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Mulher é presa acusada de simular doença nos olhos para receber doações

Kamilla Resende Nunes, 30, foi presa nesta sexta-feira (28) em São Gotardo (MG) - Portal SG Agora
Kamilla Resende Nunes, 30, foi presa nesta sexta-feira (28) em São Gotardo (MG) Imagem: Portal SG Agora

Carlos Eduardo Cherem

Colaboração para o UOL, em Belo Horizonte

31/07/2017 17h45

Uma mulher foi presa em São Gotardo (MG), acusada pela Justiça de fingir uma infecção nos olhos e simular feridas com maquiagem para comover as pessoas e assim receber doações para um suposto tratamento oftalmológico.

Além da prisão, na sexta-feira (28), foram realizadas buscas e apreensões na casa de Kamilla Resende Nunes, 30. O Fórum de São Gotardo informou nesta segunda-feira (31) que ela ainda não tinha constituído advogado.

O promotor de Justiça de São Gonçalo, Sérgio Alvarez Contagem, disse que as apurações do caso foram conduzidas pelo próprio MP (Ministério Público) de Minas Gerais, mas o caso corre atualmente sob sigilo.

Em seu depoimento à polícia, Nunes disse que sofre de hipertensão arterial maligna. Ela afirmou que a doença é rara e acomete órgãos como o coração, rins, tireoide e olhos.

A mulher alegou ainda ter deslocamento de retina e hipertensão intraocular, devido a uma infecção contraída em uma cirurgia na cabeça.

Ainda de acordo com a polícia, Nunes mostrou cicatrizes e marcas do lado direito do rosto e também um tipo de secreção que sairia de seus olhos. Ela foi examinada por um médico no Hospital da Santa Casa de São Gotardo, passou por um eletrocardiograma e teve os olhos limpos.

O exame constatou que ela possui hipertensão. Com relação à infecção nos olhos, o médico disse à PM que ela teria de ir a um especialista para confirmar a infecção.

Oftalmologista

O oftalmologista Jader Martins Mariano Silva, 49, com 17 anos de profissão, foi incumbido pelo MP de avaliar a situação.

“Foi na segunda-feira (24) da semana passada. O promotor marcou, mas ela (Nunes) não compareceu”, afirmou o oftalmologista.

“A hipertensão arterial crônica maligna, que é de difícil controle, pode atingir a retina, causando retinopatia hipertensiva. Entretanto, essa doença não é visível a olho nu. A retinopatia hipertensiva só é detectada com um exame de fundo de olho, com equipamento”, disse Mariano Silva.

Para o médico, que esteve anteriormente com Nunes na promotoria, a doença alegada pela mulher não é verdadeira.

“Poderia ser parecido com uma celulite orbitária, mas não tão exagerado. E se ela tivesse uma doença dessas (celulite orbitária), ela estaria internada num hospital, sendo tratada com antibióticos. Aquilo (a doença) é uma farsa mesmo”.

Maquiagem

Uma moradora de São Gotardo, município mineiro de cerca de 40 mil habitantes, disse que corre pela cidade uma história de que Nunes teria engordado a conta bancária em até R$ 50 mil com a suposta fraude. Ela pediu para não ter o nome revelado.

“Tem gente que fala que ela (Nunes) arrecadou mais de R$ 50 mil. Participei da mobilização, mas eu mesma não cheguei a dar dinheiro nenhum”, disse a funcionária pública municipal.

Os policiais apreenderam com a suspeita 35 unidades de batom, 15 lápis de olhos, 16 tipos de cremes hidratantes, 19 modelos de pincéis de maquiagem, 15 tipos de sombras para os olhos, um conjunto de sombra com diversas cores, seis bases de maquiagem de cores diferentes, máscara para cílios e dezenas de esmaltes. 

As autoridades investigam se o material pode ter sido usado no suposto golpe. 

Outro morador local, que também pediu anonimato, disse que a campanha realizada pela suspeita movimentou São Gotardo.

“Ela mobilizou todo mundo nas redes sociais. A mídia fez campanhas para arrecadar doações, que foram feitas em dinheiro, mas muita gente também enviou alimentos”, afirmou ele.

“Doação não é crime”

Nunes confirmou que estava arrecadando dinheiro para uma cirurgia nos olhos. Ela ainda declarou aos policiais que “doação não é crime” e que “nunca recebeu ajuda de nenhum órgão público”. Ela explicou que faz rifas e campanhas em redes sociais para pagar uma cirurgia de R$ 7 mil, que precisaria fazer com urgência nos olhos.

Enfermeiras que atenderam a mulher anteriormente disseram à polícia que ela sempre impediu que limpassem seus olhos, dizendo que já tinha tido quatro paradas cardíacas. Porém, nos exames cardiovasculares não havia sinais de infartos.

Durante seu depoimento à polícia, na sexta-feira (28), logo após a prisão, Nunes começou a passar mal e foi amparada. Ela disse que tem convulsões diariamente.