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Moradores narram tiroteios diários na Maré: "ficamos em casa que nem bicho"

Gustavo Maia

Do UOL, no Rio

29/06/2015 06h00

A substituição definitiva das Forças Armadas pela Polícia Militar no patrulhamento do complexo de favelas da Maré, na zona norte do Rio de Janeiro, nesta terça-feira (30), vai marcar o fim de uma ocupação de 15 meses que, para os moradores da região, falhou na missão de levar paz às comunidades.

Na última semana de operação da Força de Pacificação, "mareenses" --como se autodenominam os habitantes do complexo-- ouvidos pela reportagem relataram tiroteios diários no mês de junho e falaram do medo de ser alvo de uma bala perdida, como a que matou um morador dentro de casa, no último dia 17. "A gente tem que ficar em casa que nem bicho", disse um catador de lixo que vive no complexo. "Mas quando a PM chegar também não vai dar certo não. Se o Exército que é o Exército está sofrendo desse jeito, imagine eles."

Os habitantes do complexo de favelas demonstram pessimismo com a iminente ocupação da PM em toda a Maré. “Vai piorar”, opinaram diversos moradores.

Ao fim da estada dos militares nas comunidades, pouco mudou na prática. As facções TCP (Terceiro Comando Puro) e CV (Comando Vermelho) continuam a se atacar na briga pelo comando do tráfico de drogas nas 16 comunidades que integram o complexo. A avaliação da Força de Pacificação, no entanto, é de que a operação foi exitosa, por "restringir a liberdade de ação das facções, retirar destas a sensação de impunidade e reduzir seu poder econômico".

Do dia 1º de abril do ano passado até o dia 23 deste mês, as tropas federais informaram ter efetuado 672 prisões, 252 apreensões de menores e 1.352 apreensões dentre drogas, armas, munições, veículos, motos e materiais diversos. Ao todo, foram mais de 82,3 mil ações, entre elas revistas de pessoas e veículos, realizadas por mais de 23 mil militares --divididos em sete grupos.

Para um morador da Maré, que abriga aproximadamente 140 mil habitantes, a raiz dos problemas das comunidades é muito mais profunda que apenas a segurança pública. “O governo ficou 40 anos sem vir aqui para nada. Não é o Exército, e muito menos a PM, que vai resolver", comentou.

Morador da comunidade Vila dos Pinheiros há três décadas, o comerciante Sebastião Pereira, 73, diz acreditar que as Forças Armadas impõem mais respeito aos criminosos que a PM, apesar das vezes em que “a rapaziada resolve fazer besteira”, referência às frequentes trocas de tiros com as tropas. “Acho que seria melhor se continuasse como está. Os bandidos têm mais raiva da polícia”, declarou.

"Com a PM, vai piorar"

A troca da Força de Pacificação pela PM começou gradativamente no último dia 1º de abril, com a ocupação das duas comunidades mais "tranquilas" --Praia de Ramos e Roquette Pinto-- onde será instalada a primeira das quatro UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) da Maré, em julho. Um mês depois, a substituição aconteceu em mais quatro favelas: Nova Holanda, Parque União, Rubem Vaz e Nova Maré.

Segundo moradores destas comunidades, no entanto, a PM se limita a patrulhar os acessos a elas pela avenida Brasil, ou a entrar em eventuais operações. A reportagem caminhou pelas favelas na tarde da última quarta-feira (24) e não identificou a presença de policiais militares.

Dentro de uma das viaturas da PM estacionada próxima à entrada da comunidade Nova Holanda, dois policiais estavam sentados nos bancos da frente, rebaixados, com fones de celular nos ouvidos. As janelas do carro estavam fechadas.

A reportagem abordou os policiais e os questionou sobre a presença da PM na comunidade e se era seguro entrar no local. Um deles respondeu que o Exército estava lá dentro e foi logo corrigido pelo colega, dizendo que a favela já era patrulhada pela Polícia Militar. "A gente não sabe de muita coisa aqui não. Só estamos dando apoio. Mas eu não entraria sozinho aí não", completou o primeiro policial.

Para comentar as informações, a reportagem solicitou à PM uma entrevista com o responsável pelo patrulhamento nas comunidades e com o porta-voz da PM do Rio, coronel Frederico Caldas, mas obteve apenas a seguinte frase como resposta: "a Polícia Militar vem atuando desde a transição com policiamento nos acessos, no interior das comunidades e em operações com as tropas especiais".

A diarista Vera dos Santos, 62, prefere não criar expectativas sobre a mudança no patrulhamento. “Eu estou entregando nas mãos de Deus. É complicado esperar qualquer coisa. Semana passada mesmo morreu um rapaz dentro de casa”, afirmou, enquanto passava por uma barricada da Força de Pacificação na Vila dos Pinheiros, de mãos dadas com a neta de três anos.

Outro morador, que pediu para não ser identificado, não poupou críticas à Polícia Militar e à política de pacificação do Governo do Estado. "“A PM não presta, nunca prestou e não é agora que vai prestar. Eles vão extorquir, roubar e matar, como fazem em todas as comunidades. Se UPP fosse para melhorar de verdade, eles não teriam feito o que fizeram com o Amarildo na Rocinha. O tanto de Amarildo que vai ter aqui vai ser brincadeira", afirmou.

A atual situação assusta, mas o futuro é ainda mais desanimador para ele. "Nenhum policial vai arriscar a vida nessa guerra contra as drogas que todos sabem que nunca vai acabar. Eles só querem ganhar o peixe deles”, disse.

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