelas facções Comando Vermelho e Terceiro Comando.

A chegada do Exército ao conjunto de favelas, que completa um ano no dia 5 de abril, no entanto, não foi suficiente para mudar a rotina de violência a que ela e os vizinhos acabaram por se acostumar. A região guarda nas paredes a memória dos inúmeros confrontos que presenciou. Não há uma casa sem marcas de tiros na fachada. Maria não é exceção: em sua sala, há quatro buracos feitos por tiros de fuzil cobertos por reboco, contrastando com a parede vermelha. Em dúvida quanto ao futuro da comunidade, Maria preferiu manter os buracos sem tinta.

Até o dia 30 de junho, os cerca de 3.000 militares que ocupam o conjunto de favelas irão deixar gradualmente a Maré, a fim de abrir espaço para a chegada da Polícia Militar e a instauração da 39ª UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) do Estado. A ocupação, que ocorreu a pedido do governo estadual poucos meses antes de o início da Copa do Mundo, deveria ter durado seis meses.

A reportagem do UOL caminhou por seis das 16 comunidades do complexo. Em cerca de duas horas, cruzou com quatro bocas de fumo, dois homens sem uniforme com pistolas na cintura, grupos de militares armados com fuzis atrás de barricadas e militares patrulhando a comunidade em cima de tanques do Exército.

Segundo a Força de Pacificação, foram registradas sete mortes desde a chegada dos militares, em abril de 2013, incluindo a do cabo Michel Augusto Mikami, em novembro. Organizações de direitos humanos ligadas à favela, no entanto, contestam esse dado e falam em 20 mortos. Apenas no último mês, segundo o Observatório de Favelas e a ONG Redes da Maré, quatro pessoas teriam sido mortas e outras nove feridas devido a ação dos militares e da polícia no complexo.

No mês passado, o estoquista Vitor Santiago Borges, 29, passou cinco dias em coma e teve a perna amputada após ser atingido por tiros de fuzil disparados por militares nas pernas e no tórax quando voltava de um jogo de futebol com outros quatro amigos. Segundo o Exército, o grupo não obedeceu ao pedido de parar o veículo. Dias depois, cerca de 300 moradores fecharam parte da Linha Amarela em protesto contra a presença dos militares na comunidade.

Diretor e um dos fundadores da ONG Observatório de Favelas, localizada dentro da Maré, Jaílson de Souza e Silva diz que a ocupação teve um impacto muito forte no começo, mas que, com o tempo e o aumento da truculência dos militares, em especial após a morte do cabo, perdeu a sua função. “Muitos criminosos que estavam na favela foram embora, sumiram com armas, passaram a vender drogas de forma mais dissimulada”, afirma. "Mas a partir de janeiro acabou tudo."

Segundo ele, que vê a atuação atual do Exército como uma mera “formalidade”, a mudança se deve, em grande parte, à mudança de tropas a cada dois meses, que atrapalhou o processo de relacionamento com a comunidade, somada à desorganização, à falta de intimidade dos militares com a região e ao aumento da violência.

Porém houve uma diminuição nos confrontos entre as facções, na percepção da diretora da ONG Redes da Maré, Patrícia Vianna. "Agora eles só atiram contra o Exército, não entre eles", afirma. Segundo ela, a presença dos militares divide a população. O temor sobre a chegada da PM, no entanto, é quase unanimidade. 

Em nota, a Força de Pacificação afirma que os militares atuam na Maré com "dedicação exclusiva à segurança da população na promoção da almejada paz social" e "foram muito bem instruídos e orientados, no sentido de desempenhar suas atividades com a observância dos princípios de utilização da força mínima necessária e da proporcionalidade, visando sempre à preservação da segurança e da integridade física da população local". 

Os moradores, no geral, preferem evitar comentar o cotidiano da ocupação. Descrevem o Exército como mais respeitoso do que a PM, e muitos lembram o que ocorreu no Complexo do Alemão, em que parte do tráfico retomou algumas áreas da favela e chegou a coordenar ataques a UPPs. Pelas redes sociais, grupos comentam e publicam, com frequência, vídeos que mostram abordagens violentas e trocas de tiros ocorridas no conjunto de favelas. 

Marcelo*, dono de um bar próximo à entrada da favela Salsa e Merengue, fala com medo sobre a presença da PM –desde janeiro, 212 policiais militares patrulham a comunidade em conjunto com o Exército, como parte do processo de transição para a UPP. Ele diz que, quando os PMs estão por perto, acaba tendo que fechar mais cedo. “Desde que a PM chegou, minha venda caiu. Tudo é motivo para revista, as pessoas deixam de vir ao bar”, conta. “Com a UPP vai mudar, sim, vai ter mais mortes”, diz, ao citar o Alemão como exemplo.

Em fevereiro, lembra Clara*, filha de Maria, ocorreram tiroteios todas as semanas. Nesses momentos, a família se esconde atrás da escada que liga a cozinha aos quartos, nos fundos da casa. De alvenaria, o corrimão funciona como espécie de bunker improvisado. "A gente se esconde atrás da escada e não ouve nem vê nada", diz Maria. "Parece que estão jogando pedras em uma lata de lixo", explica, ao lembrar os sons dos tiros contra os tanques do Exército. 

Marta*, dona de uma pequena lanchonete perto da base do Exército na Vila do Pinheiro, se diz descrente frente ao futuro do complexo. "Quando eles chegaram, a gente esperava que fosse melhorar, mas não mudou nada", diz. "Temos esperança entre aspas."

*Os nomes foram modificados a pedido dos moradores.

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